
FALA, COXAnauta!
Recentemente, tive a oportunidade de ler “O Couto do Couto”, apresentado no Blog do Gibran e de autoria de Fabian Ricardo Stevan, e consegui vivenciar a história contada, talvez pelo fato de já ter passado por situação semelhante. Parabéns pela iniciativa e por ter provocado em nós um sentimento de orgulho, por tudo que já vivemos com o Coritiba. Recentemente, o Percy descreveu dentro de uma de suas colunas, um pequeno resumo de tudo que aconteceu e como deve ser o espírito para a reconstrução.
Porém, por incrível que pareça, nossa desgraça repercutiu mais que algumas “pseudo glórias”. O tempo passará e tudo que vivemos de trágico, naquele Dezembro de 2009, servirá de lição. Então, para renovar o espírito, eis que o Major Antônio Couto Pereira, antigo Belford Duarte, tornou-se, novamente, o grande palco da cidade, onde muitos já vivenciaram a emoção que o futebol provoca, na dor e no amor, como testemunhamos na final do paranaense. Qualquer torcedor que adentre o estádio, terá um sentimento diferente ao sentar-se em suas arquibancadas, podendo criar suas lendas ou lembrar da História.
Por ali já desfilaram vários atletas destacados, times e seleções importantes do futebol mundial. Já vimos o Santos de Pelé, o Flamengo de Zico, o Palmeiras de Ademir, o Vasco de Dinamite, o Grêmio de Renato, o Inter de Falcão, o Atlético de Reinaldo, o Fluminense do Casal 20 e outros timaços. E o Coritiba? Não vou me atrever a lembrar das dezenas de gerações que deixaram saudades e que nos brindaram com apresentações dignas de registro na memória.
Exibições e vitórias diante de grandes adversários, sejam nacionais ou internacionais. Aqui tombaram Atlético de Madri, Rapid de Viena, Benfica e seleções do mundo, como a França, a Hungria, o Japão, a Jamaica; a própria seleção do tri teve dificuldade para vencer (2 a 1). Na verdade, a história do bairro do Alto da Glória e da própria Cidade se confunde com a história do Coxa, em seus mais de cem anos; até João Paulo II celebrou no Couto Pereira.
Portanto, falar a respeito das glórias, conquistas, lendas e tudo o que foi edificado é algo que nos dá prazer e ajuda a manter todo este legado. Não seria um fato triste, como aquele vivido no ano passado, que derrubaria todo o resto. No futuro, será apenas mais um fato, assim como os abordados abaixo, para retratarmos a realidade de uma época.
Para se fazer uma comparação entre lendas e Histórias, lembramos que o Coritiba, comprovadamente um clube do povo, foi por muito tempo rotulado, na figura dos Coxas-brancas, pelos rivais e, a partir daí, discriminado por quem jamais vivera a realidade do Alto da glória. Mas, quem conhece bem a história é capaz de identificar as verdades e as distorções que nos atribuiram.
Um dia, um senhor atleticano que trabalhou comigo afirmou: “o Zé Roberto foi o primeiro jogador negro do Coritiba”! Este conhecia a história (ou lenda), dentro de uma versão que lhe haviam contado, sem conhecer os registros verdadeiros. Tinha “raiva do Coxa”! Até alguns Baianos, na época do Torneio do Povo, acreditavam nisto. Não sabia ele, por exemplo, que: um dos primeiros presidentes de nosso clube era Nordestino (não era loiro de olhos azuis); que uma facção segregadora, eliminada do próprio Coritiba, fazia parte do grupo que fundou o Clube Atlético Paranaense, após a fusão do América com o Internacional; que existem fotos dos times da década de trinta, mostrando jogadores negros na formação, quase quarenta anos antes do Zé Roberto jogar.
Muitos podem não saber, mas, foi um dirigente atleticano que criou o apelido, de certa forma preconceituoso, para referir-se ao Coritiba. Se o grandioso Jofre Cabral soubesse da repercussão de sua atitude e que o “Coxa” seria tão identificado com o apelido pelo Brasil inteiro, jamais teria insinuado aquilo. O que tratamos aqui não se refere a preferências clubísticas, pois isso me parece indiscutível; cada um terá a sua. Trata-se de conhecer a verdadeira hitória de cada um e os significados de por trás de cores e de símbolos.
Quando um atleticano referiu-se ao Coxa com a expressão “quinta coluna”, na época da segunda guerra, esqueceu-se que as cores do nazismo eram as que eles usavam. Que ideologias ou movimentos representaram ou representam as cores das instituições? Muitos gostam do “Cartola” e não imaginam que seja uma referência aos “aristocráticos”.
Nada, absolutamente, contra a elite. Para justificar nossa tradição, temos um “vovô” como símbolo. Para representar nossa alegria, usamos o verde da esperança e o branco da paz, "luz que elimina a escuridão". Não precisamos de apelidos aterrorizantes como furacão, leão, tigre, jacaré pois isto é recurso de "mascarado".
Vou resumir, para não mais alongar: quem julga e atribui rótulos para si e para os outros, está pronto para ser julgado e rotulado. Usando deste expediente, tentaram diminuir o valor de nossa história. Agora, um jogador deles “sentiu na pele” o mesmo que nosso zagueiro, de origem alemã, sentiu há muitas décadas atrás, após uma atitude inaceitável.
Obviamente, esta discussão é referendada por estudiosos e conhecedores dos fatos através dos tempos e tem como objetivo, simplesmente, informar, pois, como “eles” mesmos dizem: quem vive de passado, é museu. Quanto ao presente dizemos: quem tem um grande passado já tem um passo para um grande futuro e não deve ser desdenhado ou desprezado por ninguém, seja pela origem, pela cor ou qualquer coisa que lhe seja atribuído.
A conquista de 2010 não tem gosto de revanche: vem apenas confirmar aquilo que muitos teimam em não enxergar: precisam remar muito pra chegar no Alto da Glória. No presente, diferente do que uma parte da mídia ou imprensa menciona, estamos colocando mais uma faixa no peito, totalizando 05 num período de oito anos. O poderoso da poderosa, já tem 02 conquistas...
Para não sermos injustos, saudamos a família do gigante Aryon Cornelsen, grande benfeitor e que teve no Coritiba uma grande razão para sua vida. Talvez, quem sabe, esteja assistindo ao lendário jogo dos grandes atletas que já não estão entre nós, na arquibancada que ajudou a construir...
Mauricio Dobjanski é Coxa-Branca de coração.
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Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)