
Máquina do Tempo
Por: Luiz Eduardo Buquera
Na década de 80, a disputa do Campeonato Paranaense era muito mais nivelada e árdua do que nos dias de hoje. Embora os títulos tenham ficado em sua maioria com as equipes da capital, algumas equipes do interior complicavam sobremaneira a vida das equipes de Curitiba. Os campeonatos se arrastavam por até mais do que seis meses. Londrina, Grêmio de Maringá e Cascavel costumavam entornar o caldo, principalmente quando atuavam em seus domínios. Além de terem equipes muita mais qualificadas comparativamente à atualidade, na época os gramados eram péssimos, bem como a violência praticada com a conivência das arbitragens e a insegurança eram muito maiores.
Das equipes interioranas supracitadas, o Cascavel possivelmente foi a mais regular. Quase todos os anos brigava na parte de cima da tabela, sobretudo entre os anos de 1986 e 1988. Na época a cidade era representada pelo Cascavel Esporte Clube. Provavelmente a agremiação que melhor o fez. Durante a maior parte de sua existência uniforme e escudo eram azuis. Depois foram modificados para cores semelhantes ao do atual representante da cidade, o Futebol Clube Cascavel.
O Campeonato de 1986 começou bem para o Coritiba, com três vitórias seguidas. A última da sequência foi um clássico diante do arquirrival. Daí em diante a equipe caiu de produção, perdeu quatro partidas e ficou de fora do quadrangular que decidiria o campeão do turno, classificado antecipadamente para a final. A vaga ficou com o Pinheiros, sensação do Campeonato, que vinha se consolidando na briga pelo protagonismo no futebol paranaense. Tanto que naquela temporada a rivalidade entre Coritiba e Pinheiros se exacerbou, principalmente em função dos outros rivais da capital estarem em baixa.
Embora ainda ostentasse a conquista recente do Campeonato Brasileiro, o Coritiba além do fracasso no primeiro turno, não havia se classificado para a segunda fase da Taça Libertadores e naquele momento não era considerado favorito ao título. Tudo indicava que a equipe da Avenida Kennedy venceria o segundo turno e seria campeã. Mas tudo mudou após a chegada do experiente técnico Jorge Vieira para o início do segundo turno. Apesar de perder o clássico contra o Pinheiros, foi mais regular na disputa e conseguiu classificação para o quadrangular final que decidiria o campeão do segundo turno.
O Pinheiros lutava para confirmar o seu segundo título estadual. Coritiba, Londrina e Cascavel brigavam para evitar o título do Leão e garantir a vaga na grande final. O Coritiba ainda não havia vencido Pinheiros e Cascavel na competição. Após estreia com vitória sobre o Londrina, no Couto, e empate com o Pinheiros, no Boqueirão, o Verdão tropeçou em casa ao empatar por 1x1 com o Cascavel. Agora precisaria de difíceis vitórias contra Londrina e Cascavel no interior para ainda ter chances na última rodada ao enfrentar o Pinheiros no Couto Pereira.
Após vencer o Londrina por 2x0 no Estádio VGD, o Coritiba mantinha as esperanças ainda vivas. No entanto a partida contra o Cascavel tinha um prognóstico um tanto quanto mais complicado. Só para ilustrar o panorama da época, vale ressaltar que desde 1980 o Glorioso já havia atuado oito vezes contra o Cascavel Esporte Clube no interior e só havia vencido uma vez, empatando três vezes e sofrendo quatro derrotas. Em 1986, haviam sido dois empates no Couto e uma derrota em Cascavel.
A torcida Alviverde certamente estaria muito satisfeita com uma vitória simples, mas foi surpreendida com uma atuação impecável da equipe, que goleou por 4x1 e foi com moral para a disputa do título do turno contra o Pinheiros. Para o Coritiba bastaria um empate, o que acabou ocorrendo e forçando a disputa da final em duas partidas.
Para conquistar o título, o Coritiba teria que vencer o Pinheiros, algo que ainda não havia ocorrido na competição, pois se sucederam dois empates e duas vitórias alvicelestes. Pior, o último triunfo Alviverde sobre o Pinheiros havia ocorrido no final de 1984, totalizando sete confrontos sem vitória. Nesse momento, o Coritiba pôde mostrar toda a sua grandeza e venceu as duas partidas, 1x0 no Boqueirão e 3x0 no Couto, com direito a golaço no último minuto e à tradicional invasão da torcida antes mesmo do apito final do árbitro. A partida foi finalizada com a torcida à beira do gramado. Algo inimaginável atualmente. Assim, o Coritiba conquistava o seu primeiro título estadual dos anos 80, após sete anos de espera.
Ficha Técnica:
Cascavel 1x4 Coritiba – 06 de agosto de 1986.
Estádio Olímpico (Cascavel).
Cascavel: Zico (Itiberê), Jorge, André, Bosco e Dirceu; Nílton (Toninho), Fernando e Délcio; Sílvio, Mauro e Zé Carlos. Técnico: Agenor Picinin.
Coritiba: Rafael, Evandro, Adilço, André Luís e Hélcio; Almir, Marildo, Marco Aurélio (Jorge Martínez) e Tostão (Suca); Geraldo e Índio. Técnico: Jorge Vieira.
Gols: índio (CFC) (2) 8/1 e 40/2, André (CEC) (contra) 7/2, Geraldo (CFC) 10/2 e Sílvio (CEC) 23/2.
Público pagante: 2.095 pessoas.
Árbitro: Afonso Vítor de Oliveira.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)