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Um projeto para o Coritiba Foot Ball Club
Em meio à crise técnica causada pelos fracassos em campo, o presidente Giovani Gionédis anunciou que, se reeleito, inicia-se em janeiro as obras de conclusão do terceiro anel do Couto Pereira.
Um grupo de discussão por e-mails, na internet, levantou várias questões relativas a esse assunto, dentre as quais:
a) O pronunciamento do presidente foi político, e pode indicar a existência de oposição no Clube, reforçada pelos problemas existentes com o time;
b) Foi um pronunciamento temerário, visto que essa obra já foi prometida (e não cumprida) muitas vezes nos últimos 30 anos;
c) Mesmo que saia do papel, seria algo inútil, pois o estádio Couto Pereira estaria ultrapassado e investimento melhor seria no CT Bayard Osna, deixando os recursos para um planejamento mais completo;
d) Planejamento completo não existe no Clube;
e) Não há projetos apresentados ao público, embora exista notícia de que remanejamentos de espaços já estejam em andamento, para receber as obras.
Sobre esses assuntos, tenho opinião clara e formada, a qual vou deixar aqui, esperando que os torcedor Coxas-Brancas comecem uma ampla discussão sobre o futuro do Clube, mesmo que isso implique em não concordarem com o que escrevo.
1. A Oposição ao GG:
Giovani Gionédis merece todo o respeito dos Coritibanos. Ele aceitou assumir um Clube com 50 milhões em dívidas, um CT incompleto e um estádio em avançado estado de deterioração. Em quase quatro anos, ganhou dois títulos estaduais, levou o Clube a uma Libertadores da América, pagou 30 milhões em dívidas, melhorou a estrutura do CT e reformou o Couto Pereira que hoje conta com o melhor gramado do Brasil, sendo um dos 10 melhores estádios nacionais. Se há quem ache pouco, volto a deixar claro o tamanho da dívida: R$ 50.000.000,00.
Que fique bem claro que não havia na época de sua eleição, ninguém disposto a assumir o Clube, e, por conseqüência, a administração de uma dívida monstruosa, causada pela irresponsabilidade de dirigentes que faziam do Coritiba um entreposto de jogadores de qualidade duvidosa, negligenciando as categorias de base, de modo que nunca o Clube ganhava em negócio algum. Não me admiraria se essas mesmas pessoas não estariam planejando seu retorno, agora para a direção de um Clube que, mesmo com problemas, tem mais perspectivas do que as encontradas pelo atual presidente, que assumiu um sacrifício pessoal que pouca gente reconhece, mormente pessoas que, como eu, se irritam com as atuações precárias do atual time em campo, muito embora eu reconheça os esforços e o mérito de Giovani Gionédis.
Portanto, mesmo que eu faça críticas ao presidente, e mesmo que algum Coxa também o queira fazer, não sejamos injustos, porque ele não é um deus capaz de resolver todos os problemas, muito embora tenha feito milagres.
No entanto, cabe à torcida e aos sócios formais do Clube exigir, tanto do presidente Gionédis, quanto de eventuais candidatos à sua sucessão, planos concretos sobre a administração da instituição: Projetos, metas, avaliações e tudo o que for necessário para que não só haja organização, como oportunidade para todos possam participar dentro de suas possibilidades.
2. Planejamento Estratégico:
O Coritiba Foot Ball Club nunca teve planejamento. Torço por ele desde uma tarde de 1977, quando assisti uma vitória de 7x1 contra o Ferroviário do Ceará, e desde então ouço dizer uma vez por ano que o terceiro anel do estádio vai ser concluído, que o Clube vai ter uma estrutura social, que obras vão acontecer aqui ou acolá, etc... E quase nada sai das palavras vazias, porque não existem sequer projetos. Não é culpa só dos atuais dirigentes. É responsabilidade de várias pessoas, inclusive do lendário Evangelino da Costa Neves.
