
Campeão Brasileiro de 1985
Neste sábado já comemoramos o início de uma partida que nos levou ao nosso maior título, que se efetivou na madrugada de 01 de agosto de 1985 e é comemorado todos os anos desde então. E não poderia ser diferente.
Sempre será uma ocasião muito especial, mesmo que um dia venhamos a repetir a façanha ou ganhar outros títulos de alcance nacional e internacional.
Para quem não era nascido ou era muito pequeno para se lembrar, é uma oportunidade de conhecer uma bela história trilhada por nosso amado time. Para os que vivenciaram aquele momento glorioso, de recapitular uma conquista inigualável que ainda hoje emociona e leva muitos às lágrimas.
Foi um evento épico comemorado pela maioria dos paranaenses, até por aqueles não muito afeitos ao esporte, devido ao pioneirismo de um clube do Estado que passava a integrar o seleto grupo de campeões brasileiros. Clubes tradicionais e poderosos como Corinthians, Cruzeiro, Santos e Botafogo, ainda não ostentavam essa conquista. Alguns vieram, mais tarde, a ter outros títulos reconhecidos com o status de campeonato brasileiro, de maneira acertada se considerando os vencedores dos Torneios Roberto Gomes Pedrosa e Taça de Prata que tinham formatação similar, e erroneamente para os campeões da Taça Brasil que se assemelhava muito mais à Copa do Brasil e que deveriam ter sido reconhecidos como tal.
Já na época, os rivais locais e alguns outros invejosos tentaram desdenhar da conquista, afirmando que foi sobre o Bangu, que foi nos pênaltis, ou do saldo de gols negativo da equipe. Os torcedores da época, que vivenciaram todos os eventos, não se deixaram levar por esses recortes da realidade e tinham a clareza de que esse choro dos recalcados não colava.
É muito importante que os Coxas que não vivenciaram aqueles momentos gloriosos conheçam os fatos daquela conquista para não serem vítimas das falácias presentes no discurso de parte da mídia e certamente dos rivais.
Enfrentamos o Bangu, cujo patrono era Castor de Andrade, um dos mais poderosos
contraventores da época no Rio de Janeiro. Nos anos anteriores já tinham times extremamente competitivos que davam trabalho aos maiores do Estado na luta pelos títulos locais.
O regulamento era muito parecido com o de anos anteriores, quando Flamengo e Fluminense foram campeões e que no momento dos títulos não foram questionados pela mídia carioca.
Embora o Coritiba tivesse ido muito mal no primeiro turno, o que resultou nos números exaltados pelos rivais, se classificou para as fases finais como campeão do segundo turno em um grupo no qual eliminou grandes equipes como Grêmio (campeão mundial de 1983), Fluminense (campeão brasileiro de 1984), além de Botafogo, Palmeiras, entre outros. Nesta fase o Bangu nadou de braçada num grupo com adversários muito menos tradicionais.
Da segunda fase em diante o Coritiba foi irrepreensível e o rival da final também. Enquanto eliminamos o favorito Corinthians, que havia montado uma verdadeira seleção para aquela competição, Sport Recife e Joinville (heptacampeão estadual), o Bangu atropelou o tetracampeão gaúcho, Internacional, e o Vasco, vice-campeão brasileiro de 1984.
Passamos também na semifinal por uma das melhores equipes da década (Atlético-MG). E pela excelente equipe carioca na final, em um Maracanã lotado por torcedores de todas as equipes locais, em partida única, diga-se de passagem.
Ainda corremos o risco de sermos roubados pelo bandeirinha que não assinalou impedimento clamoroso do Bangu que resultou em gol, acertadamente anulado pelo correto árbitro Romualdo Arppi Filho, que apitou a final da Copa do Mundo do ano seguinte.
Um dos melhores textos que foram produzidos na época sobre a memorável conquista foi escrito por um esclarecido torcedor rival, o poeta Paulo Leminski, em matéria da revista Placar n. 794 de 9 de agosto de 1985, mostrando toda a importância daquela conquista para o Coritiba e para o Estado do Paraná e que no futebol ideal deveríamos ter rivais na bola e jamais inimigos.
