
MEMÓRIA
O Campeonato de 1985 teve início em 26 de janeiro e término em 31 de julho. No total foram realizados 464 jogos, com 44 clubes participantes. Foram marcados 1.126 gols, com média de 2,42 por jogo. A média de público foi de 11.625 pagantes por partida.
Decisão
Para alcançar o título brasileiro de 1985, o Coritiba teve de disputar a primeira fase com dez equipes e alcançou sua classificação ocupando a terceira colocação no grupo, eliminando times tradicionais como Santos, São Paulo, Cruzeiro, Flamengo e Fluminense.
Na segunda fase, o Coxa caiu em um grupo fortíssimo: Corinthians, Sport Recife e Joinville. Apenas um se classificava para o quadrangular final. Deu Coritiba, que em turno e returno, obteve três vitórias, dois empates e apenas uma derrota. O adversário da semifinal foi o poderoso Atlético Mineiro, com os craques Reinaldo, Nelinho, Paulo Isidoro e o goleiro João Leite. O Coxa não se intimidou e, na primeira partida em Curitiba, venceu por 1 a 0, gol de Heraldo. Todos pensavam que o Coritiba já tinha ido longe demais e que não ia agüentar a pressão do Mineirão, mas os valentes jogadores do Coxa seguraram a pressão do Galo e da torcida. O jogo terminou 0 a 0 e a equipe paranaense foi para sua primeira decisão na competição.
Na final, o Coxa chegou novamente como azarão. O Bangu tinha feito a melhor campanha durante a competição e poderia decidir o título em casa. O estádio, óbvio, foi o Maracanã, que recebeu quase cem mil torcedores. Do Paraná, cerca de cinco mil foram até o Rio para apoiar o Coxa.
O jogo, como não poderia deixar de ser, foi muito nervoso. No tempo normal empate por 1 a 1, com gol de Índio, artilheiro da equipe com nove gols, para o Coritiba, aos 25 do primeiro tempo, e de Lulinha para o Bangu, dez minutos depois.
O empate na prorrogação levou a decisão para os pênaltis. As duas equipes acertaram as cinco primeiras cobranças. No sexto de tiro do Bangu, o atacante Ado, do Bangu, cobrou com muito estilo, deslocando o goleiro Rafael, mas mandou para fora, para delírio da galera do Coxa. A responsabilidade de cobrar o pênalti e dar o título para o Coritiba estava nos pés do zagueiro Gomes. E não deu outra. Gomes cobrou com perfeição e a galera do Coritiba pôde comemorar com o grito: "é campeão brasileiro!" A madrugada de 1º de agosto de 1985 viu a maior festa já feita no Estado do Paraná.
Gazeta Esportiva
A NOVA CAPITAL DO FUTEBOL BRASILEIRO
Curitiba foi à loucura para festejar um título inédito, o primeiro campeonato nacional ganho pelo futebol do Paraná. E a cidade fez um carnaval nunca visto
Quem é que sóoobe? No Maracanã, quem subiu aos céus foi o penetra Coritiba
A lgo que nem o mais lúbrico boêmio da afamada Boca Maldita poderia imaginar sacudiu a puritana Curitiba na tarde da última quinta-feira. A cidade esqueceu o pudor que caracteriza seus habitantes e, pela primeira vez em sua comportada história, descambou em um ensandecido carnaval. Danças, pulos, beijos e abraços explodiram em público numa inesquecível loucura. Dizem que Curitiba jamais será a mesma após a estonteante quinta-feira.
Do Aeroporto Afonso Pena até o centro da cidade, um fantástico corso de 18 km era animado por dois trios elétricos, que marcavam o momento culminante de seus sambas-enredos repetindo, até a exaustão nos alto-falantes, o gol de pênalti que trouxe a Taça de Ouro para a fria cidade. O inédito carnaval curitibano, de certa forma, serviu de contraponto para as mornas comemorações que marcaram a conquista do título na madrugada de quinta-feira no Maracanã. No Rio, cinegrafistas e fotógrafos comentavam a facilidade em fotografar no final da decisão, sem nenhum atropelo, a volta olímpica. Estafados pelas duas horas de densa batalha e contagiados pelo clima, os jogadores também se contiveram. No ônibus a caminho da Churrascaria Palace, silêncio total, quase de um time derrotado. E, no jantar, o único momento de emoção foi quando todos rezaram juntos, mãos dadas, o Padre-Nosso. Pareciam constrangidos, como um penetra que estraga uma grande festa. Esgotados, logo foram dormir.
Eles pareciam estar prevendo e guardando forças para a loucura que viria mais tarde com a celebração dos heróis, principalmente o goleiro Rafael e a revelação do campeonato, o jovem lateral Dida, já servindo à Seleção Brasileira de Juniores.
Sentindo o clima e o ardor dos 5 mil fãs presentes ao Estádio Couto Pereira, muitos heróis arrepiaram carreira e desistiram da volta olímpica – só ousada por Tóbi e Lela, amparados por uma coragem algo alcoólica. Foi nesse momento que quase se repetiu parte da tragédia vivida em Bruxelas pela torcida da Juventus. O povão se comprimiu no alambrado, parte de um portão tombou, derrubando muita gente que ficou ameaçada de ser pisoteada. A coisa durou apenas cinco tensos minutos e causou algumas escoriações logo abafadas pelo tom de carnaval da cidade e pelos gritos de "Coxa, Coxa".
