
FALA, COXAnauta!
"Fui pego de surpresa. O discurso que o presidente do Coritiba adotava era diferente. Eu ainda dirigia a coletiva, quando ele me chamou e anunciou a minha demissão. Achei estranho porque alguns jogadores ainda estavam no departamento médico e poderíamos ter uma resposta, uma evolução na temporada." – Marquinhos Santos, ex treinador do Coritiba.
Infelizmente, a cultura prevaleceu. Sim, infelizmente. Diferente de muitos outros casos, ir pela cultura no futebol só atrapalha. Isto porque, todos os nossos conceitos são atrasados. Ser influenciado pela cultura do futebol brasileiro, nos faz retroceder nos conceitos futebolísticos. Para exemplificar: Sr. Alex Ferguson, ex-técnico aposentado do Manchester United, dirigiu o clube por quinze anos. Nas suas primeiras temporadas pelo Manchester, sabe quantos títulos ele conquistou? Nenhum. E mesmo assim, a diretoria não cedeu à pressão de torcida, de imprensa, de qualquer um que fosse. Pelo contrário, seguiu dando força para o técnico, e trocando os jogadores que não se encontravam contentes. Esse é só um exemplo de como é a cultura lá fora. Lá, o Clube é sim mais importante que um jogador. Lá, torcedor não vai atirar pedra na janela da sala do presidente, nem picha seu próprio estádio. Lá, o torcedor entende, procura saber a fundo o que está acontecendo no seu clube, para depois cobrar, elegantemente, uma mudança. Mas a questão em discussão não é essa. O que se discute, é o medo do novo no Brasil.
Quatro anos atrás o Coritiba começava a chamada "revolução alviverde". A principal filosofia a ser implantada era a do futebol moderno, da profissionalização de todas as áreas. A modernização de todos os setores, sendo inclusive influenciado pelos clubes europeus. Tudo muito bonito não? Pois bem, como sabemos, um projeto demora a dar resultados. O próprio presidente dizia: "Nosso projeto é em 2013, 2014 estar entre os 6 maiores clubes brasileiros." Coincidência? Com certeza não. Com Felipe Ximenes assumindo esse projeto, o Coritiba começou a seguir sua filosofia, repito, influenciado pelos princípios europeus. E a coisa, é claro, deu resultado. Começou de dentro para fora, pela contração de profissionais qualificados para todos os setores, inclusive para comissão técnica profissional, onde, na nova filosofia passaram: Ney Franco, Marcelo Oliveira e por último Marquinhos Santos. Resultados ótimos na categoria de base, e um positivo reflexo da nova filosofia implantada dentro do futebol profissional. Títulos, finais de campeonatos nacionais.
Porém, quando essa filosofia de trabalho estava completamente consolidada, e iria então passar a ser um diferencial, iria então começar a colocar o Coritiba entre os grandes clubes, o mandatário maior acabou com tudo. Faltou confiança no próprio trabalho e nas próprias convicções se contradizendo várias vezes, inclusive. Demitiu quem "implantou" a filosofia dentro do clube, e junto foi o técnico que mais se encaixava com a filosofia proposta. O que se pode concluir então? Que o futebol, ainda e infelizmente, é guiado pela cultura e pelos ultrapassados conceitos. Pelo medo do novo. E pelo medo da torcida, que não sabe nada sobre o clube. E mais uma prova disso, e dessa contradição, desse medo do novo, pode-se ter na última Quinta Feira, quando o presidente coxa branca foi conversar com Celso Roth, sendo que Vilson havia dito que quer um técnico "jovem, estudioso, e com vontade de vencer". Não vejo nenhuma dessas qualidades no Roth.
E o FATO NOVO? Como já citei acima, o Manchester United ficou 15 anos com o mesmo técnico. Não preciso nem dizer que não precisou de nenhum fato novo para se tornar um dos clubes mais valiosos e vitoriosos do mundo. Aliás, Alex Ferguson, o técnico que ficou quinze anos lá se aposentou esse ano. O novo técnico, promovido da base, assumiu. Já nas primeiras semanas teve um problema com o astro da equipe, o camisa 10, Wayne Rooney, que já deve ter quase 10 anos de clube. O que a diretoria fez? Nada. Sim, nada. Ou melhor, deu total apoio ao técnico, e Rooney foi parar no banco de reservas. Para comparar com o Brasil, aconteceu uma situação parecida com essa: Aquela em que Neymar discutiu com Dorival Júnior, sobre uma cobrança de pênalti. Qual foi ação da diretoria? Claro, mandar o técnico embora.
Portanto, enquanto o brasileiro não aprender, não entender de que o clube é maior que qualquer jogador, é maior que qualquer resultado, a coisa não irá pra frente. Enquanto os dirigentes não perderem o medo de acreditar no seu próprio trabalho, a coisa não sairá do lugar. Enquanto não aprendermos de que técnico precisa de tempo para trabalhar, e precisa de total respaldo de todos os setores do clube, não iremos para frente. O técnico deve ser uma pessoa, claro, que se identifique com o clube e se encaixe na filosofia. Mas mais do que isso, ele é quem manda no campo. Ele deve ter autonomia sobre os jogadores. Ele é o ‘gerente do campo’. Os jogadores precisam sentir isso. Precisam olhar para o técnico, como uma pessoa que pode sim, coloca-lo no banco, e também manda-lo embora. Só não me ofereçam contrato de três meses pra ele, por favor.
Lucas Garrett Chervenski é Coxa-Branca de coração.
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