
EDITORIAL
A demorada contratação de um treinador, somada à baixa qualidade dos reforços, dá ao torcedor coritibano a impressão de que a Diretoria reeleita não assimilou a lição da temporada passada, trazendo à tona a lembrança de um passado sombrio e nada distante, que não dá esperanças ao torcedor.
O passado sombrio
Depois de uma excelente temporada de 2003, com um título de Campeão Paranaense invicto, uma vaga na Libertadores e outra na Sul-Americana, e de um 2004 mediano, com um Bicampeonato paranaense na Baixada, em 2005, a Diretoria Executiva, representada na imprensa pelas declarações do Presidente Giovani Gionédis, insistiu na permanência de Antônio Lopes.
Mesmo com a torcida pedindo sua cabeça desde o Brasileiro do ano anterior, face ao fracasso do clube na Libertadores (eliminado na primeira fase), na Copa Sul-Americana (idem) e no Campeonato Brasileiro (sequer se classificou entre os clubes que conquistaram a vaga à Copa Sul-Americana), Lopes permaneceu no Alto da Glória. À época, Gionédis em declarações à imprensa afirmou que a permanência do treinador era uma decisão sua.
Como a Diretoria Executiva do Cori é composta por nove membros eleitos em pleito entre os Conselheiros (na próxima eleição, em 2007, serão os sócios os votantes), as decisões do colegiado devem, em tese, prevalecer, apesar do sistema de colegiado vigente no Coritiba encontra um nó-crítico no cenário do futebol nacional, já que a legislação acaba por exigir um representante máximo dos clubes (um presidente). Na prática, pode acabar por fazer as deliberações finais recaírem sobre a figura do mandatário principal, o presidente.
Por ser um colegiado, caberia aos outros oito membros da Diretoria Executiva o papel de questionar a insistência do Presidente em manter o treinador. Este já não contava com o apoio da torcida e seu desempenho era insatisfatório, como os resultados já vinham demonstrando. Fica a dúvida: a decisão de manter Lopes foi ou não corroborada pelos demais? Pressupõe-se que a existência de divergências deva ter ocorrido, tendo em vista comentários extra-oficiais. Mas a decisão final acabou sendo a da permanência do treinador.
Aliado ao problema envolvendo o treinador, os jogadores contratados a título de "reforços" não deram a resposta esperada durante a temporada passada. A política de contratação, pautada na economia e na parceria com dois clubes do interior, fez com que atletas sem condições técnicas e/ou comprometimento viessem para o Coritiba. Esta situação foi verificada principalmente no setor ofensivo, em que a equipe se mostrou inoperante durante toda a temporada. Essa seqüência de erros estratégicos acabou resultando na derrota para o maior rival, na final do Campeonato Paranaense (nas cobranças de penalidades máximas).
Some-se à derrota no regional, uma precoce eliminação da equipe da Copa do Brasil, diante de um adversário fraco tecnicamente (o Treze da Paraíba). Com isso, o Cori voltava a desperdiçar uma ótima chance de novamente conquistar uma vaga para a Libertadores, prêmio para o vencedor do torneio (no ano passado, o Paulista, de Jundiaí, no ano anterior os também paulistas do Santo André).
Somente após o fracasso na Copa do Brasil, a situação tornou-se insustentável para Antônio Lopes, que acabou sendo demitido. O novo técnico do Coxa foi Cuca, o nome favorito da torcida à época, de acordo com enquete realizada pelo site Coxan@utas.
Cuca foi contratado e o time se apresentou muito bem em algumas oportunidades, como na goleada sobre o então líder Fluminense fora de casa, e em outras muito mal, como no caso da derrota em casa para o Juventude, na rodada seguinte.
Até que, na décima primeira rodada, o Coritiba foi à Baixada jogar contra os reservas do rival, que, àquela altura do campeonato, havia somado apenas três pontos na competição, ocupando a lanterna do Brasileirão, sem saber o que era vitória.
A absurda derrota do Coritiba foi o que bastou para a torcida perder a paciência e pedir a cabeça de Cuca (que, curiosamente, torcia exatamente para o rival, ao menos em sua infância, segundo ele declarou anos atrás à Revista Placar, quando ainda era atleta do Grêmio - RS).
Ao final do ano, com a queda para a Série B, Giovani Gionédis afirmou à imprensa ter pensado seriamente em mandar Cuca embora neste instante, mas não o fez por ter ouvido outros membros da diretoria, que o convenceram a lhe dar mais algumas chances. Novamente a política da Diretoria Executiva em manter técnicos para que mostrassem seu trabalho em longo prazo impediria que um treinador fosse dispensado.
