
FALA, COXAnauta!
Lá no Alto de Tantas Glórias...
O jogo já havia terminado uma hora atrás, mas parte significativa dos 36 mil torcedores ainda estava nos arredores do estádio. A apreensão foi substituída pela euforia assim que o resultado da partida realizada a mais de 500 quilômetros de distância foi confirmado. Depois de dois anos, o Coritiba estava de volta à primeira divisão.
Enquanto esperava, voltei 17 anos no tempo. Eu me vi correndo ao lado de Tostão, com o Couto Pereira igualmente lotado, e junto com ele acompanhei o chute cruzado entrar no canto direito do gol adversário. Quem estava lá de certa forma percebia que estava fazendo parte da história do futebol. Foi o primeiro clássico entre os dois times, rivais desde então.
Quanto a mim, a vitória do Coritiba sobre o Paraná Clube naquele quatro de fevereiro de 1990 significou a rendição definitiva à trajetória de glórias e sofrimento do maior do Paraná.
Moleque do interior, lembro hoje que essa conquista foi discreta e paciente, como uma metáfora da completa ausência de arrogância, prepotência e desprezo com que o time construiu sua galeria de imbatíveis 32 títulos estaduais; ou mesmo do campeonato brasileiro de 1985, o primeiro da Nova República, conquistado sem um traço sequer da empáfia comum aos vencedores efêmeros.
Cresci enquanto o Coritiba silenciosamente dominava o estado, deixando poucos títulos a serem divididos entre os outros times na década de 70. Meu primeiro time de futebol de botão tinha o escudo com os 12 pinhões estilizados; mas ainda assim eu resistia, pois morando no interior não me sentia representado por um clube da capital e preferia ouvir o campeonato carioca pelas ondas entrecortadas de um velho rádio a válvula.
Poucos anos depois, já na tal redemocratização, vi nas bancas as revistas especiais que contavam como um time da periferia do futebol nacional surpreendeu a todos e, ao deixar pelo caminho os chamados grandes clubes, conquistou o primeiro título nacional fora do eixo formado por São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande.
O caldo estava formado, mas faltava um ingrediente mágico. E eu já morava em Curitiba quando o Couto Pereira em peso comemorou o resultado do primeiro clássico. Senti que o meu destino esportivo estaria ligado aos sucessos e tropeços do alviverde do Alto da Glória dali pra sempre.
Desde então, acompanho a construção cotidiana de sonhos, principal matéria-prima da vida de um time de futebol. Vibro nas vitórias e sofro com as derrotas. Renovo meu estoque de esperança a cada nova promessa surgida na base e continuo feliz por esses meninos, pois sei que continuam coxa-brancas em qualquer outra equipe. Recolho as evidências matemáticas e afetivas que comprovam a superioridade do Coritiba sobre seus adversários locais – discretamente, como convém a um time acostumado a quase 100 anos de hegemonia estadual sem privilégios da mídia.
De quatro de fevereiro de 1990 a três de novembro de 2007, muito aconteceu. Mas nada que tenha trazido tanta decepção como a queda em 2005 e os dois anos passados na segunda divisão. Nem mesmo as agruras da década de 90, quando uma canetada da CBF rebaixou o time, foram tão angustiantes. Desta vez, havia mais a provar, pela dinâmica de uma nova realidade no futebol, que mede o sucesso pela exposição na imprensa, como a recente classificação à Copa Libertadores demonstrou.
O retorno à primeira divisão, então, significa a recuperação de um nome indevidamente maltratado por incompetência ou por má-fé. Afinal, o futebol é a brincadeira mais séria de um homem, é moldado pra destruir reputações e confianças (e sucessivas diretorias inoperantes quase conseguiram o impensável). Voltar, assim, representa a certeza de que o Coritiba nos faz ganhar mesmo nas derrotas – que existem pra nos ensinar que o mundo é feito de obstáculos -, porém nos faz ganhar muito mais quando vencemos. Pois nesta tarde vencedora de sábado voltei a ser o menino que de repente descobriu-se tragado por um sentimento indefinível. Entendi o que é o novo sol de que fala o nosso hino oficial. É a lição de que a vida constrói artimanhas que a todo momento nos derrubam, mas permite a todos uma nova manhã pra recomeçar.
Marcio Achilles Sardi é Coxa-Branca de coração.
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que apenas cede o espaço à publicação.
Para escrever na seção "Fala, COXAnauta!", envie sua mensagem para falacoxanauta@coxanautas.com.br. Confira aqui as regras para envio e publicação dos textos.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)