
FALA, COXAnauta!
Reflexões sobre o futuro do Coritiba
Reflexões sobre como penso deva o Coritiba se organizar para um dia recuperar o seu lugar.
Direção
Deve ser constituída por quem efetivamente tenha afinidade e amor ao clube. Com as exigências do futebol moderno e suas implicações no mundo social, financeiro e esportivo, sem dúvida deverá ser alguém com mente profissional, mas sempre com coração amador. Exercer a direção do clube deve ser encarado como um ideal, uma missão, uma honra e não um meio de projeção ou de negócios.
Como normalmente quem tem aptidão para dirigir o clube são profissionais liberais e homens de negócio que se afastam total ou parcialmente de suas atividades particulares, sem dúvida o dirigente poderá ser remunerado, desde que em valor fixo previamente autorizado pelo Conselho Deliberativo ou outro órgão.
Deve ser vedado, porém, que o dirigente tenha qualquer negócio com o clube, direta ou indiretamente, por si ou por empresa ou escritório de que participe. Vedado também o nepotismo em sentido amplo, não podendo membro da direção contratar parente para qualquer atividade, seja ele em linha reta ou em linha colateral ou transversal até o quarto grau, ou mesmo por afinidade (genro, cunhado, etc.).
A direção deve compreender que o Coritiba é um clube de futebol, que é o seu meio e fim. Assim, a busca de conquistas no futebol deve ser o único norte de qualquer iniciativa. Pagar dívidas irresponsavelmente assumidas é importante, mas de nada nos adiantará uma certidão negativa de débito para colocar em um quadro se não estiver acompanhada de uma faixa para colocar no peito.
Comissão técnica
Convém seja formada com profissionais que estejam dispostos a se adequar à filosofia do clube e não que este se adapte a eles. Aqui também deve ser vedado o nepotismo, como há poucos anos ocorreu com profissional que trouxe para o clube apenas o seu desgastado nome e o filho como auxiliar, dando início à decadência a que chegamos.
Técnicos ou treinadores – o conceito é diferente – com passado vitorioso, mas que com ele estão satisfeitos, demonstrando nada mais ambicionar, devem ser excluídos de qualquer cogitação. Vitoriosos como Tim e Ênio Andrade, sim. Experientes como Antônio Lopes, não. Profissionais que embora com menos experiência mostraram empatia com os clubes pelos quais passaram e são sequiosos de conquistas, que comandaram times sem estrelas ao qual deram força coletiva, devem ser cogitados. O técnico ou treinador deverá ser líder, não no sentido daqueles que apenas ficam à beira do campo gritando para impressionar a torcida, mas sim no daqueles que têm os jogadores na mão e por ele são respeitados.
Se o técnico não for um grande motivador, deve integrar a comissão um profissional da área de psicologia ou recursos humanos. Não é possível aceitar que jogadores, como os dos times de 2005 e 2006, entrem em campo olhando para o chão e durante os jogos não mostrem capacidade de superação, reação e nem mesmo de indignação.
A preparação física é fundamental no futebol atual, devendo ser comandada por profissional não só com aptidão, mas também com conhecimento de futebol, pois as exigências físicas variam de um esporte ao outro. Não basta que o time seja dotado de resistência para ir até o final dos jogos, mas, como se tem visto faltar nos últimos dois anos, devem ter força, impulsão, elasticidade, velocidade e explosão integrando o patrimônio físico dos atletas.
Atletas
As dificuldades financeiras do clube são notórias e estão agravadas com a manutenção na segunda divisão. Assim, a contratação de novos atletas (em grande número, pois alto é o número dos fracassados que devem sair) se mostra difícil e deve ser compreendido que não há como contar com craques, salvo revelações das categorias de base ou uma ou outra encontrada por um bom “olheiro” pelo interior, o que também não é muito fácil dado o grande número de empresários que garimpam talentos.
Torna-se necessário, pois, até que melhorem os ventos financeiros, montar uma equipe pelo menos competitiva, que tenha a missão de fazer o clube voltar à elite, no caminho conquistando o campeonato paranaense.
Para ter equipe competitiva é necessário, em primeiro lugar, distinguir jogadores experientes de jogadores “rodados”. Por experientes, que devem mesclar o time com os jovens, devem ser entendidos os vitoriosos, aqueles que, embora não tenham mais o mesmo vigor dos vinte anos de idade tiveram carreira recheada de conquistas e têm espírito de liderança e ainda ambicionam ganhar títulos e não só o salário e gratificações. A história mais remota do Coritiba tem inúmeros exemplos de atletas com tal perfil, dentre eles o veterano Gomes que foi campeão brasileiro em 1985. Jogadores que se comportam como o protótipo do mau funcionário, aquele que cumpre minimamente seu dever até que o relógio indique a hora de bater o ponto e que não têm mais ambições, são apenas “rodados” e só servem para contaminar o grupo. Quem não lembra das provocadas expulsões e estranhas lesões do Aristizabal, que raras vezes jogou, ou da apatia evidente do Renaldo? E agora, quantos jogadores desinteressados temos? Nunca os jovens, mas sim os “rodados”.
