
FALA, COXAnauta!
As notícias de jornais nos últimos dias são altamente ilustrativas de que, para certas pessoas, a falta de bom senso não tem limite. Leitor e ouvinte das notícias esportivas, particularmente das que se referem ao Coritiba Foot Ball Club, fui tomado de verdadeiro estupor com as descabidas considerações feitas pelo Senhor Paulo Schmitt, procurador geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, em razão dos lamentáveis e inaceitáveis episódios ocorridos antes, durante e depois do jogo da última rodada do campeonato brasileiro de 2009, entre Coritiba e Fluminense, que resultou em empate em 1x1, placar que levou o Coxa à 2ª Divisão.
Como os acontecimentos se deram após o jogo, alguém pode estranhar a referência que faço a episódios ocorridos antes e durante a partida. Explico: o que aconteceu antes – em alguns casos, bem antes – e durante o evento esportivo foi a causa do que aconteceu depois.
Antes do jogo – mas após o horário definido para a partida se iniciar – o Fluminense apelou para a malandragem. Com o Estádio repleto de torcedores angustiados com a posição na tabela do Coritiba e do próprio Flu, o irresponsável comando técnico do time carioca retardou em muitos e irritantes minutos a entrada em campo de seus jogadores, a ponto de dar de ombros para o Hino do Paraná e, na seqüência, para o Hino Nacional do Brasil. A falta de espírito esportivo, de civilidade e respeito teve o condão de acirrar ainda mais o ânimo de todos os torcedores presentes. A quase totalidade dos torcedores do Coritiba – mais de 32 mil – contiveram a irritação como soe acontecer com os cidadãos curitibanos de maneira geral e também com torcedores coritibanos em particular que, em maioria, são comedidos, educados e civilizados. No entanto, provocadas, algumas pessoas – sejam elas paranaenses ou cariocas, paulistas ou pernambucanas, catarinenses ou gaúchas – por má índole e intenção, aproveitam certas deixas para agirem como verdadeiros criminosos. E é evidente que não existe torcida de clube de futebol que não tenha entre seus membros um ou outro elemento, no caso 0,2%, duas dentre mil pessoas, que, ao invés de comparecerem a espetáculos esportivos ficariam mais bem colocadas se apreciassem, dentro de uma cela de cadeia, o nada espetacular pôr-de-sol quadrado.
Com a aparência de algo de menor importância, a atitude do Flu de atrasar a partida, no começo do primeiro tempo, por pura malandragem da direção tricolor, foi, no dia, o estopim do que, ao final da partida, veio a acontecer. O juiz – dizem – colocou este detalhe na súmula enviada à CBF, mas fez o registro como se o fato em si tivesse sido algo de menor expressão. Não foi. O juiz, os bandeirinhas e o quarto árbitro – macacos velhos, muito sensíveis ao humores das torcidas de uma maneira geral – tremeram como varas verdes ao longo do Hino Nacional cantado por inteiro, antevendo que aquilo ia dar rolo. E deu, como se viu depois.
Que disse, sobre isto, o Procurador Schmitt. Nada.
Outro fato, anterior ao jogo, que teve o dom de irritar a torcida e os jogadores – soubemos ontem pelos jornais – foi o desempenho de super-homem do foguete Jobson do Botafogo, turbinadíssimo, flagrado no exame antidoping pelo uso de cocaína no jogo em que participou e no qual fez um gol contra quem? Contra o Coritiba no estádio do Engenhão, ocasião em que, se tivesse, sem usar droga, o desempenho que mostrou contra o Coxa, o São Paulo e o Palmeiras, poderia ser considerado um Pelé do século XXI. Suspenso por 720 dias, se voltar a jogar e sem gasolina azul, o super-Job vai mostrar que Pelé ele não é. Que disse o apressado procurador Paulo sobre fato tão grave e com tantas conseqüências para o até ai bom campeonato? Que o Botafogo não corre risco de perder os pontos, que isto só aconteceria se houvesse confirmação de que outros atletas do Fogão estivessem dopados... Só por conta do desempenho galáctico de Jobson, o coxa ferrou-se, idem o São Paulo que deu tchau ao campeonato (levou dois gols de Jobson), idem o Palmeiras que por ter levado o segundo gol (de Jobson) nem para a Libertadores se classificou. Há que se registrar que ficou comprovado o doping deste jogador somente no jogo contra o Coritiba, mas qual a razão de tanta demora para se descobrir, pela urina, que um jogador atuou dopado se isto estava visível no seu surpreendente desempenho? Quem faz um cesto, faz um cento... Por certo o Cruzeiro dos simpáticos mineiros, que contratou o azougue chamado Jobson o fez sem saber destes antecedentes. E é claro que o fato de ele ter estourado a boca do balão no jogo contra o São Paulo e contra o Palmeiras – que foi determinante para o Cruzeiro classificar-se para a Taça Libertadores – não foi o motivo da contratação.
