
FALA, COXAnauta!
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Leonardo Nascimento Araújo, atual dirigente do poderoso Milan e com passagens, enquanto jogador, pelo Flamengo, São Paulo, Valência, Kashima Antlers, Paris Saint-German, Milan e Seleção brasileira, deu uma entrevista a um jornal carioca e participou de um bate-papo num canal de televisão por assinatura que causaram rebuliço no time de maior torcida do país, o Flamengo.
Segundo o dirigente do 6º clube de futebol mais rico do mundo, a única solução para resolver o problema do clube carioca é simples: "abre o clube, vende o Flamengo." O ex-jogador, que ao lado de Silvio Berlusconi, Adriano Galliani e Umberto Gandini compõe a cúpula diretiva da Squadra Rossonera, acredita na venda da marca do time, numa administração independente, não submetida à vontade do conselho deliberativo, com a injeção de recursos por investidores a partir da abertura de capital e a manutenção do patrimônio primordial do clube, sua torcida. Na opinião do dirigente da equipe milanesa somente uma ação radical, que dá cabo nas associações sem fins lucrativos que são os clubes de futebol e as transforma em empresas, pode alterar efetivamente o futebol brasileiro e acabar com a falta de responsabilidade dos dirigentes com o trato dos recursos financeiros dos clubes.
Leonardo tem credenciais para propor essa receita, utiliza a experiência daquilo que se passou em diversos países europeus, mas onde o nosso Coxa entra nessa história?
Primeiro de maneira pontual, lembrando a proposta da atual diretoria de reforma do estatuto do clube. A então chapa "Coritiba com Respeito e Dignidade" propunha para o mandato 2009/09 uma reforma no estatuto que incluísse "punições para as más administrações, deixando claro este conceito, não deixando margem para interpretações de modo a salvaguardar o bem estar financeiro do Coxa." Salvo melhor juízo nada se falou oficialmente sobre a reforma do estatuto desde que a chapa tomou posse. A movimentação esteve restrita aos torcedores.
A mesma chapa também prometia a profissionalização do futebol. O problema é a confusão que se faz no Brasil entre profissionalização e remuneração do profissional, assunto também levantado por Leonardo. Uma coisa não presume a outra. A profissionalização, segundo Leonardo, está relacionada, por excelência, ao cumprimento de metas e objetivos e são nesses aspectos que o nosso Verdão precisa se preocupar.
Contudo, não é o que consta entre as propostas da diretoria que propõe instituir o Projeto Vencer, "planejamento estratégico feito para clube com projeção a longo prazo (2020), (...) a implantação da filosofia 5 D’s, que são cinco diretorias executivas profissionais remuneradas, contratadas a preços razoáveis de mercado, das seguintes áreas: Diretoria de Futebol Profissional, Diretoria de Futebol Amador (inédita), Diretoria Administrativa, Diretoria Financeira (inédita) e Diretoria de Marketing." A falta de critérios claros na definição das metas e objetivos do clube no Projeto Vencer ou no Conceito Vencer, o que não se poderia omitir na apresentação das propostas da chapa, vai ao encontro daquilo que Leonardo critica quanto a concepção de profissionalização do futebol que se tem no Brasil.
A última questão retoma a Coritiba S/A. Apresentada ao torcedor coxa-branca em 2002 durante o mandato do ex-presidente Giovani Gionédis, a Coritiba S/A perdeu seu sentido em 2004 depois do indeferimento do pedido de registro de companhia aberta pela Comissão de Valores Mobiliários – CVM. Caiu por terra, há cinco anos, a tentativa de implementar, ao menos em parte, a ideia apresentada por Leonardo no futebol brasileiro. Será que caiu por terra mesmo? Será que nada mais se pode fazer pela Coritiba S/A? Somente a análise da decisão da CVM pode responder essas perguntas. Não é oportuno, por sua vez, analisar os aspectos jurídicos da decisão colegiada. Esse não é o espaço mais apropriado para tanto, mas duas considerações são imprescindíveis.
A primeira envolve um aparente amadorismo ou falta de comprometimento do clube, como sócio majoritário da Coritiba S/A, em relação ao cumprimento de prazos perante a CVM. Houve uma demora de mais de três meses, por exemplo, para apresentar a petição que atenderia as novas exigências decorrentes do parecer técnico sobre o pedido inicial de registro da companhia. A importância de um “processo pioneiro de abertura de capital”, como alegou a Coritiba S/A para justificar a concessão de prazo adicional durante o processo, não pode admitir outra coisa que não seja a preparação adequada como elemento intrínseco para o bom andamento da situação.
A segunda é a conclusão a que chega o relator do processo, Ilustríssimo Senhor Luiz Antonio de Sampaio Campos. Transcrevo parte da decisão para evitar interpretações desconexas: "do ponto de vista estritamente contábil, tem razão a área técnica da CVM . Todavia, do ponto de vista jurídico-societário a operação realizada pelo recorrente não é nem ilegal nem inviável. Tem-se, então, que conciliar os aspectos contábeis com os aspectos jurídicos, de forma a não permitir que a contabilidade termine por negar o direito e, mais ainda, violar o art. 5º da C.F., que diz que ninguém é proibido de fazer algo senão em virtude de lei. Mas de outro lado, nesse exercício de dialogo entre o direito e a contabilidade, deveria ser adotado algum instrumento que, sem negar a operação e o direito, elimine ou neutralize os efeitos contábeis da operação juridicamente válida."
A leitura do trecho acima transcrito não deixa dúvida: existem possibilidades de conciliar o aspecto contábil e o aspecto jurídico. A solução talvez não seja simples, mas há luz no fim do túnel, o melhor resultado possível depende da criatividade dos envolvidos.
Por essa razão e à guisa de conclusão, o mandatário do time do parque São Jorge, Andrés Sanchez, que participou, por telefone, do bate-papo no canal de TV por assinatura no qual estava Leonardo, defendeu uma ideia muitíssimo similar ao que a Coritiba S/A deveria ser: a manutenção do Coritiba ou do Corinthians, no caso de Andrés Sanchez, como acionista majoritário (51% das ações). A idéia de Leonardo, que reconhece a existência de mais um caminho possível, parece transparecer uma venda total da marca. De qualquer modo, não seria no mínimo estranho se o Corinthians conseguisse de algum modo o que a Coritiba S/A não conseguiu? Falta de competência de uns, brilhantismo de outros? Jogo de bastidores? Mudança na regulamentação dada pela CVM? Impossível saber por hora.
A manifestação aqui apresentada não esgota o tema, apenas suscita o debate. É claro que há o papel do Estado em toda a discussão, assunto para outro ensaio, mas algo deve ser feito sobre o assunto. O futuro do Coxa e do próprio futebol brasileiro precisam ser reavaliados.
Leonardo Orth é Coxa-Branca de coração.
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que apenas cede o espaço à publicação.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)