
FALA, COXAnauta!
Futebol e Política
"É importante a torcida se dar conta da importância do momento pelo qual passa o Coritiba. A crise a que chegamos colocou em xeque toda estrutura do Clube, abrindo espaço para percebermos com mais clareza como ele funciona internamente, como são suas entranhas. A principal vantagem deste episódio foi abrir os olhos de nós torcedores, mostrando que quase nunca os interesses dos dirigentes são iguais aos nossos.
Portanto, se queremos um Coritiba que atenda nossos interesses, precisamos brigar por isso. Precisamos sair da posição passiva de platéia, de torcedor, e encontrar alguma forma de participar do processo de decisão do Clube.
A primeira coisa a ser feita é determinar como deve ser o Coritiba que desejamos. Isso só pode ser construído através da participação do maior número de torcedores. Acredito que o site Coxanautas é um bom espaço para esta discussão.
Na minha opinião o Coritiba que desejo é o seguinte:
Estamos acompanhando lentas e irreversíveis mudanças no futebol brasileiro. Os campeonatos estão cada vez mais organizados, e com isso é nítido que os clubes mais organizados vão se destacar. É o caso do Internacional e do São Paulo nos últimos anos.
Mas é importante pensar em organização não apenas como estrutura administrativa, quadro funcional competente, estrutura adequada, marketing inteligente, etc. Isso tudo é importante, mas sem reformas estruturais nada vai mudar...
Sim, porque é comum um dirigente mudar o funcionamento de um clube nas aparências justamente para manter sua estrutura arcaica escondida. É muito fácil criar uma fachada de competência, modernidade, para encobrir trambiques que só vão ser descobertos mais tarde.
É comum o torcedor ter a ilusão que existem dirigentes honestos, abnegados, que trabalham apenas pelo interesse do clube. Não duvido que haja casos assim, mas o fato é que uma instituição não pode apostar na suposta boa intenção de um dirigente. Um clube de futebol movimenta somas de dinheiro enormes, e é muito comum haver conflitos entre interesse pessoais e institucionais.
Quantas vezes não ouvimos boatos que determinado jogador é titular apenas porque o passe é de um conselheiro? Ou que algum dirigente abnegadamente pagou as contas do clube (e nos esquecemos que depois de alguma forma ele vai querer ser ressarcido por isso?).
Por isso quando falo em reformas estruturais penso em criar formas de fiscalização internas. A questão de fundo é política! Sim, futebol também é política! Toda esta estrutura administrativa que desejamos só vai funcionar de verdade se houver um sistema político que permita fiscalização dos dirigentes.
Como se consegue isso? Vejo pelo menos três formas:
1.) O Clube só vai atender o interesse dos torcedores se eles participarem do Clube inteiramente. O melhor caminho para isso é montar um quadro associativo amplo e forte. Não só porque isso garante fundos para o Clube, mas principalmente porque é uma forma de controlar os dirigentes. Devem ser feita eleições periódicas a cada 2 ou 3 anos para eleger o PRESIDENTE. Nada de eleições indiretas através de conselheiros. E outra coisa: pressão de torcida organizada no treino, no aeroporto, é coisa de time carioca. Faz parte do mesmo modelo de gestão arcaica do futebol. Assim a torcida permanecerá sempre à margem do processo. Como já disseram aqui no site: a verdade está lá dentro.
2.) O cargo de conselheiro pode existir, ele é importante para controlar a administração, mas deve ser eleito também. É importante estimular a renovação de quadros. Incomoda-me ver a direção do Clube recheada só de figurões da cidade, empresários e políticos de sobrenomes famosos, enquanto a torcida assiste a tudo impassível, achando que o papel dela é mesmo só torcer, achando que a política do Clube deve ficar a cargo de “quem sabe”.
3.) Quando forem instituídas estas eleições espera-se que se criem grupos de associados com diferentes idéias para administrar o clube, e que quando um estiver no poder será fiscalizado pelo outro. Espera-se que se crie uma situação e uma oposição DE VERDADE. Não isso que vemos hoje no Coritiba, onde parece não existir grupos opostos. São sempre os mesmos nomes que controlam o Coritiba, não importa muito quem é o presidente. Parece mais um jogo de conveniência, onde todos são amigos. É preciso firmeza para, quando se é oposição, manter suas idéias e não ser cooptado por quem está no poder. A democracia é feita de idéias diferentes e de alternância de poder.
Além de abrir nossos olhos para situação do Coritiba este episódio também pode abrir nossos olhos para o jornalismo esportivo que temos.
A imprensa fala que toda essa turbulência extra-campo só atrapalha, que futebol se resume ao que acontece dentro das quatro linhas... Que debater os rumos do Coritiba é coisa interna dos que comandam o futebol, não interessa ao torcedor... Imagino só o prato cheio que seria para um jornalismo sério e investigativo tudo o que o Coritiba vem passando.
Às vezes acho que é apenas ingenuidade da imprensa, mas quando lembro que ela vive puxando o saco de figuras como Onaireves Moura, ou o quanto eles são amigos dos dirigentes, penso no pior...
Irrita-me também quando esse jornalismo exige que os dirigentes se unam pelo bem do Coritiba... Parece que não conseguem admitir pensamentos conflitantes dentro de uma instituição. Querem que tudo se resolva num acordo de cavalheiros, na surdina. É o típico comportamento brasileiro de evitar o confronto de idéias. Ora, como falei, democracia é isso. Quero que existam grupos distintos pensando o Coritiba, isso só contribui para sua grandeza. A unanimidade é burra".
Ricardo Polucha é Coxa-Branca de coração.
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que apenas cede o espaço à publicação.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)