Nunca houve metas a serem alcançadas, nunca se pensou em longo prazo para ele. Giovani Gionédis, por exemplo, tem uma administração carente nas áreas social, de comunicação, marketing, de obras e mesmo de futebol e talvez isso ocorra porque isso tudo custa caríssimo e o Clube que ele recebeu teve que fazer uma opção por pagar salários e impostos em dia, a planejar algo que nunca sairia do papel enquanto subsistisse uma dívida de 50 milhões de reais.
Mas agora é a hora disso tudo mudar, porque, se a dívida ainda é grande, pelo menos é administrável, e já autoriza projetos de longo prazo. Logo, é preciso que tanto o atual presidente, quanto um eventual outro pretendente ao cargo deixem claro quais suas propostas e métodos de trabalho.
O atual presidente anunciou quando do pagamento da dívida com o Bradesco, que faria obras no CT do Atuba. Um mês e meio depois disse que começaria as obras do terceiro anel do Couto Pereira e, de prático, nada apresentou, porque não há uma planta, um desenho, um projeto, não há nada de concreto sobre nada do que foi anunciado.
Se ele tem um projeto para o Clube, é secreto, e suas palavras soam como campanha eleitoral. Ressalte-se, novamente, os seus méritos, mas deixemos claro o verdadeiro problema: nos últimos 30 anos o Coritiba Foot Ball Club tem sobrevivido de bons momentos e patinado a maioria do tempo justamente por não ter projetos, uma vez que tudo nele é feito de improviso e por entusiasmo.
Se há oposição, ela também é responsável por isso, porque certamente nela existem membros das "administrações" anteriores, que pecaram muito mais que a atual, porque foram estas "administrações" que afundaram um Clube tradicional, quase o levando à extinção, também por improviso e muitas vezes por entusiasmo.
Então, para qualquer das partes envolvidas nesse processo político, é necessária a cobrança, tanto dos sócios formais quanto da torcida, para que o Clube estabeleça um caminho a ser seguido, planejando ações, provisionando recursos e atuando com foco naquilo que o Clube quer ser. Mesmo que se chegue à conclusão de que deve ser apenas um Clube periférico no futebol brasileiro (não é a minha opção), pelo menos façamos isso de modo claro e apresentando as razões para tanto.
No entanto, se queremos um Clube vencedor, bons times e sucesso mercantil, é necessário montar uma estrutura verdadeiramente profissional, contratando técnicos nas áreas sensíveis (administração, marketing, publicidade, futebol, obras, comércio, etc...) para que trabalhem de modo integrado e com objetivos bem definidos.
Até hoje, o Clube nunca funcionou assim. Sempre foi um lugar onde o idealismo ora deu espaço para pessoas arrojadas e competentes (Evangelino, Arion Cornelsen, Bayard Osna, Gionédis, etc...) ora para pessoas até bem intencionadas, mas sem arrojo ou mesmo conhecimentos para fazer um bom trabalho, isso descartando os mal-intencionados...
O momento certo para a virada é este, porque o Clube foi salvo de uma dívida monstruosa, porque está na primeira divisão do campeonato do melhor futebol do mundo, porque a torcida, mesmo com todos os problemas, está atenta e disposta a ajudar o Clube (senão não se justificaria a média de público de hoje, com esse time...) e porque uma nova gestão se iniciará em janeiro de 2007, quem sabe até uma gestão de consenso.
3. O Terceiro Anel do Couto Pereira:
O futebol está em rápida evolução e não vai demorar muito o Brasil terá de se adaptar aos padrões europeus. Ou seja, estádios impecáveis, cheios de conforto e facilidades para usos múltiplos (como praças de esportes, áreas de lazer, "shopping center", teatros, cinemas, etc... vide os estádios que Portugal construiu para a Eurocopa, isso tratando de um país periférico naquele continente) e para a era do entretenimento total, onde uma pessoa sai de casa de manhã, almoça no estádio, faz compras, assiste o jogo e, se ainda sobrar fôlego, assiste um cineminha, o que significa, mais rendas indiretas, mais merketing, mais rendas de publicidade, público mais selecionado e ingressos mais caros.