A demora em tomar uma decisão mais uma vez custou caro. Quando da demissão de Cuca, após a derrota fora de casa para o Paysandu, no aniversário do Clube (era a 31ª rodada), a situação ainda não era calamitosa, mas o Verdão já começava a despencar pelas tabelas (a derrota frente ao time paraense era a terceira consecutiva).
Mediante os apupos de parte da torcida presente ao jantar de aniversário do Clube, o Presidente coritibano finalmente resolveu agir e demitir o treinador. Segundo notícias veiculadas junto a imprensa, na ocasião, em reunião com seus pares, o Presidente teria dito que demitiria também Oscar Yamato e Sérgio Ramirez. Infelizmente, para a grande maioria da torcida, apenas Cuca e Ramirez saíram, permanecendo Yamato, até hoje considerado por muitos um dos culpados pela queda. Mais tarde, ao final da temporada e com o Coxa já na Série B, Yamato também foi demitido.
Para desespero da torcida, que parecia prever o martírio que teria pela frente, Lopes Jr. equivocadamente foi mantido como treinador na partida seguinte, justamente o maior clássico do estado. O que a torcida temia aconteceu, e o Coritiba foi mais uma vez derrotado pelo rival, desta vez dentro de casa.
Contrariando o desejo dos torcedores, o interino Lopes Jr. foi mantido no cargo por mais duas rodadas (duas derrotas), e, para o jogo seguinte (a partida remarcada contra o Internacional, face ao escândalo das arbitragens), Cláudio Marques era o novo interino do Verdão. O time mais uma vez foi derrotado, mas já demonstrou sinais de melhora.
Na rodada seguinte, finalmente o Coritiba tinha um novo técnico, que assumia sem a condição de interinidade. Márcio Araújo assumiu o comando da equipe alviverde para a reta final, deu novo ânimo aos jogadores do elenco. Por muito pouco não conseguiu salvar a equipe do drama do rebaixamento. Logo na estréia, quebrou a seqüência de derrotas diante do Flamengo, em que o Coxa somente não venceu graças a uma atuação praticamente criminosa do árbitro da partida, Márcio Rezende de Freitas.
O presente preocupante
Infelizmente, parece que a lição não foi assimilada pelo Clube. Para a temporada de 2006, ocorreram mudanças radicais no Departamento de Futebol: com a saída de Oscar Yamato e Sérgio Ramirez, para felicidade da maioria da torcida Coxa-Branca, e a chegada de novos profissionais, em novas funções - o triunvirato formado por Almir Zanchi, Odivonsir Frega e Capitão Hidalgo. Dessa vez parecia que o Coritiba tomaria um novo rumo.
No entanto, a exemplo do ocorrido na temporada passada, as contratações não convencem a torcida e nem os especialistas, e o Clube constantemente tem tido apresentações abaixo da média aceitável para um clube da grandeza e da tradição do Coritiba Foot Ball Club.
O técnico Márcio Araújo passou a ter a cabeça pedida pela torcida justamente graças aos maus resultados. Aliado aos maus resultados, o péssimo futebol apresentado e à insistência na utilização de algumas peças que até então não mostraram a que vieram, como é o caso de Julinho, Wilton Goiano e Ludemar.
Além disso, uma declaração de Araújo foi interpretada por alguns veículos da imprensa como uma afronta ao diretor de futebol Almir Zanchi, quando aquele afirmou que, dos diversos jogadores contratados, somente o goleiro Artur havia sido por ele indicado. Parte da imprensa aproveitou-se da aparente polêmica, o que acabou por gerar uma série de boatos sobre supostos conflitos entre treinador e diretor.
A inclusão no time principal dos garotos Renan, Henrique e Keirrison acabou por dar vida extra a Márcio, já que o time mostrou algumas melhoras e começou a vencer, principalmente graças às atuações dos garotos coritibanos.
No entanto, essa situação não durou muito, já que, após algumas rodadas, Keirrison sofreu grave lesão, desfalcando a equipe durante um longo período. A saída do artilheiro, combinada com a postura pragmática de Marcio Araújo, que insistiu em algumas situações em que tudo indicava que não daria certo (por exemplo, a utilização do esquema 3-5-2, com Wilton Goiano e Julinho atuando como alas, no clássico contra o Paraná Clube e no jogo contra o Icasa, pela Copa do Brasil), culminaram com sua demissão.
E naquele momento, o que o torcedor coritibano esperava? A contratação, rápida, de um grande treinador que viesse a dar novamente esperanças ao torcedor, que, no momento, parece não confiar nem um pouco no retorno à Primeira Divisão, se mantido o marasmo atual. Mas desde a demissão de Márcio Araújo até o início efetivo dos trabalhos de Estevam Soares se passaram mais de dez dias.