"Hoje, quinta-feira, 1º de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde.
Os passarinhos só diziam: Lela, Lela, Rafael, Rafael.
E no ar pairava um forte cheiro de pólvora de foguetes e pó-de-arroz.
Nada mais me restava a não ser filosofar: “Não se pode ganhar sempre”.
E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim onde tremula o pavilhão rubro-negro, e fiz descer a bandeira dos meus sonhos.
E foi com um misto de pesar e júbilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arquiadversário, hoje, aqui e agora, para sempre, campeão brasileiro de 1985.
Um demônio (ou um anjo?) vestido de preto e vermelho (um Exu?) me sussurrava, brabo com Tóbi na grande área do Bangu:
“Teu time é tua pátria, traidor. Vendeste a alma por um escanteio, vira-casaca. Então, foi para isso que te demos tantas alegrias?”.
Nesse momento, recebi um passe do Índio e, vendo que eu estava em campo livre pela esquerda, o demônio rubro-negro preferiu a falta, mas, antes que me atingisse, toquei a bola na perna dele, e foi lateral a meu favor.
Foi isso, tudo isso. E muito mais.
Foi ver uma equipe coesa, coerente, bem orquestrada, enfrentar os faixas-pretas do futebol brasileiro, e sair na frente. Foi ver um time de um Estado de poucas glórias atlético-esportivas explodir no templo máximo do futebol brasileiro.
Foi muito bom saber que futebol não é só coisa de cariocas, paulistas, mineiros e gaúchos. E, se o título foi nosso, pode bem ser de pernambucanos, baianos, catarinenses e capixabas, de goianos e mato-grossenses, brancos, negros e mulatos queridos do meu Brasil, que escrevem com os pés a arte maior do meu país.
O futebol é o termômetro, a radiografia do Estado do Brasil.
Seria por acaso que, nestes tempos de insuportável dívida externa, nossos grandes craques estejam lá fora, na Europa, como os números que selam nossa dependência aos bancos estrangeiros?
Não, com mil pênaltis, não.
No Brasil, se o futebol vai bem, é sinal de que as coisas estão indo bem.
Se o futebol vai mal, algo vai mal na terra de Pelé, Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo e daquele reserva de ponta-esquerda do Náutico do Recife, do Ferroviário de Teresina, dos Nenecas, Tatas, Paquitos, Muçuns e Evaristos, que fazem as alegrias dos nossos domingos.
Este título do Coritiba, de um time de tradição, mas interiorano, é um título democracia, um título Nova República, um título para todo mundo que só senta nas arquibancadas do Maracanã como crianças pobres em volta de uma grande fogueira esperando gritar "gol", como quem espera que lhe joguem a alegria de um pedaço de pão. Obrigado, Coritiba, por essa alegria.
Você esteve à altura do teu destino"
Paulo Leminski
Destaco também o filme "Heróis do Maracanã", dos Helênicos, que é extraordinário e mostra muitos detalhes da campanha vitoriosa. Nenhum coxa-branca pode deixar de assistir. Está disponível no site www.historiadocoritiba.com.br.
Por fim, gostaríamos de agradecer a todos que fizeram parte do Coritiba de 1985, desde o mais humilde funcionário até o dirigente mais destacado, e a todos os torcedores que acreditaram e apoiaram o clube nas mais adversas situações. Alguns deles nem estão mais entre nós, como o presidente Evangelino, o técnico Ênio Andrade, o auxiliar e maior ídolo Coxa Dirceu Kruger e os craques Toby e Jairo, só para citar os mais conhecidos.
Não poderíamos deixar de falar ainda do ícone da narração esportiva Lombardi Júnior que expressou de maneira perfeita o sentimento do torcedor em várias jornadas ao longo daquele campeonato. É impossível não se emocionar ao ouvi-lo mesmo decorridos 36 anos.
Parabéns, Coritiba! Você foi gigante e ainda é. Estará sempre em nossos corações. Novas conquistas só dependem da força, da participação efetiva e da persistência de toda a gente coxa-branca.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)