
FALA, COXAnauta!
Mantém-se há muitos meses dentre os mais vendidos o livro da jornalista norueguesa Asne Seierstad, “O Livreiro de Cabul”, no qual a autora relata o modo de vida dos afegãos durante e após a queda do regime Talibã. Trata-se de um livro-reportagem resultante das observações da jornalista em um período em que residiu em Cabul com uma família local.
O livro revela costumes e comportamentos que chocam em face de nossa civilização, dentre eles o extremado rigor religioso e a opressão imposta sobre as mulheres. Quanto a estas, de impressionar o sistema com que os casamentos são arranjados, não tendo a moça solteira a menor perspectiva de escolher o marido, o qual recebe por determinação da família que negocia com o pretendente os termos da união, que ocorre queira a nubente ou não, pois até então pertence ela ao pai que a entrega ao noivo, então seu novo proprietário. Realizado o casamento, a mulher não tem o direito de pedir divórcio, faculdade só do marido, e se o rompimento ocorrer, a mulher passa a ser rejeitada pela família e pela sociedade e se torna pessoa de segunda classe.
Quem leu até aqui deve estar se perguntando, com toda razão, o que o assunto tem a ver com os COXAnautas, ou se o sítio abriu espaço para comentários sobre livros.
Explico.
A obra me veio à lembrança quando passei a ver pululando pelos jornais e sites especulações de que o dono do Coritiba, nosso derrotadíssimo e autoritário presidente, pretenderia nos obrigar a casar com alguém que desprezamos e repelimos. E pior, casar novamente com alguém de quem – após desgastante processo - conseguimos nos divorciar por justa causa, pois fracassou no cumprimento dos deveres conjugais e iniciou o caminho para o vale de lágrimas em que vivemos a partir do ano de 2004, concorrendo em muito para nos deixar tal como uma divorciada afegã, desprezada, desconsiderada e rebaixada na sociedade.
Certamente aquelas sofridas mulheres rezam muito para Alá um dia as libertar e, se divorciadas, para que voltem a se integrar na sociedade que antes freqüentavam, tornando-se novamente uma pessoa de primeira. Tomara que mais cedo ou mais tarde os afegãos evoluam e as mulheres sejam liberadas e possam ter sucesso.
E por aqui, diante do autoritarismo a que estamos submetidos pelo dono do nosso clube – dono, mas não de nossa tradição e muito menos de nossa torcida - tratemos também de pedir a Deus que, através de novas lideranças (idealistas e não negociais), sejamos libertados do senhor feudal e recolocados no meio social em que merecemos viver. Enquanto isso não acontece, que não permita que um casamento totalmente indesejado nos seja imposto exatamente com quem dedicamos repulsa quase que epidérmica e iniciou o processo que nos levou à segunda classe da sociedade. Se antes o casamento acabou em divórcio, o reatamento leva a grande risco de terminar em tragédia.
Allahu akbar!
Felipe Rauen reside em Porto Alegre e é Coxa-Branca de coração.
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que apenas cede o espaço à publicação.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)