
FALA, COXAnauta!
Manifesto coritibano em defesa do futebol paranaense
A notícia publicada em um jornal paranaense que trouxe o resultado de uma pesquisa revelando que o Corinthians detém a maior torcida do Estado, de certa forma, não foi uma surpresa. Quem mora ou já morou no interior sabe que passando de Campo Largo os paranaense se dividem entre os times de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Aqueles que torcem para os times da capital são raríssimos, porque têm alguma relação com Curitiba (os pais moraram ou eles próprios já moraram lá). Em outros casos, quando dizemos que torcemos para algum time da capital nos perguntam qual o outro time.
Mas como se não bastasse o pisão no orgulho daqueles que realmente se identificam como paranaenses, fomos surpreendidos quando empresários que se dizem dirigentes de futebol, mas que são aproveitadores, lançaram a ideia de fundar uma filial do Corinthians aqui. O Joel Malucelli é uma vergonha para o povo paranaense. É triste saber que isso pode virar realidade.
Os fatos citados são um verdadeiro tapa-na-cara dos coritibanos, mas vamos além. É um tapa-na-cara dos paranaenses. Traz à tona a submissão cultural que nosso povo tem diante de paulistas, cariocas e gaúchos. É a expressão do conformismo e da imposição econômica que esses locais dispõe sobre nosso estado e nossa gente
Durante anos nosso futebol vem sendo esculachado. Em 1989, por exemplo, por meio de uma decisão da CBF, o Coritiba foi rebaixado por uma decisão da CBF, por contestar o horário do jogo contra o Santos. Em 1991, fomos roubados na cara dura, pelo senhor (se é que pode ser chamado assim) José Roberto Wright, que anulou escandalosamente um gol legítimo de Chicão, contra o Guarani e que garantiria o retorno à primeira divisão. Choramos de raiva e de indignação nesse fato.
Nos últimos anos sofremos com uma Federação Paranaense de Futebol pífia. Não bastasse o Onaireves Moura ser ladrão, era um incompetente à frente da FPF. O reflexo do seu “grandioso” trabalho está em um estádio inacabado, sem utilização e condenado, para não falar da situação atual dos times paranaenses e da sua nova morada; o xadrez, o lugar que merece.
O futebol paranaense é vítima de aproveitadores como Joel Malucelli, que junto do “triunvirato” fez uma péssima administração no Coritiba e manchou nossa história, endividando ainda mais nossas finanças. Somos vítimas também de empresários como da Mais Sports, da Traffic, ou outros procuradores que não têm um pingo de ética, que não se importam com o que acham os torcedores de futebol. Não há lugar para aproveitadores no Coritiba. Fora com todos os que ousarem tirar proveito do glorioso. Nosso time deve ser tratado com respeito, assim como os torcedores. Culpado é também o senhor Pelé e aqueles que aprovaram sua lei injusta para os times com menor destaque. Porque retira do clube o valor pelo investimento que faz, pelo patrimônio que construiu, ao formar jogadores. Perdemos uma seleção nos últimos 10 anos. Só para citar alguns nomes: Alex, Rafinha, Adriano, Henrique, Fernando, Mozart, Miranda, Keirrison, Tcheco, entre tantos outros, revelando que o Coritiba é um verdadeiro celeiro de craques e que em outras condições formaria, sem dúvida, um dos melhores times do mundo.
Mas afinal, o que faz um clube ser grande? Minha hipótese é de que a torcida é fundamental, porque os torcedores, além de encher o estádio e garantir mais dinheiro no caixa, fazem a marca do clube vender nos programas de tevê, rádio e impressos. Os meios de comunicação direcionam seus programas para onde a audiência aponta melhores resultados, então é lógico pensar que as maiores torcidas terão maior exposição e, fechando o círculo vicioso, a maior exposição garante crescimento de torcida. Isso explica, em parte, porque o Corinthians tem a maior torcida do país e vai continuar tendo. A grande parte dos torcedores é formada pela mensagem que chega pela mídia. Conforme comentário de Carneiro Neto, os paranaenses são massacrados diariamente por matérias nacionais e locais dos meios de comunicação que reforçam constantemente as marcas desses outros times. Em viagens ao interior, ligamos a televisão na hora do almoço, em programas de debate esportivo ou em horário de jogo de futebol para ver quais times ganham espaço. Lemos impressos e vemos que as notícias circulam em torno de outros clubes e nem sequer citam o time local. Por aí temos uma explicação bastante lógica sobre o porque da dificuldade dos times paranaenses em ganharem torcedores, porque é todo dia Corinthians, Flamengo, São Paulo, Palmeiras, matérias com jogadores, treinadores, sobre os fatos do cotidiano desses times. Em comparação aos times do Paraná, a exposição desses outros clubes é infinitamente maior. Sem falar do bairrismo paulista ou carioca que tende a desmerecer as qualidades dos nossos times e enaltecer times de seus respectivos estados que não formam jogadores, mas que se vangloriam mesmo quando suas equipes apresentam um futebol ridículo.
