
FALA, COXAnauta!
Estrela cinza é para quem precisa
A conquista da Série B pelo Coritiba na "Batalha do Arruda", que presenciei in loco com meu filho Mateus Caldas neste sábado, trouxe à tona uma polêmica inaugurada em 2002, quando o A. Paranaense passou a ostentar estrela prateada na camisa, alusiva à Segunda Divisão de 1995.
De 1996 a 2001, o A. Paranaense não portou a estrela cinza - sintoma do pouco valor que creditava àquele torneio menor. Após o título de 2001, contudo, deliberou-se a incorporação das duas (dourada e prateada), concomitantemente, ao distintivo e à camisa. Aquilo revelou intenção explícita de marcar suposta superioridade sobre o rival Coritiba (duas estrelas ante uma) e oculto sentimento de inferioridade perante outros grandes, aliado ao desejo de auto-afirmação - o verdadeiro subtexto da decisão.
Ser grande no futebol envolve três parâmetros: tradição, títulos relevantes e torcida. São Caetano, ainda que vice continental e duas vezes nacional; Santo André, Paulista e Criciúma (que venceram a Copa do Brasil) não são grandes: faltam-lhes tradição e torcida de massa. Seus próprios aficcionados têm perfeitamente clara tal condição e a aceitam.
Não é o caso do A. Paranaense. Embora inferior em tudo ao Coritiba (títulos estaduais a menos, estádio e torcida menores, o Brasileiro defasado em 16 anos em relação ao rival, etc.), imprensa e torcedor do Brasil já reconhecem o clube da Baixada como grande, do nível de Cruzeiro, Botafogo, Coritiba ou Fluminense - mesmo que tal status tenha sido alcançado apenas recentemente, com a primeira etapa da Arena, o título de 2001 e uma final da Libertadores perdida de goleada. É forçoso reconhecer que a alusão à Série B de 1995, mediante tardia incrustação de estrela prata, foi um erro do qual o A. Paranaense poderia ser poupado. O tiro de provocação aos arqui-rivais saiu pela culatra, pois virou chacota Brasil afora. A homenagem extemporânea virou ícone auto-afirmativo "quinta comarca", incompatível com um clube grande. É antes revelador de imaturidade típica do novo-rico que traja terno de cetim brilhante ou da ninfeta que exagera no decote de saia cor-de-abóbora. Em uma palavra: "over".
Ser rebaixado é algo a que também estão sujeitos os grandes. À guisa de lembrança, note-se que só sete não o foram - São Paulo, Corinthians, Santos, Flamengo, Vasco, Cruzeiro e Inter. Não obstante, voltar como campeão é não mais que corolário natural dos que caíram. O retorno é dolorosa indulgência, nunca enriquecimento de curriculum a ser cristalizado na camisa. Nos últimos cinco anos, quatro grandes viveram o calvário (Palmeiras, Grêmio, Atlético Mineiro e Coritiba). Os troféus serão guardados tal qual espectro, a servir de advertência que evite novo purgatório penitencial. Gremistas e Coxas, que venceram epopéicas e imorredouras batalhas (Aflitos e Arruda) pensam assim.
Só verdadeiramente pequenos rememoram ad eternum em bandeira a Segundona: Vila Nova-MG e Sampaio Corrêa (anos 70); Londrina, Campo Grande, Uberlândia (80), U.S. João, Gama e o emergente Paraná (década de 90). Se dirigentes do A. Paranaense envergonharam sua torcida com a pequenez de pensamento que o nivela a clubes sub-medianos, é deles o problema. Talvez eu superestime o provinciano clube da Baixada, já que nunca no Água Verde uma só voz se levantou contra o vilipêndio ao escudo rubro-negro.
Na imaculada camisa do nosso Coritiba, campeão brasileiro de 1985, do Povo de 1973, 32 vezes paranaense, dono do monumental desde 1932, que derrotou Seleções Nacionais de França, Hungria, Bulgária, Paraguai, Jamaica e que enfrentou a do Brasil de Pelé na preparação do Tri de 70, dentre tantas outras glórias, não se pode admitir tal desdouramento, às vésperas do centenário.
Para mim, estrela cinza é tão-só "coisa de atleticano". Que assim prossiga...
César Caldas é Coxa-Branca de coração.
*Nota do editor: texto redigido em 24.11, diretamente de Recife.
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