Para completar mais fatos que bem antes do jogo final vieram irritando a torcida coxa branca, basta lembrar que desde o início do campeonato brasileiro o Coritiba foi muito prejudicado pela visível parcialidade ou incompetência de muito mais de meia dúzia de árbitros e, também, da procuradoria de Justiça Desportiva que, sem motivo algum, cassou o direito do Coritiba de jogar em seu próprio Estádio a partida contra o Santos.
O que ocorreu durante o jogo: a conivência do árbitro Vuaden com a “cera” dos jogadores do Flu foi de irritar: mais de dez minutos no total. E o acréscimo? 2 minutos no primeiro tempo e de quase 3 no segundo. Com a passividade do árbitro em relação ao novo atraso do time carioca para o segundo tempo as arquibancadas quase vieram abaixo. Isto sem contar que os torcedores do Flu, ainda que em menor número, foram proporcionalmente muito mais violentos e desmedidos do que os torcedores do anfitrião.
O que ocorreu depois do jogo foi conseqüência de toda a provocação havida durante e antes do jogo. Por partes: Em pequeno número dentro do campo, os valorosos policiais militares não puderam conter os perto de 60 marginais que saltaram da arquibancada para o fosso e que daí, articuladamente, um fazendo “escadinha” para o outro, adentraram o gramado, quebrando placas de propaganda e, com o madeiramento delas e dos bancos ali colocados, avançaram para, literalmente, moer: Investiram contra os jogadores do Coritiba – coitado do Carlinhos Paraíba; contra os atletas e os demais integrantes do staff do Flu; contra o árbitro e os bandeirinhas que levaram alguns sopapos; contra a diretoria do Coxa que prudentemente se mandou quando viu a coisa empretecer. Esta malta, ainda que nem sempre fisicamente, atacou a própria torcida alviverde formada por bem mais de 30 mil torcedores exemplares e, como se não bastasse, quase aniquilaram um personagem benquisto, simpático, pacifico e alegre, um velhinho, com cem anos de idade, chamado Coritiba Foot Ball Club, a maior vítima de tudo o que aconteceu e que, injusta, maliciosa e maldosamente, está sendo considerado o único culpado pelas estúpidas ocorrências.
Veja-se por partes: Que fez o centenário velhinho para depois de surrado, quebrado, rebaixado merecer as virulentas e injustas críticas e, na seqüência, as acusações que vêm sofrendo?
Alguns dizem que, ao reduzir o ingresso para R$5,00, a direção do Coxa teria desencadeado a barbárie. Esta é uma acusação inaceitável e discriminatória contra aquelas pessoas que, com a medida, puderam entrar – em alguns casos, pela primeira vez – no maior e melhor Estádio do Paraná, obra de gerações de abnegados dirigentes e torcedores. É óbvio que ao permitir o acesso a pessoas menos afortunadas abriu-se a porta também para alguns marginais, pois este tipo de gente existe em todas as camadas sociais. Falou-se também que houve falha e omissão por parte de seguranças do Coritiba. É verdade, houve, sim. Mas é verdade também que seguranças particulares, mesmo com a musculatura esticando a manga das camisetas identificadoras, não têm treino nem preparo para a tarefa. Na hora do vamos ver os educados e cordiais tomadores de Toddy, que às centenas se espalhavam dentro e fora do Estádio, acabaram miando como o gato da madame. Ainda bem que assim fizeram. Seguranças particulares servem para auxiliar na organização de qualquer evento, não para dar porretada em quem quer que seja. Se o fizessem, que tragédia.
