
BRASILEIRO85
Por Marcelo Algauer de Almeida, Fernando Todeschini, Marcus Popini e Dalton Paraizo Benik - COXAnautas
Após ficar por quatro rodadas dirigindo o time, Dino Sani fez as malas e foi para o Oriente Médio. Krüger assumiu interinamente na quinta rodada.
No entanto, apesar da confiança depositada no trabalho sempre competente de Krüger, o Coritiba necessitava aquela altura, de um nome de maior envergadura, com real experiência futebolística fora dos limites do estado do Paraná. Nos bastidores se especulava muito. Vários nomes disponíveis no mercado eram apresentados ao presidente Neves, que procurava insistentemente alguém que suprisse a real necessidade do Coritiba: fazer boa campanha, com um grupo sem estrelas.
Muito se escolheu, até que surgiu o nome de Ênio Andrade. Após breve negociação, e acertadas as bases salariais, o presidente Evangelino apresentava novamente no Coritiba, clube que já havia treinado no fim da década de 70, o “professor” Ênio Andrade.
Trazendo no currículo o recorde de dois títulos brasileiros, após a primeira passagem pelo Coxa, com Internacional em 1979 e Grêmio em 1981, o gaúcho de Porto Alegre (31/01/1928 – 22/01/1997) assumiu na sexta rodada do primeiro turno.
Treinador com estrela em decisões trouxe de volta ao Coritiba o seu inconfundível toque pessoal, transformando o grupo de jogadores em cobras difíceis de serem superadas, sobretudo jogando fora de casa. Era um elenco que não possuía nenhum astro de grandeza nacional ou internacional. Contudo, o técnico soube perfeitamente tirar o máximo de cada um dos atletas, exigindo dedicação total em busca de resultados positivos.
Numa época em que os técnicos jogavam com somente um volante, com total liberdade de movimento pela meia cancha, Ênio utilizava dois deles, plantados na marcação na cabeça da grande área.
Preferia treinos físicos aos coletivos. Colocava seus jogadores para ensaiar exaustivamente dezenas de jogadas de escanteio e bolas paradas.
Por sinal, três dos mais importantes gols do Cori no campeonato, foram marcados dessa forma: Vavá de falta contra o Santos na última partida do segundo turno, Heraldo escorando um cruzamento na semifinal contra o Galo, e Índio acertando um petardo indefensável, no ângulo oposto, na partida final.
A ausência de um craque fora de série deixou o grupo muito unido, na base do um por todos e todos por um. Jogava-se um futebol simples, objetivo, aplicado e com uma enorme determinação de vencer.
Tanto esta foi a tônica daquele grupo que se doou e comprou a idéia da comissão técnica, que a desastrosa campanha do primeiro turno (3V, 1E, 6D), foi esquecida após o início do segundo turno.
Daí até o fim do certame, o Coritiba terminou a competição com aproveitamento de 63% (9V, 6E, 4D).
Após o longo campeonato, nos vestiários do Maracanã, quando das comemorações e agradecimentos na imprensa pelo título, o professor Ênio dedicou “aos jogadores, grandes responsáveis pela conquista”. Ao receber a faixa de campeão das mãos do presidente Neves, devolveu-a dizendo que “é o senhor quem a merece muito mais do que eu”. O homem que acabara de passar à posteridade junto à nação coritibana, deixava seu legado, sobretudo com uma lição de humildade.
Porém, Ênio apesar de comandante, não era a personificação da comissão técnica. Levou Krüger como assistente técnico até o fim do campeonato, demonstrando mais uma vez de forma humilde, que precisava ao seu lado de pessoas que conheciam as entranhas do Coritiba mais do que ele.
A preparação física exigida pelo treinador, mas administrada por Odivonsir Frega é outro dos aspectos inquestionáveis que levaram o Coritiba ao título de 1985. Frega permitiu a cada um dos atletas disputar com exemplar vitalidade os 90 minutos de todas as partidas que, via de regra, se davam duas vezes por semana, a exemplo das semifinais e da final.
Dizia o professor Ênio que “jogador tem que ter força muscular e se acostumar a um ritmo forte de trabalho”. Dada a ordem, era seguida à risca por Frega, que fazia o elenco puxar rolos compressores de até 300 quilos, pela hoje inexistente pista de atletismo do Alto da Glória.
Em seu livro de recordações, Toby lembra em tom de brincadeira, como eram pesadas as concentrações, e que a partir do segundo turno, quando o Coritiba começou a ser respeitado e olhado pelos adversários, os atletas jogavam no domingo, e na segunda-feira à noite, já entravam em concentração para o jogo de quarta. Da mesma forma ocorria às quintas-feiras, quando o jogo era no domingo.
O camisa 10 campeão relembra também como o “seu” Ênio promovia churrascos entre a comissão e os atletas, para aparar arestas e rusgas, e como o treinador aparecia de surpresa nos bares da cidade, para acabar com a festa das comemorações dos jogadores, então regadas a muita cerveja e caipirinha.
Para o comandante técnico, não bastava que os atletas simplesmente alcançassem os resultados. Eles tinham que se doar ao time e ao grupo, abdicando de noitadas e da “cervejinha da vitória”, em prol do objetivo maior que era a busca pelo título.
Indiscutível portanto que além de ter deixado a taça com o Coritiba, o sisudo treinador conseguiu unir em volta de si o grupo de atletas, e sabia, como ninguém e dentro de sua proposta de seriedade, arrancar o melhor que cada um à sua volta tinha a oferecer.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)