Em 1985 os cariocas se uniram para tirar o título do Coritiba, no Maracanã. Aquela não foi uma vitória coxa-branca, foi um auto-afirmação paranaense. Representou a vitória sobre a supremacia de outros estados. Pela primeira vez éramos o centro do futebol brasileiro. As contestações atleticanas de que o título não seria merecido é um desserviço para o futebol do estado, porque o Coritiba enfrentou todos os grandes clubes do país e venceu todos, enquanto que o Bangu enfrentou times do que poderia ser considerada a segunda divisão de hoje. O desgaste da final era evidentemente maior para os coritibanos, mas, mesmo assim, foram grandiosos e ganharam o primeiro título de campeão brasileiro do Paraná.
No Brasil há alguns exemplos diferenciados como é o caso do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, que, se não devem ser tomados como exemplo, são no mínimo, um sinal de que é possível sair da imposição do eixo Rio-São Paulo.
Os clubes gaúchos e mineiros apostaram no crescimento de torcidas a partir de iniciativas democráticas de sócios-torcedores com direito a voto e com a conquista de títulos de competições de curta duração. Isso garantiu mais tempo de exposição na mídia, porque um time brasileiro na libertadores ou em outros campeonatos internacionais vende nos meios de comunicação. Mas há um outro fator determinante que acreditamos ser cultural. A história do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais é marcada por conflitos, revoltas, enfim, ações populares que se traduziram em auto-afirmação desses povos. Ao lutar em defesa dos interesses do estado eles cultivaram um orgulho próprio de serem nascidos naquelas terras. Isso faz do gaúcho e do mineiro um torcedor identificado com os clubes de seu estado, obrigando a mídia a retratar o futebol local. No Paraná, o feito mais conhecido do seu povo foi o cerco da Lapa, uma atitude que interessava ao governo central, que impunha os interesses dos cariocas ao restante do país. Infelizmente, fomos marionetes nesse episódio e dificilmente nos recordamos dos feitos de nosso povo, mas não esquecemos daqueles de outros estados.
Falta-nos o orgulho e o amor próprio de ser paranaense. Porque isso reflete em um futebol periférico para os padrões brasileiros. É preciso superar essa situação, porque se quisermos ver os times paranaenses ganhando destaque e terreno precisamos investir na torcida, e, nessa tarefa, apontar o orgulho próprio do nosso povo. Mostrar a alma paranaense, da mistura de raças, do frio curitibano, retomarmos em algum sentido o movimento paranista dos anos 1930-1940. Não apoiamos a violência, mas por alguma razão nos sentimos de alma lavada ao ver o vídeo em que um coxa-branca revida o ataque covarde de um são-paulino ignorante, em jogo realizado em São Paulo. É assim que os paulistas tratam nossa gente, da mesma forma como os cariocas quando torcedores covardes do Vasco entraram no ônibus do nosso time e agrediram jogadores e a comissão técnica do Coritiba, em 2005, em jogo no São Januário, porque é o que acham de nós. Pensam que somos covardes, que somos menores e que devemos nos submeter às suas imposições culturais. Sabemos que pensam isso, porque quando falamos do nosso time aos paulistas e cariocas somos rechaçados, inferiorizados. Nutrimo-nos com o sentimento de vingança e nos satisfazemos com vitórias sobre esses times, mais do que com outros.
É preciso deixar de lado o sentimento autofágico que nos faz envergonhar-nos das nossas tradições, da nossa cultura e da nossa gente. Somos “bicho do Paraná”, como escreveu João Lopes, verde e brancos assim como as cores da bandeira do estado. Isso deve começar pela repulsa a qualquer atitude que imponha os interesses dos times de outros estados sobre nossos clubes. Não significa alimentar atitudes hostis, pelo contrário, porque não é pela imposição ou ignorância que ganharemos torcida, mas pela convicção que transmitiremos de ter paixão em sermos paranaenses. E ao contrário de Ratinho Massa, que investe em uma programação paulista em seu canal, nós realmente temos paixão pelo nosso estado.