Muito comentada foi a ilação de que teria faltado um contingente policial com número de integrantes à altura do evento e das ocorrências criminosas que o Brasil inteiro viu com péssima e maliciosa repercussão na mídia internacional, afinal para muita gente mundo afora parece ser interessante desclassificar o nosso País como capaz de organizar a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Quanto ao número de policiais presentes no campo e nos arredores sua Excelência o Secretário de Segurança afirmou que havia mais de setecentos. Acho que foi mal informado ou alguém errou na conta. E errar tão feio numa conta como esta não pega bem, afinal se o número de policiais presentes fosse 700 isto equivaleria a dar um atestado de total incompetência à gloriosa, competente e até cordial PM paranaense, que podendo bater e agir com mais virulência – como fazem outras policias – aceitou até apanhar. Se de fato houvesse 700 policiais, em seus devidos lugares, é claro – devidamente equipados – eles não teriam ficado em hipótese alguma à mercê das seis dezenas de bandidos travestidos de torcedores.
Segundo as ultimas notícias, o apressado procurador Paulo Schmitt, apoiado no artigo 184 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva que trata do acúmulo de pena, enquadrou o Alviverde em 3 artigos, o 211, o 233 e, triplamente, no artigo 213.
O que dizem tais artigos?
O 211: “Deixar de manter o local que tenha indicado para realização do evento com infra-estrutura necessária a assegurar plena garantia e segurança para sua realização”. É evidente que não há lugar algum neste mundo “com infra-estrutura que assegure plena garantia e segurança”. O que há – e o Estádio Couto Pereira possui esta condição essencial – estádios que a CBF e/ou a FPF consideraram, após regular e periódica inspeção, estarem aptos para sediar jogos, afinal ninguém duvida de que a infra-estrutura do Estádio do Coxa é uma das melhores, não só no aspecto físico mas também no aspecto organizacional e de segurança. Obviamente, este Estádio não é uma casamata preparada para a guerra que ali ocorreu. Culpa do fosso que dizem ter uma altura de só 2,65 m. Só? Esta altura não é insuficiente para um fosso, não, até porque não há altura razoável que, por si, seja capaz de impedir que alguém consiga galgá-la. E, ainda que uma ou outra condição do estádio seja agora considerada insuficiente, é bom lembrar que o responsável não é o Coxa ou a sua diretoria e sim quem atestou, antes, a suficiência de qualidade do Estádio: a Federação, a CBF, a Secretaria de Segurança? Os árbitros que, na inspeção, se detêm em apenas verificar se há buraco nas redes? Desculpe-me, Senhor Procurador, mas neste artigo o Glorioso Clube do Alto da Glória não pode ser enquadrado.
Vamos ver o outro, o 233: “Deixar de cumprir obrigação legal por fato ligado ao desporto, observada a competência da Justiça Desportiva prevista em Lei” Como este artigo diz nada, o Senhor Procurador pegou como muleta para sustentar-se em sua tese o artigo 14 do estatuto de defesa do torcedor, que diz que a “a responsabilidade pela segurança do torcedor em evento esportivo é da entidade de prática desportiva detentora do mando de jogo e de seus dirigentes”. Ora,ora. É claro que tal artigo é tão inaplicável quanto seria um dispositivo da Constituição Nacional que pretendesse imputar ao Estado o dever de assegurar a vida aos 190 milhões de patrícios. Na prática, o artigo 233 do CBJD cominado com o artigo 14 do Estatuto do Torcedor chove no molhado, ou seja, diz (mal) o mesmo que o artigo 211, que mereceu os comentários acima, disse.