O Coritiba está às vésperas de iniciar a 2ª fase da Copa do Brasil, em confronto que será crucial para a permanência do clube na competição. E desde a chegada de Batatais, nenhuma contratação veio para auxiliar o elenco na disputa da Copa do Brasil e da Série B até agora.
Nos bastidores, especula-se que o Clube esteve muito perto de contratar o curitibano Levir Culpi, mas o acerto não ocorreu devido a uma diferença entre a pedida do treinador e a oferta do Coxa, além da exigência de que quatro auxiliares do treinador fossem também contratados.
Infelizmente essa situação parece que pesaria muito para a folha salarial do clube, razão pela qual ter-se-ia optado por descartá-la, mantendo-se a política de não extrapolar o orçamento do Clube. Outro motivo, é a tendência (acertada) de criar e manter uma comissão técnica com integrantes com origem do próprio Clube.
Não se sabe como será o desempenho do treinador contratado, há que se esperar para ver o que os resultados apontarão. Mas, além dessa questão do treinador, a situação do elenco parece preocupar, e muito, a Nação Coxa-Branca. A cada novo fracasso, lá iam os diretores anunciar nos microfones das rádios que reforços estão chegando. Depois de um certo tempo, pouco ou quase nada se fala sobre reforços. E quando se fala, se fala de forma evasiva ou superficial.
Dos atletas que vieram até agora, muito pouco se salvou. Os zagueiros ainda não tiveram uma seqüência de jogos; o goleiro Kléber idem, graças às boas atuações de Artur, esse sim o melhor reforço até agora; para o ataque, apenas Jefferson jogou o suficiente para criar uma expectativa de tempos melhores, com outros companheiros de time de melhor qualidade técnica.
Os demais jogadores até agora não mostraram condições de vestir o manto sagrado alviverde. Alguns, inclusive, já foram dispensados, como no caso de Marcelinho, Julio Sergio e Marcio Giovanini, sendo que estes dois últimos sequer chegaram a entrar em campo com a camisa do Coritiba.
Em relação a alguns outros atletas, não se sabe ao certo o que acontece. Diogo e Vinicius ainda não estrearam, Júlio Madureira jogou apenas os minutos finais de uma partida e quanto ao meio-campista Humberto, contratado ano passado como solução na posição de segundo volante, pouco aproveitado este ano, antes de contundir-se. Mas o que mais tem irritado a torcida é a falta de qualidade de alguns jogadores que vêm tendo seguidas oportunidades, mas que não demonstram capacidade de seguir as tradições do Alviverde, como é o caso do atacante Ludemar.
Quando se compara o que ocorre este ano com o que ocorreu na última temporada, o torcedor fica ainda mais apreensivo e temeroso, pois as semelhanças se acumulam (demora nas contratações, tanto do técnico quanto dos atletas, bem como a contratação de jogadores de procedência duvidosa e qualidade idem). A torcida quer um bom técnico, e reforços convincentes, que venham para ser titulares da equipe, e jogar mais que os atuais titulares.
É hora de ousar: o futuro é agora!
A necessidade de reforçar o Coxa não depende do que os adversários estão ou não fazendo, depende sim do que nós precisamos fazer para voltar à primeira divisão.
Se continuar a esperar o bonde da história passar, o time corre o sério risco de iniciar o Campeonato Brasileiro (dia 15 de abril) ainda desestruturado e desentrosado, o que pode representar danos irreparáveis num futuro próximo.
Na competição deste ano, estará valendo a fórmula de pontos corridos, que premia as equipes mais regulares. Esta é uma fórmula implacável, que não comporta o luxo das experiências ou das desculpas. Aqueles que forem mais objetivos e cometerem menos erros serão recompensados.
A permanência da equipe na Série B do futebol brasileiro sem dúvida alguma será muito danosa ao Clube. Isto requer que investimentos sejam feitos o mais rápido possível, de forma a proporcionar o retorno esperado, ou seja, a volta do Clube ao lugar de onde jamais deveria ter saído: a Divisão de Elite do futebol brasileiro, lugar de onde o Coritiba Foot Ball Club nunca devería ter saído.
E nunca é demais lembrar que essa é uma promessa que a atual Diretoria Executiva, empossada dia 5 de janeiro, tem com a torcida do Coritiba. O Presidente Gionédis foi reeleito prometendo as mudanças e a volta à Série A. Sem dúvida nenhuma, esta promessa será cobrada pelos torcedores, tanto no decorrer, como principalmente no final desta temporada.
Equipe Coxan@utas
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)