
EDITORIAL
É engraçado como as coisas acontecem na vida da gente. Durante toda a minha infância, sentado no sofá de casa, ouvia com satisfação as histórias de meu pai (ex-repórter de campo) como se fossem acontecimentos pertencentes a uma realidade muito distante: entrevista com Zico no Maracanã, títulos do Cori em estádios lotados, confusões no campo e até mesmo uma entrevista que saiu por engano - o jogador havia trocado de camisa com o adversário e, como não havia número no calção, foi tomado por outro... ao ser chamado pelo nome de um companheiro, o atleta imediatamente corrigiu o repórter. Ao vivo.
E parece mesmo que todo repórter de campo tem histórias que poderiam virar lendas, como algumas dezenas protagonizadas por Sílvio Luiz, contadas em sua biografia "Olho no Lance".
Espero ter, em breve, as minhas.
Nesse ano, os Coxan@utas passaram a oferecer novos atrativos no site. Um deles é o de "fotos exclusivas" dos jogos no Couto Pereira. Graças ao apoio da ACEP (Assoc. dos Cronistas Esportivos do PR) e da Comunicação do Coritiba, recebi autorização para fazer esse trabalho do lado de dentro do campo.
Por tudo isso, o sonho de ver o Coritiba jogando uma partida de Libertadores no Couto Pereira ficou ainda mais saboroso.
A expectativa para o jogo contra o Olímpia já era grande, mas o fato de saber que estaria ali, do lado dos jogadores, compartilhando a energia que vem das arquibancadas, fazia o coração acelerar.
Enfim, chegou o grande dia. Máquina fotográfica calibrada, cartão de memória extra adquirido especialmente para o jogo, pilhas recarregadas, credencial... tudo pronto.
Chego no estádio 20 minutos antes do apito inicial. Esperava mais gente no Couto, mas o medo de ver o time fazer feio em casa e o ingresso caro realmente afastaram o torcedor. O horário também não colaborou. Muitas pessoas chegaram tarde e ainda precisaram enfrentar grandes filas na entrada.
A Império fazia uma festa muito bonita, com faixas no melhor estilo europeu e um bandeirão bem brasileiro. Aproveitei o resto de luz de dia que havia para fotografar a torcida. Os times entraram em campo, muita festa com piscas verdes e alguns fogos de artifício.
Em determinado momento, todo o estádio levantou e começou a gritar "Raça Verdão, você é campeão!". Quem nunca esteve no campo talvez nem desconfie, mas o Couto Pereira causa um efeito acústico muito interessante. Os gritos que vêm do lado da Império batem na curva dos fundos e volta para o meio-campo, numa espécie de "ola". É de arrepiar.
Durante o jogo, por vezes tive que me segurar para não colocar as mãos na cabeça diante de um gol perdido, xingar o árbitro, mandar os laterais apoiarem o ataque. Em alguns momentos, passava pela minha cabeça: "Não acredito que estou aqui...".
Mas como estava lá para trabalhar, não para torcer, mantinha a máquina engatilhada e tentava contornar os problemas técnicos que a falta de luz causa às fotografias. Concentrado no que tinha de fazer, o fato é que acabei não vendo nenhum dos gols da partida... mas a explosão da torcida valeu por tudo. Por outro lado, o gol do Olímpia me irritou. Eu estava à direita da trave defendida pelos paraguaios, praticamente junto dos reservas do Olímpia que faziam aquecimento. Nem preciso contar a festa que eles fizeram com o gol.
No segundo tempo, mudei de lado e fiquei em melhor companhia. Os reservas do Coxa estavam tão apreensivos quanto os torcedores. Éder, por exemplo, desistiu do aquecimento e encostou nas placas de publicidade para ver o jogo e torcer. Da mesma forma, os outros mais assistiam à partida do que se movimentavam. O preparador físico, assim que voltou do banco de reservas, pagou geral: "Vamos lá moçada, num jogo desses não dá para ficar parado!!!". Depois, quando aconteceu o lance polêmico (aquele em que o goleiro teria entrado com bola e tudo), os jogadores ficaram revoltadíssimos e, assim como os torcedores, mandaram alguns elogios ao bandeira.
Outra coisa que chamou a atenção foi a gritaria do goleiro com seus zagueiros - espero que daqui alguns anos eu esteja mais acostumado a ouvir castelhano no Couto Pereira.
E, da próxima vez, vou avisar o Adriano que eu não estou jogando. No segundo tempo, ele cruzou três bolas para mim. Se não houvesse as placas de propaganda, eu poderia dominar e passar na medida para o Luiz Mário mandar para as redes.
De qualquer forma, eu estava claramente impedido. (JMN)
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)