Finalmente, vamos ao artigo 213 que diz: “Deixar de tomar providências capazes de prevenir e reprimir desordens em sua praça de desporto. § 1º Incide nas mesmas penas a entidade que, dentro de sua praça de desporto, não prevenir e reprimir a sua invasão bem assim o lançamento de objeto no campo ou local da disputa do evento desportivo”. Este artigo é aquele em que Senhor Procurador do STJD resolveu apelar triplamente, para poder indiciar o Coxa de uma forma exorbitante, desproporcional e, a meu ver, ilegal e abusada. Diz o procurador – na ânsia desvairada de ferrar o Coritiba: “Não se está falando de um fato isolado, ou um ato prontamente contornado e controlado”. E se exaspera: “Não e não! O que se viu foi uma batalha generalizada que perdurou, dentro do campo, por pelo menos meia hora, sem falar que a confusão continuou nas cercanias do estádio, noite adentro”. É lamentável o que ocorreu, triste mesmo, mas o Coritiba fez tudo o que lhe cabia fazer: ofereceu um estádio “certificado” pelos órgãos estaduais, municipais e esportivos competentes. Colocou os seus seguranças que, evidentemente, não têm licença nem para usar os próprios e parrudos punhos; pregou diversos cartazes de alerta aos torcedores, distribuiu panfletos a miguelão; manteve a proibição de venda de bebidas alcoólicas; não vendeu nem doou um único ingresso além da capacidade do Estádio; entregou para o Público espectador um estádio arrumado, limpo e com cadeiras suficientes; convocou a Polícia Militar para que esta se pusesse a postos para reprimir todo e qualquer excesso; ofereceu à Imprensa local e nacional todas as melhores condições; ofereceu aos árbitros e aos representantes da CBF e FPF o que de melhor poderia oferecer; tratou com cordialidade e espírito esportivo jogadores e diretores do time adversário; manteve reservado e cuidado o espaço da torcida adversária que também contou com uma boa turma de bandidinhos, enfim fez tudo o que a ele Coritiba cabia fazer.
O que aconteceu, portanto, independeu do Coritiba, a quem não se pode imputar culpa alguma.
Mas, apesar dos cuidados tomados pela direção do Coxa, os fatos aconteceram e foram graves. A partir deles há que se pensar em uma série de ações que não passam por penalizar o Coritiba, pois o clube nada fez para contribuir com o que lamentavelmente ocorreu.
E há, sim, culpados. As fotografias estampadas nos jornais, as imagens colhidas pela Televisão, os relatos dos repórteres, do público torcedor de ambos os times, do quarteto de árbitros e de representantes, dos próprios atletas que atuaram na peleja, dão conta de que houve falha, culpa ou dolo de diversos agentes: a) da Secretaria de Segurança e da Polícia Militar que queiram ou não falharam – não dos bravos e corajosos soldados que em minoria dentro e fora do campo fizeram o que puderam; b) dos jogadores e dirigentes do Fluminense que encheram a paciência da torcida com ações anti-desportivas; c) da boçalidade cruel dos marginais (que podem em maioria ser identificados – 17 já o foram) que adentraram o campo machucando pessoas e destruindo coisas; d) da Federação Paranaense de Futebol, da CBF e das autoridades municipais e estaduais responsáveis pela inspeção do Estádio e por sua liberação para o jogo, se é que havia alguma falha de infra-estrutura; e) do árbitro e de seus auxiliares, omissos e permissivos com as provocações dos jogadores e da comissão técnica do time carioca; f) Do próprio Código Brasileiro da Justiça Desportiva que merece revisão e, no mínimo melhoria no texto (Por que não convocam o Doutor René Dótti para esta tarefa? Ele é do ramo); g) dos torcedores do Flu que, em pequeno número, durante o jogo provocaram policiais e torcedores coxas brancas; entre outros muitos culpados entre os quais não se pode incluir o Coritiba Foot Ball Club, por qualquer falha relevante que justifique a desmesurada pena proposta pelo paranaense Paulo Schmitt.
Em resumo, diga-se o que disserem, o Coritiba e a sua grande torcida são as maiores vítimas de tudo o que aconteceu. E, seria um verdadeiro paradoxo, culpar e penalizar uma inocente vítima.
José Luiz Schuchovski é Coxa-Branca de coração.
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