É uma tendência que cedo ou tarde vai se impor, mesmo havendo, no Brasil um amplo debate sobre o acesso das pessoas mais humildes aos estádios. Portanto, me parece um fato que o Couto Pereira, assim como o Maracanã, o Mineirão, o Pacaembu, a Fonte Nova e outros tantos estão com seus dias contados, porque mesmo reformados ainda assim não atenderão os requisitos do futebol do futuro e não me admiraria que estádios recém construídos também não.
Por isso, sou da opinião que a obra do terceiro anel é inútil. O Couto Pereira, apesar de todos os bons momentos que lá passei e das boas lembranças que tenho dele, é um estádio ultrapassado.
Não me parece sensato gastar dois ou três milhões de reais numa obra que vai gerar dois ou três mil lugares adicionais, e não irá solucionar alguns problemas nem melhorar muito o conforto para quem assiste jogos nele. Não sou dono da verdade, é apenas a minha opinião.
Ademais, não estou escrevendo isso pensando no estádio do rival, estou sendo prático. Era mais confortável assistir jogos no Couto quando não havia cadeiras. No anel inferior, havia mais espaço para esticar as pernas e não ficar com os joelhos no rosto, como acontece hoje. Nos anéis superiores, havia mais espaço para os pés, que hoje ficam mal acomodados entre o degrau e as cadeiras instaladas. É um fato. Não é demérito reconhecer que o estádio foi projetado para uma outra época, de um futebol diferente e amadorístico. Não é comparação com o estádio de outros Clubes (até porque só conheço três estádios, em Curitiba apenas o Couto Pereira).
Não sou ingênuo de achar que o Clube deve por abaixo o Couto Pereira e construir outro do nada, porque isso é impossível. No entanto, é hora disso fazer parte de um planejamento estratégico, no sentido de sair do papel em tempo compatível com um projeto para a instituição, um projeto de longo prazo, por absoluta necessidade de adaptação do Coritiba ao futebol que está mudando.
Logo, é preferível deixar de lado essa obra na Mauá, terminar a instalação de cadeiras e obras menores e manter apenas uma manutenção rigorosa do que já existe. Mais que isso me parece desperdício.
4. Centro de Treinamentos:
O dinheiro a ser gasto no estádio Couto Pereira seria melhor aplicado no CT Bayard Osna. Me parece que a prioridade atual do Clube é revelar jogadores para o time principal e para negociação, pois só assim serão gerados recursos para o crescimento da instituição como um todo.
Logo, com o dinheiro a ser gasto nas obras do terceiro anel, poderia haver um investimento mais concreto no CT. Um mini-estádio, um hotel (ou parte dele), um ginásio de esportes, um centro médico desportivo e quem sabe até uma ação que vai de encontro às modernas práticas do futebol: separar o treinamento dos profissionais das categorias inferiores, o que significaria um CT em separado, também projeto de longo prazo.
5. Conclusão:
Sou apenas advogado, nada entendo de administração, marketing, obras, etc... e mesmo quando o assunto é futebol, nada mais sou que um palpiteiro, um dos 130 milhões de técnicos o país possui. Minhas constatações podem estar certas ou erradas, minhas opiniões podem desagradar alguns Coxas-Brancas (já sei de alguns coritibanos irritados com coisas que escrevi na internet) ou ferir os sentimentos de outros (principalmente nas minhas opiniões sobre o estádio Couto Pereira que, repito, é um motivo de orgulho pessoal de torcedor, dada a sua história e a forma heróica com que foi erguido).
Mas acho que o momento para levantar-se a discussão é propício, porque se o time estivesse na ponta de cima da tabela, pouco se falaria de futuro. É a hora de tratarmos disso de modo pontual, afastando a natural irritação com os resultados presentes, mas projetando um Coritiba Foot Ball Club, para que ele possa ter um futuro mais estável, sem os altos e baixos que o têm caracterizado nos últimos 30 anos.
Mesmo que alguns critiquem tudo o que escrevi, acho que o debate seria saudável, porque só dele podem sair sugestões e mesmo soluções. É o que espero.
Fábio Mayer
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)