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O Coritiba passa por um momento decisivo em sua vida. Além do risco de queda para a segunda divisão, temos as eleições dos conselhos e mesas no dia 5 de dezembro. Estes dois fatores geraram um momento impar de discussão sobre o futuro do Clube.
Independente do que aconteça em campo ou nas eleições, esta semana pode ser vista como um marco histórico que mudará a vida do Coritiba. A insegurança gerada pela possibilidade de queda e a profunda discussão de idéias e ideologias por parte dos concorrentes na eleição geraram sim uma grande crise.
Mas por que temos que considerar a crise como algo ruim? Este, infelizmente é um hábito de nós ocidentais. Para os chineses, crise traz consigo dois significados interessantes: riscos potenciais e oportunidades escondidas. Então, podemos dizer que uma crise pode representar um momento onde devido, a instabilidade e o desconforto criado, geram-se grandes oportunidades de crescimento.
Lógico que ninguém quer que o Coritiba caia (que Deus nos livre!), mas mesmo que isso aconteça, a partir deste momento de crise e independente de quem ganhe as eleições, teremos no final um Coritiba mais forte.
Para nós torcedores que não votamos, o importante são os projetos. Não nos interessa as brigas políticas e sim o que cada candidato tem a oferecer como proposta, pois independente de quem esteja no comando, o que queremos é um Coritiba forte.
Pensando nisso, e como forma de promover o debate é que o site Coxan@utas promoveu uma entrevista. Como forma de manter a imparcialidade, ambas as chapas tiveram acesso ao formulário apresentado aos seus concorrentes. Tais entrevistas estão à disposição dos internautas clicando aqui.
O que queremos fazer agora é uma análise técnica e imparcial sobre o que cada candidato apresentou. Não é nosso intuito dizer se esta ou aquela proposta é melhor, mas sim dizer o que cada uma tem de bom ou a melhorar.
Antes de prosseguir gostaríamos de agradecer a atenção e a cordialidade que nos foi dada por Giovani Gionédis, André Ribeiro, Tico Fontoura e Ricardo Gomyde, além de todos os aliados que estiveram em ambas às entrevistas. Sabemos do grau de dificuldade para pessoas tão ocupadas como essas, disporem seu tempo para uma entrevista desta natureza.
O grau de atenção que nos foi dado, mostra a importância que ambos os candidatos estão dando ao debate. Ressalto o clima de cordialidade e camaradagem, além do espírito desarmado de ambos, que não se acovardaram em admitiram erros (no caso de Giovani), ou de não responder algo do qual não tinha domínio (no caso de Tico). Isto mostra a maturidade e as intenções de ambos.
Entrando nas propostas, temos que analisar o perfil de ambos os entrevistados. O Giovani e o André muito seguros, objetivos e detalhistas no que nos expuseram; o Tico e o Gomyde com idéias, motivação e alegria pela possibilidade da participação nesta disputa.
É preciso ressaltar que existe obviamente uma disparidade natural. O grupo do Tico, ainda se articulando e o Grupo do Gionédis, mais consolidado, até porque está a quatro anos dirigindo o Clube. Sendo assim, é natural que haja diferenças entre o nível detalhamento das propostas. A da situação razoavelmente detalhada, estabelecendo o como realizar as coisas.
A proposta da oposição mais no campo das idéias, propondo o que fazer em linhas gerais. É preciso que fique claro que estas diferenças de maneira nenhuma dão ou tiram valor das idéias apresentadas.
Quanto a filosofia das propostas, fica muito claro que para a Chapa União Coxa-Branca o foco principal é a sustentabilidade das ações. Mas o que é sustentabilidade? Talvez o conceito mais usado para desenvolvimento sustentável é: “Satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem suas próprias necessidades” (Comissão Brundtland, 1987).
A idéia colocada pelo Giovani, de que o futebol é o telhado de uma casa, mas é necessário ter os alicerces bem construídos que evitem que este telhado ceda em pouco tempo, é a quem melhor traduz o conceito acima colocado.
Se o foco é esse, está mais do que justificado a racionalidade e a continuidade na austeridade para as ações propostas. Mas, devido à características de sua proposta, tem que se ter o cuidado para que esta austeridade não diminua a participação e a criatividade.
Já foi dito pelo Giovani em muitos momentos que toda a ajuda é bem aceita. Então, fica o conselho de atenção para este cuidado.
Já a filosofia da proposta da Chapa Coritiba Campeão de Novo é o aproveitamento dos talentos individuais de seus colaboradores, desenvolvendo o trabalho participativo. A participação é fundamental sim para sucesso das propostas. Para isso é necessário conhecer dois conceitos fundamentais: trabalho em rede e colaboração. "Uma rede é um agrupamento de indivíduos, organizações ou agências organizadas em bases não hierárquicas em torno de questões ou preocupações, as quais atuam proativamente e sistematicamente baseadas no compromisso e confiança.” (Organização Mundial da Saúde 1998. Já o conceito de colaboração traz consigo a idéia de co-responsabilidade dos partícipes, a idéia de trabalhar com alguém e não para alguém.
