
FALA, COXAnauta!
Catarse
Catarse. Eu sabia o significado, mas preferi recorrer ao Dicionário Aurélio para ter certeza. Eis o resultado:
1.Purgação, purificação, limpeza.
2.Med. Evacuação, natural ou provocada, por qualquer via.
3.Psicol. Efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida.
4.Teatr. O efeito moral e purificador da tragédia clássica, conceituado por Aristóteles (v. aristotelismo), cujas situações dramáticas, de extrema intensidade e violência, trazem à tona os sentimentos de terror e piedade dos espectadores, proporcionando-lhes o alívio, ou purgação, desses sentimentos.
Agora , os verdadeiros Coxas me respondam se não é este nosso sentimento. Essa segunda divisão provocou um sentimento único, propiciou a união entre toda a torcida, não importava a origem, classe social, raça, idade ou qualquer diferença. Tínhamos um pacto de colocar o Coritiba acima de tudo e o fizemos.
Tínhamos a vontade de gritar o tempo todo para que os culpados dessa vergonha nos ouvissem. Não ouviam, quer dizer, fingiram que não ouviam, e pior, debochavam, faziam sinais obscenos, riam às nossas custas, embebedavam -se com nossos sentimentos e nossas lágrimas. Pelo pacto, nos calamos.
Quanto sofrimento! Como doeu, mas, diante de tanta dor, nos juntávamos e nos uníamos cada vez mais. Cantávamos, gritávamos, saíamos do chão. Afinal, éramos a torcida do Verdão. Ao contrário do que podem pensar, e só quem é Coxa sente isso, não estávamos torcendo para ascendermos para uma divisão que sempre foi nossa por direito. Não lutávamos por título. Lutávamos para sobreviver.
Sendo assim, cantamos, pulamos, gritamos e torcemos para continuarmos vivos. Os jogadores e a comissão técnica nos ouviram e se juntaram a nós. Apesar de toda a limitação do elenco, fizeram o que puderam. Destacaria como verdadeiros heróis: Édson Bastos, Henrique, Keirrison, Pedro Ken, Túlio e Gustavo. Talvez esteja sendo injusto com um ou outro. Assim sendo, gostaria de agradecer a todo elenco, pois a bravura e o nosso amor ao Coritiba ficou estampada. Ainda que, como torcedores, queiramos nos enganar, imaginando que os jogadores torçam para nosso time, em nosso caso, temos uma certeza. Esses que envergaram a camisa alviverde esse ano, enquanto aqui estiveram, aqui torceram e se portaram como torcedores. Sentiram nossas dores e nosso sofrimento, compartilharam nossa alegria e nos agradeceram, quando quem tem que agradecer a eles somos nós.
Todos queremos esquecer essa tragédia que foi nossa passagem pela segunda divisão, mas, talvez, queiramos comemorar e lembrar para sempre da redenção, da volta por cima, do resgate da alma, da sobrevivência, da catarse.
Sou dos que pensam que temos que esquecer essa passagem negra de nossa gloriosa história. Logo, não nos cabe estrela de prata. Questionei para mim mesmo: por que comemorar se fôssemos campeões? O que havia para comemorar? Há, sim, razões para comemorar. Estamos vivos, e mais vivos do que nunca. Estamos unidos como torcida, mais maduros, mudamos nosso comportamento, somos Coxas e temos muito orgulho disso.
Assim sendo, depois do trauma do jogo contra o Marília, fui assistir a Coxa x Santa Cruz, o epílogo da tragédia. Queria ganhar, ao mesmo tempo em que me vinha a cabeça a história da maldita estrela prateada. Ganhando, falariam que esse título não vale nada. Perdendo, vibrariam e seguiríamos com a aura de derrotados. Esse jogo, ao contrário de todos os outros, quis ver sozinho, eu comigo mesmo.
O jogo decorria e todos devem ter sentido a mesma coisa. À medida que o tempo ia passando, sucediam-se uma série de sentimentos. Aconteceu o gol de empate do Santa Cruz e pensei, tudo de novo, mais um erro de arbitragem contra nós, será que realmente foi erro? Viraram o jogo e surgiu o Dejá-vu (sentimento nítido de que já tinha visto aquilo antes), e o que já era ruim ficou pior. Vi os adversários comemorando. Invejosos daqui também comemorando, soltando foguetes, gritando, tocando hino. Então empatamos, e pensei que, pelo menos, não vamos acabar essa droga de campeonato perdendo, mas já que fizemos dois, podemos fazer três, e não é que fizemos?
Aquilo para mim interiormente não era verdade. Sentei no chão e comecei a chorar, chorar copiosamente, não conseguia parar mais de chorar, não porque tínhamos ganho um campeonato que nós não devíamos nem ter disputado, mas por catarse, pois, depois de tudo, todos e toda a essa tragédia, estamos vivos e com a esperança real de dias melhores. Ganhamos como todos os grandes ganham, de maneira épica, inconteste.
Como é que vamos fazer para esquecer isso? Será que intimamente vamos querer esquecer isso? Acredito que a melhor maneira de lembrar será no inconsciente coletivo de todos nós coxas brancas, mas sem estrela.
Fábio Vinicius Carignano é Coxa-Branca de coração.
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