
OPINIÃO
Uma reflexão do outro lado do mundo.
Passei oito dias em Hanói, capital do Vietnã, que mistura de sentimentos, conflitos, descobertas, tristezas, alegrias. Digo isto, pois na chegada me senti entrando no túnel do tempo, retrocedi ate minha juventude, recordei tudo o que tinha ouvido e visto naquela época e até agora sobre a guerra do Vietnã.
E se eu fosse emboscado por algum vietcong? Ou será vietnamita? Acho que os vietnamitas eram os que apoiavam a invasão dos americanos e os vietcongs, os comunistas, comedores de criancinhas vivas, os que guerreavam contra os bem feitores da humanidade.
Guerreavam? Não, faziam guerrilha, emboscadas e tudo o mais, afinal, cada um usa a arma que tem; que lição de estratégia, perseverança e coragem os americanos e o mundo receberam desse povo pequeno na estatura e enorme nas suas convicções.
Meu medo era a emboscada. Como fazer? Nasci no pé do morro, briguei muito. Mas ser atacado de surpresa, pelas costas, subir preso a uma corda pelos pés, cair num buraco e ser perfurado, essa eu não sei como enfrentar, demais para a minha experiência de brigador de rua! É como o contra-ataque que os times nunca acreditam que vai acontecer e acontece - e sai o gol, às vezes, nos causando a derrota.
Aquele povo apresentado pelos americanos, ou propagandeado, era muito ruim. Preciso me precaver, jamais dar as costas para eles, não chegar perto demais, não sair à noite. Entrar em becos estreitos? Só com muita atenção, todo cuidado será pouco. Incrível, mas as marcas estavam lá, os estragos da propaganda estava feito. Eu podia senti-lo quase quarenta anos depois!
Na chegada, no aeroporto, a confirmação, os soldados e seus uniformes verdes e vermelhos, confirmavam o que os noticiários e filmes me diziam e afirmavam, eles estavam ali, o inimigo a ser derrotado. Na imigração me preparei para o primeiro combate. Esse não seria muito difícil - afinal, seria frente a frente, numa guerra de verdade. Minha surpresa! A primeira de muitas, o sorriso, o bom inglês e as boas vindas. Não pode ser, esse é o uniforme que sempre usaram, são eles mesmos. Essa é a isca, pensei: Fazem-nos relaxar e depois o bote fatal.
Lá fora uma multidão esperava, não o nosso time, mas parentes e amigos, e a confraternização nada tinha a ver com o que eu imaginava. Barulhentos, festivos, receptivos, o que será isto? Já sei, estão disfarçando, nos fazem acreditar neles e depois - depois, esse é problema.
Entramos no ônibus e saímos pelas ruas estreitas que nos levariam até o hotel, uma grande mistura de fábricas, campos agrícolas, pequenas plantações e seus agricultores usando aquele chapéu enorme e tradicional. Na rua, muitas, muitas bicicletas e motos, gente de todo tipo, bem vestida, mal vestida, camponeses, trabalhadores, executivos, secretárias, professores, médicos, moto-táxi, bicicletas que transportavam papel, panelas, caixas, ar-condicionados, famílias inteiras, pai, mãe, duas filhas. Víamos de tudo, mas tudo mesmo. Eles são a maioria, o ônibus não passa de quarenta por hora, é cortado, fechado - ultrapassado é um elefante sendo dominado e maltratado pelas formigas. Verdade, não há outra comparação possível – é o elefante e as formigas.
Chegamos ao hotel e o carinho, a atenção e a disposição de todos os funcionários em nos atender impressionaram positivamente. Riam o tempo todo, queriam tocar, ser gentis, uma hospitalidade fantástica!!!
Recebi a ligação do Luciano, treinador veterano e rodado por este mundo, um amigo, que já esta há quatro anos trabalhando em um time do pais, pena que ficava a 600 quilômetros de onde eu estava e não poderia revê-lo. Disse-me que o povo é muito simpático, não há brigas, cumprem com os compromissos e que o país está numa explosão econômica grande, tanto porque as todas poderosas bicicletas estão sendo trocadas pelas motos.
No último dia, antes de ir para o aeroporto, já depois do último jogo, depois de ter sido campeão do torneio, segui meu impulso e peguei pela primeira vez na vida, uma moto-táxi, queria sentir a sensação de andar naquele tumulto. Foi muito bom, algo inimaginável para um carioca, ou morador de uma das grandes metrópoles no Brasil, sentir as pessoas ao seu lado, vê-las tão perto, famílias numa mesma moto, conversando como se estivessem num carro ou ao redor de uma mesa. Está explicado as fechadas, eles olham para trás e conversam, mesmo. Uma grande parte, tanto de homens como de mulheres, usa lenços cobrindo a boca, outros só deixam os olhos de fora e alguns nem isso, pois usam óculos imensos, tipo anos 60. O capacete ainda é um artigo que não chegou aqui.
Uma maravilha, uma sensação de liberdade, de leveza, de humanidade, de relacionamento, belo sentimento e linda experiência. Mas tudo isto me levou a algumas reflexões, que acho relevantes neste momento e na situação em que vivo - afinal vivo e moro no Irã.
1. Sempre pergunto aos meus jogadores qual seria o resultado da luta entre o leão e o jacaré, claro que eles ficam em dúvida e fazem mil conjecturas. A resposta é muito simples, depende do terreno onde vão lutar, se for no lago vence o jacaré, se for na floresta sem pântano, vence o leão, não tem jeito.
Moral da estória: saiba usar muito bem suas armas e conheça o poderio do seu inimigo. Isso é o jogo de futebol, a vida - nos negócios e tudo o mais. Só não seja desonesto com o poder que tem, nem covarde com o que não tem. Por acaso não foi assim também no Vietnam? Claro que sim, o poderoso exército americano foi derrotado. O que está acontecendo no Iraque?
2. Aprenda sempre com suas derrotas, elas devem ser temporárias, uma amostra do que você não deve fazer ou de onde deve começar. Todo vencedor é um perdedor experimentado. Mas só será assim se as derrotas forem analisadas e entendidas; tomar parte em outra guerrilha não é uma demonstração de que a derrota do Vietnã foi aprendida.
3. Cuidado com a propaganda, principalmente quando potências, ou a potência está querendo fazer adeptos, aliados. Vale tudo, inventar armas de destruição em massa, cavernas, apoio a terroristas, etc. Ouvir os dois lados é de bom senso.
4. Ao ver as bicicletas e motos comandando o trânsito e determinando que os poderosos carros e ônibus trafeguem de acordo com a velocidade e direção da maioria, me veio a imagem de um boiadeiro guiando uma boiada para o matadouro, soubesse o boi a força que tem o boiadeiro estaria ferrado, e mais ainda, soubessem os bois a força magistral que possuem, todos juntos, coitados dos fazendeiros.
Meio louco, sei disso, mas se compararmos com o que fazem com a gente em termos de país, de política, de manipulação do nosso dinheiro e da cara de pau de como conduzem suas tramas, tem muita relevância a analogia. Fiquei imaginando se nós brasileiros teríamos a noção de nossa forca ou se somos só bois.
Acho que está na hora, em outubro, de fazermos como as bicicletas e motos do Vietnã, colocar os poderosos para andarem na nossa velocidade e direção. Se não for possível, que tudo isto seja somente uma reflexão do outro lado do mundo.
Renê Simões, estudioso em futebol, é o atual técnico da Seleção Olímpica do Irã e consultor da FIFA.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)