Houve tempos em que o Coritiba era muito grande. Estava a frente do futebol gaúcho e mineiro. Nos anos 1940 os jogadores do sul queriam jogar no Coritiba. Aqui tinham estrutura que nenhum outro clube encontrava. Nos anos 1970, tivemos o melhor time do Brasil, coroado com o legítimo Torneio do Povo, em 1973. Essa equipe deu grandes vitórias ao Coritiba, assim como o título de 1985 e todos os 33 campeonatos paranaenses que conquistamos, nos tornando o maior clube em títulos no Paraná. Times de renome temiam jogar com o Coritiba, em Curitiba, porque conheciam o apoio da torcida e a força do time. Nosso rebaixamento em 2006 foi um capítulo vergonhoso para o futebol brasileiro, porque a verdade é que o Coritiba foi roubado em várias partidas por “erros” de arbitragem. É inaceitável um Ricardo Teixeira a frente da CBF que depois de tantos anos prejudicando o futebol paranaense em benefício dos cariocas e paulistas, ainda continua a frente da instituição. Da mesma forma, devemos protestar contra o que impõem o Clube dos 13, quando repartem as cotas de tevê de forma desigual, colocando os times do Paraná em condições inferiores aos demais estados, sem explicações e sem regras claras para essa repartição.
Diante desse quadro não seria demais aceitar que a torcida do Coritiba deixou de crescer no ritmo que crescia. Perdemos exposição, passamos por administrações incompetentes no clube, mas ainda assim, demos mostra do nosso poderio. Retornamos a primeira divisão pelos nossos próprios pés e comemoramos esse ano os 100 anos do Coritiba. Em favor do orgulho paranaense, do respeito às tradições do nosso povo, conclamamos a todos os coritibanos a aderirem a esse manifesto, seguindo as recomendações abaixo e demonstrando seu apoio a essa atitude, assinando favoravelmente este documento:
* Comportamentos copiados de outras torcidas não devem ser toleradas. Abandonemos o “Verdão”, porque esse é o apelido dado primeiramente pelos palmeirenses. Sejamos originais e esqueçamos cânticos e palavras de ordem que lembram os de outras torcidas. Exaltemos nossos apelidos, símbolos e características principais;
* Entoemos os hinos do Coritiba e afirmemos que somos coxas-brancas, “a torcida que nunca abandona”. É preciso reforçar nossa identidade coxa-branca, a de “alma guerreira”;
* Apoiemos o time em qualquer situação, porque não dá entender os torcedores que vão ao estádio para xingar, falar mal do time. Há hora certa para isso. No estádio, durante o jogo, a torcida deve ser uma só, com uma única voz para empurrar o time contra os “invasores” no Alto da Glória.
* Não nos comparemos com qualquer outro clube, porque o Coritiba é incomparável, é único. Nossas cores, nosso lema, nossa camisa não devem ser comparados, os outros é que devem se comparar a nós.
* Vamos usar a camisa do Coritiba nas ruas de Curitiba e, quando formos ao interior, falaremos das conquistas grandiosas do nosso clube a fim de ganhar torcedores. Vamos mostrar aos demais paranaenses que precisamos fortalecer nossa alma paranaense, mostrar nosso orgulho e não mais abaixar a cabeça aos paulistas ou a quem quer que seja. Mostremos a eles que não se pode aceitar a imposição da mídia, que temos escolha e nossa escolha é torcer para um time que representa verdadeiramente nosso estado nacionalmente e que pode chegar aos campeonatos internacionais. O mesmo deve ocorrer nas viagens pelo país ou fora dele, nas conversas de chat, no orkut, em outros espaços eletrônicos. Façamos com que o futebol paranaense seja notícia e polemizemos com esses fatos, porque é assim que chamamos a atenção das pessoas e é assim que atraímos a atenção da mídia.
* É hora de ser sócio para aumentar as receitas do nosso clube. Precisamos de um novo estádio que garanta a estrutura dos grandes clubes europeus, bem como uma receita fixa capaz de possibilitar o planejamento a longo prazo. Vamos valorizar nossos craques e protestar quando forem vendidos ao futebol paulista ou para qualquer outro estado brasileiro, porque jogador do Coritiba tem que sair daqui só se for para a Europa.
* É dever de todo coxa-branca saber da história do clube. Por isso indicamos os sites dos helênicos. No youtube também há uma infinidade de vídeos que devemos mandar para amigos e mostrar para outras pessoas a fim de exaltar nossa glórias.
* Participamos de fóruns de notícia com comentários sempre mantendo a razão, porque a ignorância é para aqueles que tentam impor sua cultura sobre a nossa. Dentre os sites importantes para isso está o Coxanautas.
* Somos, acima de tudo, coxas-brancas, torcemos para o glorioso. Não admitimos gostar de outro time. Aqueles que não estão convencidos disso, devemos “converte-los” pela razão e pela paixão. Vamos ganhar corações e mentes para o Coritiba.
* Coxa-branca de verdade torce para o clube, conhece os hinos, oficial e o da torcida e o do eterno campeão. Esse é um dever também de todo torcedor assim como cantar os hinos e cantar palavras de ordem que engrandecem nosso clube sempre que possível.
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Guilherme Carvalho é Coxa-Branca de coração.
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que apenas cede o espaço à publicação.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)