Um esverdeado atleticano, doido de inveja, teorizava que o carnaval só acontecia porque, todos sabiam, seria a primeira e última vez que a cidade comemoraria a conquista de uma Taça de Ouro. Isso, no entanto, soava como mentira na colorida festa recheada de alegres polaquinhas de bochechas rosadas. Dizem até que, na fresta de uma escura janela, misterioso vampiro de Curitiba, personagem do escritor Dalton Trevisan, sorria alegremente.
31/7/85 Maracanã (Rio)
BANGU 1 X 1 CORITIBA
J: Romualdo Arppi Filho (SP); R: Cr$ 848 064 000; P: 91 527; G: Índio 25 e Lulinha 35 do 1º; CA: Mário, Gomes, Dida e Rafael
BANGU: Gilmar, Márcio, Jair, Oliveira e Baby; Israel, Lulinha (Gílson) e Mário; Marinho, João Cláudio (Pingo) e Ado. T: Moisés
CORITIBA: Rafael, André, Gomes, Heraldo e Dida; Almir (Vavá), Marildo (Marco Aurélio) e Tóbi; Lela, Índio e Édson. T: Ênio Andrade
PLACAR
"E O CORITIBA GANHOU ATÉ DO BANDEIRINHA"
Era a decisão da taça de ouro. Quando foi marcado o primeiro gol do jogo, gol do time que seria o campeão, o competente locutor Galvão Bueno, da rede globo, gritou como se o autor fosse Dida e não Índio. Entrevistados no intervalo, tanto o zagueiro Jair quanto o goleiro Gilmar,
do Bangu, se referiram a Índio como "o cara" e "o sujeito", respectivamente, revelando nem sequer saber o nome do artilheiro campeão.
Narrador e jogadores apenas retrataram com rara fidelidade um momento do nosso futebol. Sem grandes estrelas, o Coritiba chegou lá. Jogando menos que o Bangu na decisão, é verdade, mas jogando muito mais durante toda a taça. Afinal, o Coritiba deixou para trás clubes como Vasco, Flamengo, Internacional, São Paulo, Santos, Cruzeiro, Corinthians, Bahia e Atlético-MG, para citar só os da elite.
E, se uma decisão por penaltis deixa sempre uma certa frustração, é bom lembrar que até copa do mundo pode ser resolvida assim. Na realidade frustrante é perder nos penaltis.Ganhar, não. Ao contrário. E, pensando bem, o Coritiba venceu até mesmo aquele bandeirinha, provavelmente muito amigo do doutor Castor de Andrade...
Por tudo isso, o Coritiba e o Paraná estão de parabéns.
Juca Kfouri
(Fonte: Revista Placar nº 794 9/agosto/85, pg. 3)
Uma Declaração Alviverde (por um poeta atleticano)
Hoje, quinta-feira, 1 de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde. Os passarinhos só diziam: Lela,Lela, Rafael,Rafael. E no ar pairava um forte cheiro de pólvora de foguete e pó-de-arroz. Nada mais me restava a não ser filosofar: "Não se pode ganhar sempre".
E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim onde tremula o pavilhão rubro-negro e fiz descer a bandeira de meus sonhos. E foi com um misto de pesar e jubilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arquiadversário, hoje, aqui e agora, para sempre Campeão Brasileiro de 1985.
Um demônio (ou um anjo?) vestido de preto e vermelho (um Exu?) me sussurava, brabo com o Tobi na grande area do Bangu: "Teu time é tua pátria, traidor. Vendeste a alma por um escanteio, Vira-Casaca. Então, foi para isso que te demos tantas alegrias?".
Nesse momento, recebi um passe do Índio e, vendo que eu estava em campo livre pela esquerda, o demônio rubro-negro preferiu a falta, mas, antes que me atingisse, toquei a bola na perna dele, e foi para lateral a meu favor. Foi isso, tudo isso. E muito mais.
Foi ver uma equipe coesa, coerente, bem orquestada, enfrentar os faixas pretas do futebol brasileiro (cariocas), e sair na frente. Foi ver um time de um Estado de poucas glórias atlético-esportivas explodir no Templo máximo do futebol brasileiro. Foi muito bom saber que futebol não é só de cairocas, paulists, mineiros e gaúchos. E, se o título foi nosso, pode bem ser de pernambucanos, bainos, catarinenses , capixabas de goianos e matogrossenses, brancos, negros e mulatos queridos de meu Brasil, que escrevem com os pés a arte maior do meu país.
O futebol é o termômetro, a radiografia do Estado do Brasil. Seria por acaso que, nestes tempos de
insuportável dívida externa, nossos grandes craques estejam lá fora, na Europa, como os números que selam nossa dependência aos bancos estrangeiros?
Não, com mel, pênaltis, não. No Brasil, se o futebol vai bem é sinal de que as coisas estao indo bem. Se o futebol vai mal, algo vai mal na terra de Pelé, Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo e daquele reserva ponta esquerda do Náutico do Recife, do Ferroviário de Teresina, dos Nenecas, Tatas, Paquitos, Muçuns e Evaristos, que fazem as alegrias dos nossos domingos.
Este Título do Coritiba, de um time de tradição, mas interiorano, é um Título da democracia, um Título da Nova República, um Título para todo mundo que só senta nas arquibancadas do Maracanã como crianças pobres em volta de uma grande fogueira esperando gritar "gol", como quem espera que lhe joguem a alegria de um pedaço de pão.
Obrigado Coritiba, por essa alegria. Você esteve à altura do teu destino.
Paulo Lemisnski
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)