A propósito, é fundamental fazer com que os atletas tenham empatia com o clube, que se importem com o futuro dele, clube, e que tenham ambições, seja a de ganhar títulos ou mesmo a de obter melhores contratos. Mas que vibrem, sofram e se alegrem com o clube. Como fazer? É claro que é difícil, pois não se mudam personalidades num toque, mas a avaliação pode ser feita desde a cogitação da contratação do atleta, incluindo exame do seu perfil psicológico assim como fazem muitas empresas. Depois, como também fazem grandes corporações, no curso do contrato palestras motivacionais devem mostrar-lhes que estão em uma atividade diferenciada, na qual a emoção de milhões de pessoas predomina e que são responsáveis pela alegria e dor delas e que seus fracassos e conquistas são os fracassos e as conquistas de grande parte da população. E mais no interesse próprio de cada um, motivar no sentido de que só as glórias que obtiverem é que abrirão portas para melhores contratos, seja no próprio clube ou em outro.
É claro que, se tudo isso se exigir dos atletas, mas os dirigentes não demonstrarem grande amor ao clube, qualquer atividade motivacional será tempo perdido.
Da mesma forma, de nada adianta contratar jogadores que mostrem amor ao clube e por ele se doem se não tiverem um mínimo de futebol. Já passaram pelo clube atletas que mostravam garra, beijavam a camisa, corriam para a torcida, mas pouco futebol apresentavam. Se for para ter somente garra e superação, que sejam escolhidos alguns torcedores jovens e com bom preparo físico que eles farão o mesmo que alguns desqualificados tecnicamente que passaram – e ainda passam – pelo clube.
Os atletas revelados nas categorias de base, se não podem ser conservados no clube por muitos anos, como ocorre com a quase totalidade dos times do Brasil, devem ficar pelo menos um período mínimo, suficiente para levar o clube a algumas conquistas e recolocá-lo no lugar onde já esteve ou mais alto ainda.
Clube e imprensa
Há que se cuidar dos vínculos dos membros da direção e da comissão técnica com os meios de comunicação. Os jornalistas esportivos são os primeiros fiscais dos clubes de futebol e para isto devem ser minimamente isentos, ainda que não se possa negar que cada um tenha o seu clube de coração. Não será isento, porém, aquele que tiver vínculo de parentesco ou corporativo com membro da direção ou da comissão técnica, quando então não apontará erros para não comprometer o vinculado. Veja-se o que ocorreu neste ano com o Capitão Hidalgo, com belíssima história no clube como atleta, mostrou-se um insuficiente dirigente, participando de contratações de sedizentes atletas que a nada vieram, mas salvo depois da ‘debacle’ nunca foi apontado pela imprensa como equivocado.
Dizem que alguns poucos comunicadores receberiam “ajuda de custa” de clubes de futebol para conduzir seus comentários. Não acredito e não quero acreditar que tal seja verdadeiro. Mas se algum dia foi, ou se é verdade ou se alguém pensa em pedir ou ofertar remuneração a profissional da imprensa, o procedimento deve ser rejeitado de pronto. Isto posto, relações verticais e de absoluta independência com a imprensa, conduta indispensável para merecer credibilidade e respeito.
Torcida
Sempre se disse que a torcida do Coritiba é maravilhosa e não coloco nenhuma dúvida nisto. Se nas horas difíceis é que se conhecem os verdadeiros amigos, no sofrimento a torcida do Coritiba soube mostrar sua verdadeira força. A torcida é o clube, os dirigentes e atletas passam, alguns ficam na história, mas a torcida sempre é o clube no passado, no presente e no futuro.
Mas nem por isto a torcida deve deixar de fazer algumas reflexões.
Uma, no tocante à ilusão que algumas vitórias trazem e que fizeram com que torcedores imaginassem o time como excelente. É da paixão futebolística pretender que o nosso time seja o melhor do mundo e até dizer isto mesmo sem apoio na realidade, mas cuidado com ilusões. Quando terminamos o primeiro turno da série B do ano passado em primeiro lugar, li e ouvi que o time era excelente, que jogadores hoje execrados eram craques.
Outra ilusão é quanto a alguns sedizentes jogadores que são dados como craques e que na verdade são limitados. Basta uma ou duas partidas sem comprometer ou um gol aqui e ali para já se vislumbrar futuro integrante da seleção nacional. Há muito tempo é assim, e parece que dificilmente mudará, pois está na alma do torcedor a euforia e a projeção do desejo (quero que meu time tenha craques e por isto afirmo que fulano é craque).
E finalmente devemos refletir realista e humildemente sobre o nosso lugar no futebol paranaense. Infelizmente – e me sujeito às indignações – no passado fomos os maiores, mas nos últimos anos não temos sido. O rival está se firmando e nós nos afundando. E há o risco presente de a terceira força do Estado vir a crescer na nossa sombra. O passado não se renega, o nosso é o mais rico do futebol paranaense, mas até quando poderemos viver da “poupança” que fizemos?
Felipe Rauen é Coxa-Branca de coração.
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que apenas cede o espaço à publicação.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)