
ARTIGO
Noite fria de maio em Pato Branco. Na frente de um hotel simples estava o camisa 10 do time mais importante da história do Coritiba. Aquele mesmo que foi “aterrado” no Maracanã, abrindo caminho para o memorável gol de Indio. Aquele que infernizou adversários na maioria dos jogos daquela equipe unida e disciplinada. Tratava-se de Toby, que junto com outros atletas de 1985, está eternizado no coração e sob o escudo do Glorioso na forma de uma estrela dourada.
Naquela noite, como colecionador que sou, voltei para casa cheio de orgulho e segurando nas mãos umas das camisas mais importantes da história do Clube entregue por Toby, que foi usada pelo Marildo no segundo tempo da final do Campeonato Brasileiro de 1985.
Curitiba, Hipermercado BIG, sábado 20 de junho de 2009. Próximas à sessão de eletrônicos, algumas pessoas assistiam a vitória do Coritiba contra o Nautico por mais uma rodada do Campeonato Brasileiro de 2009. Entre as pessoas que enfileiravam-se com olhos atentos e torcida firme na TV, encontrei o ex-jogador André, exatamente ele, o camisa 2 do Coritiba na memorável noite de 1º de agosto de 1985. Junto com minha namorada Julia, nos apresentamos e iniciamos uma conversa que já estava marcada para aquele local. André tirou da sacola a camisa listrada número 2, utilizada no início da memorável campanha de 1985, autografou e me entregou com a certeza de quem sabe o quanto será bem cuidada e valorizada.
Na tela da TV o Coritiba jogava bem, porém irreconhecível, de camisa verde com dourado e calções brancos. Para ser franco, senti a falta da camisa listrada nos novos uniformes da Lotto (por mais que eu saiba que a mesma voltará no segundo semestre). Vejo que camisas que destoam do tradicional fazem parte das ações de marketing que, na minha opinião, não estão erradas, mas deveriam ser vistas como uniforme 3 e usadas o mínimo possível.
A camisa jogadeira fez história e, para muitos, deu sorte. A marca da Adidas dos anos 80, seu desenho vertical, seu símbolo, o número em preto sob as listras verdes e o patrocíonio da Britânia custurado (às vezes torto em algumas), dão um toque de nostalgia a uma época do futebol onde os jogadores não eram tão valorizados e remunerados como os dos dias de hoje.
André e Toby chamaram a atenção ao falar sobre o Coritiba, sentimento de amor, união, respeito e companheirismo. Com certeza aqueles ex-jogadores tinham algo diferente dos normais, algo único que os fez bater os invencíveis do Brasil na época como Flamengo, São Paulo, Cruzeiro, Internacional, Corinthians, Atlético/MG, entre outros. Era óbvio que aquelas conversas deveriam ser em outro local, o tempo para as mesmas deveria ser outro, porém a pressa de nossas vidas não permitia isso naquele momento.
Despedimo-nos na certeza e na esperança de uma nova conversa sobre a história que esses heróis construíram. Na minha mente, a curiosidade e as dúvidas sobre o elenco de 1985 estão sanadas. Como um elenco intitulado limitado conseguiu tal feito? Parte da resposta está no caráter, na determinação, na coragem, na união e no amor pelo clube que todos esses heróis demonstram até hoje. Porém, a base central da equipe, além desses preceitos e da aplicação tática imposta pelo técnico Enio Andrade, está na humildade.
Grande item esquecido por muitos nos dias atuais, a humildade sobrava aos atletas que, ao chegaram no Maracanã lotado no dia 31 de julho, viram um caminhão de bombeiros com faixa e tudo preparado para levar o Bangu que, conforme ela mesma pregava, e os mais de 100.000 torcedores do time da casa sonhavam, dizia que seria o campeão.
Porém, conforme o velho ditado diz: “o jogo só acaba quando termina...” No gramado do Maracanã, o Coritiba foi mais competente e corajoso, enfrentando tudo e todos. Quando a madrugada de 01 de agosto chegou, os deuses do futebol apresentaram um campeão diferente do planejado pela maioria no Maracanã no dia anterior. E acredite, caro leitor, os deuses sabem o que fazem!
Com um Maracanã calado, o Coritiba deu a volta olímpica e comemorou exausto a conquista. As fotos dos jornais, da Revista Placar e as imagens da TV, registraram os rostos jovens de todos daquele time. Naquela noite, as faces dos atletas eternizaram-se, e todos juntos tornaram-se senhores do melhor lugar na história do centenário Coritiba Foot Ball Club.
Hoje o Coritiba busca honrar e valorizar seu maior título. A estrela na camisa, as homenagens aos jogadores, o hino de Francis Night, o troféu no museu e o grito de “fui Campeão Primeiro!” da Império, são boas provas.
Porém, como Cônsul do Clube, não posso deixar de relatar uma situação que me foi repassada por Toby e André que, sobre o pagamento do “Premio do Titulo”, afirmaram que apesar de quitado, supostamente se perdeu, fruto do parcelamento com valor fixo feito pela diretoria, numa época em que a inflação era “galopante”.
Para os mais jovens entenderem: o valor foi pago, mas devido a tal fenômeno econômico, nossos atletas não receberam o valor acordado! É obvio que em termos de direito a dívida foi quitada, porém numa época em que o futebol não remunerava como hoje, visto tal acontecimento, será que moralmente tal situação não deveria ser revista? Fica aqui uma sugestão para nossa diretoria pesquisar e analisar com carinho para o ano do Centenário.
Deixo claro que nunca existiu um pedido posterior do mesmo pelos atletas, nem durante a conversa que tive com ambos.
Quando 1º de agosto de 2085 chegar - e acreditem, chegará mais rápido do que pensamos - todos nós mortais teremos passado, porém São Rafael, André, Heraldo, Gomes, Dida, Almir, Marildo, Toby, Lela, Indio e Edson ainda permanecerão jovens, campeões, destemidos e vivos nos vídeos que serão revistos até a exaustão e no coração de todos que amam o Coritiba.
Naquela madrugada, nossos heróis conquistaram o direito de não mais envelhecer, porém, devido à humildade que é própria dos grandes, ainda não perceberam que 1º de agosto de 1985 é eterno...
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)