
FALA, COXAnauta!
Seria apenas sorte?
Sou médico da Seleção Brasileira de Voleibol e há 10 anos trabalho com o Bernardinho, já tendo conquistado junto com ele todos os títulos desta geração, incluindo dois Campeonatos Mundiais e uma medalha de ouro nas Olimpíadas de Atenas. Ao ler a coluna do Luiz que falava sobre a obstinação do Bernardinho, fiquei pensando por que o meu time do coração (que me faz sofrer pela Internet mesmo do outro lado do planeta) não obteve bons resultados nos últimos anos, especialmente nos últimos dois anos. Seria porque os treinadores não são trabalhadores? Seria porque a mentalidade dos jogadores de futebol é diferente da mentalidade dos jogadores de voleibol? Ou a qualidade desses jogadores não seria suficiente para nos levar às esperadas vitórias? Seria por azar? Seria por algum erro da diretoria? Seria por causa da torcida?
Com certeza afasto essa última hipótese, porque nos últimos anos a torcida só tem me surpreendido positivamente, exceto alguns de meus colegas das numeradas superiores (cadeiras cativas) que só vão ao estádio para vaiar. Vaias, no meu entender, só após o apito final.
Acredito que possamos dizer tudo do Bonamigo, mas tenho certeza que a imagem que o Bonamigo sempre passou foi de um trabalhador e estudioso, porém nem sempre acertando em suas convicções. Quanto ao Macuglia, apesar de não concordar com a escalação do time em algumas situações (como por exemplo, deixar o Marlos no banco), tenho absoluta certeza que em 2 meses nem o Bernardinho, nem qualquer outro técnico de futebol, consegue dar padrão a uma equipe em qualquer esporte de alto rendimento. Vamos deixar ele trabalhar em paz um pouco e depois vamos cobrar os resultados. Sei que não temos tempo para isso, mas não o considero burro (apenas teimoso às vezes), e vejo que tem sorte.
Fica ainda no ar a pergunta: será que é apenas sorte, ou será um prêmio ao trabalho bem feito e uma possível competência? Será que quando o time de voleibol do Brasil ganhou alguns campeonatos importantes por centímetros, como o Mundial de 2002, a Liga Mundial de 2003 (31x29, no tie break), foi apenas por sorte, ou foi um prêmio ao time mais dedicado, mais unido e mais competente na hora de decidir? Vocês acreditam que caímos em 2005 e não subimos em 2006 devido ao fator sorte, visto que nossas bolas batiam na trave e saíam, e as dos adversários batiam e entravam?
Eu já acredito que tenha sido mais por falta de convicção, de tranqüilidade, de saber resistir à pressão e, principalmente, de não ter medo de errar no momento decisivo. Ou vocês acham que o Edu Sales, caso estivesse num treinamento, sem a pressão do momento e o medo de errar, chutaria 2 bolas sem goleiro na trave (Náutico e América/RN)?
Na minha opinião, precisamos contar com jogadores com mentalidade vencedora, com vontade de vencer e, principalmente, com vontade de aprender, porque jogador de futebol às vezes acha que já sabe tudo, e deixa de treinar fundamentos básicos, como passes de 5 metros de distância (Bernardinho e Telê iriam fazer o cara treinar 300 vezes até acertar).
Vamos cobrar trabalho, mas vamos dar um crédito a piazada, que ainda está em formação, e que parece ser acima da média, porém o quanto antes precisa de uma mentalidade vencedora. Vamos dar um crédito ao técnico, que é novo, e contra times fracos, é verdade, está há 11 jogos invicto, e ao que parece está conseguindo unir o elenco, tarefa difícil para um grupo que tem medalhões e jogadores vindos da categoria de base.
Um abraço e saudações alviverdes
Álvaro Chamecki é médico da seleção brasileira de vôlei masculino, integrante da comissão técnica de Bernardinho. Álvaro é Coxa-Branca de coração.
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que apenas cede o espaço à publicação.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)