Estes conceitos estão claros em todo o discurso do Tico. A prova disso é que em determinados momentos da entrevista nos foi solicitado para conversar com um dos colaboradores, que por ser profissional da área, tinha mais condições de responder a determinada pergunta. Isso é significa co-responsabilidade dos colaboradores nas informações passadas. Como a gestão de uma rede é algo muito subjetivo, é preciso ter cuidado para não perder o comando no Clube. Não que isso possa vir a acontecer, mas é preciso atenção.
Deve ficar claro que o Giovani falou sim em participação e o Tico também falou em sustentabilidade. Mas as ênfases identificadas foram estas acima colocadas.
Quanto ao detalhamento das propostas, obviamente que pelos motivos acima colocados e como pode ser visto nas entrevistas dadas, as propostas do Giovani estão mais detalhadas.
Durante a entrevista, foi mostrado por ele apresentações em PowerPoint, organogramas, projetos arquitetônicos das obras e até um estudo detalhado de marketing; já o Tico teve a hombridade e serenidade de dizer que ainda não possui suas propostas de ação documentadas. Aqui queremos fazer um alerta a ambos: Mesmo com o maior detalhamento das propostas da chapa da situação, ainda é muito pouco. É necessário documentar estas propostas em forma de projeto, descrevendo o objeto e detalhando as propostas em um plano de ação.
Os objetivos e metas precisam estar mais escancarados, como também seus meios de avaliação. É preciso que se entenda que o papel aceita tudo sim e que não necessariamente, o que ali está escrito um dia se concretizará. Mas mesmo assim o papel é fundamental.
Um projeto delineia o caminho não só para o dirigente, mas para colaboradores e a torcida como um todo. Um plano de ação explicita quais ações que devem ser realizadas para se alcançar os objetivos propostos. Também é um instrumento forte de convencimento para parceiros.
Ponham-se no lugar de um possível investidor: para ele, quem passa maior credibilidade: aquele que apresenta suas idéias de cabeça ou aquele que mostra um projeto consistente com caminhos e metas estabelecidas? Um projeto é um forte instrumento de marketing, pois passa segurança ao torcedor. Nosso conselho é que estes projetos sejam elaborados e amplamente divulgados o quanto antes.
Outro ponto salutar a ser ressaltado é a necessidade de uma maior atenção de ambos os candidatos para o processo de planejamento estratégico. É a partir dele que os projetos são consolidados. Podemos conceituá-lo como um processo pelo qual a organização se mobiliza para atingir o sucesso e construir o futuro, a partir da análise atual e de cenários e do ambiente interno e externo.
O planejamento estratégico provê direção e propósito, ajuda a identificar oportunidades, permite crescimento ordenado, subsidia decisões, facilita trabalho da equipe, melhora o controle e o re-direcionamento das ações.
Ao analisar as propostas, por mais que tenhamos observado que existe planejamento empírico, verificamos que falta método. Um planejamento estratégico de qualidade não pode sair da cabeça de somente uma pessoa. É preciso ser definido, consolidado e principalmente documentado em uma mesa redonda com a participação de todo o colegiado e com representantes dos diversos segmentos do Clube.
Quando falamos em missão, buscamos responder três perguntas em uma única frase (curta e direta): o que eu faço? Por que existo? O que me faz diferente? Já a visão, é o sonho de futuro. Como planejar algo, se não estiver estabelecido o que se deseja no futuro? Por isso, a visão é fundamental. Ela também deve ser estabelecida em uma única frase. Por que? Simplesmente, porque a missão e visão institucional deve estar na cabeça de todos os colaboradores do Clube.
Quando perguntamos na proposta sobre ameaças e oportunidades, forças e fraquezas, foi visando identificar como os candidatos percebem oportunidade e ameaças do mercado e se estão a par quanto a possibilidade do Clube, por meio de suas forças e fraquezas, tirar proveito ou se preparar para se adequar a possíveis instabilidades do mercado. As maiores e mais consagradas empresas do mundo passam constantemente pelo processo de planejamento estratégico. Se eles o fazem, por que o Coritiba não pode fazer também?
Por fim, cremos que toda a divergência é salutar para que haja crescimento. Isto também é consenso entre os candidatos. Porém tais divergências devem acabar quando se põe em risco a sobrevivência do Clube. Cremos que talvez o melhor fosse uma composição entre as chapas. São estilos diferentes, que na verdade acabam se complementando. Por isso, deixamos um apelo, como torcedores apaixonados a ambos os candidatos: vocês se demonstraram abertos à ajuda e a alianças. Independentemente de quem ganhe a eleição na segunda, ela acaba na segunda. Após isso o que importa é o Coritiba.
Para o vencedor, solicitamos que aceite a ajuda do perdedor e para o perdedor, pedimos humildade em apoiar e ajudar o vencedor. Ambos são importantíssimos para o Clube. Basta de divisão no Conselho. Se todos se unirem em torno de um projeto e não em torno de uma pessoa o grande beneficiado será só um: o nosso amado Coritiba.
Flávio Kitzig, é Coxa-Branca, administrador, atualmente cursando MBA em Gerenciamento por Projetos
na FGV. Consultor de empresas e coordenador de projetos de consultoria do ISAE-FGV, braço da Fundação Getúlio Vargas no Paraná.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)