
FALA, COXAnauta!
Sabe quando você sabe que sua mulher não vale nada? Sempre que ela pega a bolsa e vai pra rua você tem certeza que ela vai aprontar, mas quando ela volta toda sorridente, você se abre todo e faz de conta que não sabe das galinhagens dela. É exatamente assim que eu estou me sentindo em relação ao time do Coritiba. Eu sei que esse amontoado de jogadores no qual o tal de Marcelo Oliveira transformou a equipe alviverde vai me trair, vai aprontar comigo, vai me fazer sofrer, mas não adianta: chega a hora da gente se encontrar e eu estou lá, ansioso para matar a saudade e torcendo para que para que as coisas mudem entre nós e que ele pare de machucar meu pobre coração.
Só o fato de matar a saudade do clube que amo é suficiente para estampar um enorme sorriso na minha cara. Isso momentos antes da bola rolar. Assim que o árbitro autoriza o início da peleja, o sorriso vai ficando amarelo, amarelo, fechado e, em poucos minutos, eu já estou à beira de um ataque de nervos, proferindo os mais impublicáveis palavrões. Tem sido assim desde o primeiro jogo do ano. Mas dessa vez nada iria dar errado. Eu acreditava que o adversário era muito, mas muito fraco. Era só relaxar e curtir a goleada que estava por vir.
Num relacionamento entre marido e mulher tem gente que odeia ver a mulher sair de minissaia mostrando as coxas. A minissaia do Coritiba é esse tal de Junior Urso. Não gosto de ver o time com esse cara em campo. Já torço o nariz quando ouço seu nome na escalação. Que jogadorzinho mais lazarento que foram arrumar. E pra jogar logo no lugar do monstro Leandro Donizete, que hoje é dono do meio de campo lá no Atlético Mineiro. Não me conformo. Até o tiozinho que cuida dos carros aqui na frente do Banco do Brasil, que tem uma perna só, não erra os passes que esse infeliz erra. É impressionante. Agora, mais impressionante mesmo é o “gênio” que arma o time ver esse traste treinar todo dia e ainda o colocar pra jogar. Marcelo Oliveira. Você não pode ser tão burro assim!
Mas antes de enfrentarmos o Nacional de Manaus, um time cuja folha salarial inteira não paga o salário do Edson Bastos, que é reserva no meu time, vamos analisar a escalação da equipe. Por se tratar de um jogo contra uma equipe considerada mais fraca, o Marcelão vai colocar o time na garganta deles, com um volante apenas e uma meia cancha criativa e um ataque arrasador. Afinal, ele dirige um time grande e é assim que time grande entra em campo para enfrentar times pequenos. Na zaga, tudo bem. Não tem coisa melhor, então vai tu mesmo. Dois laterais fracos, que não sabem cruzar, mas que são eficientes na marcação; dois zagueiros entrosados e um bom goleiro. Pronto. Isso já seria suficiente para não levar gol do Nacional, na minha mais que modesta opinião. Vamos pra meia cancha arrasadora. Epa! Tem alguma coisa errada! Eu li que ele vai entrar com três volantes: Gil, Djair e o tal de Urso. Três volantes pra enfrentar o Nacional de Manaus? Ah, não. Isso não pode ser verdade. O cara que escreveu isso aqui nesse texto está louco. Nenhum treinador seria tão medroso a ponto de fazer isso. Só que o time entrou em campo e lá estavam os três volantes. Fiquei incrédulo, estático, com um riso meio sem graça no canto direito da boca, enquanto balançava a cabeça pra lá e pra cá. “O que ele quer? Perder de pouco? Quer levar o empate pra Curitiba? Como é que eu vou cobrar alguma coisa do Lincoln, do Rafinha e do Marcel? Quem vai fazer a bola chegar até lá pra eles terem tranqüilidade pra trabalhar uma jogada ou outra? Quem vai fazer a aproximação? Quem vai se apresentar pra tabela? Tabelar com o Junior Urso é o mesmo que você emprestar seu carro pra um cego. Você entrega pra ele já sabendo que ele vai fazer cagada. Bom, pelo menos eu já preparei meu espírito porque dessa vez eu não apenas desconfiava. Eu tinha certeza que iria passar raiva. E não deu outra!
Começou o jogo e parecia que o campeão brasileiro era o Nacional e o time aventureiro na Copa do Brasil era o Coritiba. Os laterais que não sabem cruzar não passavam do meio de campo, os volantes quebradores de bola não acertavam um passe de meio metro e isso comprometeu completamente o trabalho dos três coitados lá da frente. O Rafinha, o Lincoln e o Marcel, aos 20 do primeiro tempo, devem ter se perguntado: “O que foi que nós fizemos pra merecer isso?”. Não deve ser fácil a vida desses três. Jogar num time desse é mais doído que ser marido de atriz pornô.
Felizmente o primeiro tempo chegou ao fim e o Coritiba conseguiu a façanha de não tomar o gol. O goleiro Vanderlei teve que se virar porque foi uma pressão terrível. Aí pensei: “Agora é a hora da consagração. O Marcelo Oliveira escalou o time todo errado pra corrigir no intervalo e se consagrar o safadão. Vai tirar esses volantes todos e vai colocar o Roberto, o Renan Oliveira e o Aquino pra sufocar esses coitados”. Abri mais uma coca cola, esfreguei as mãos e consegui até sorrir. “Agora vai”.
Mais uma vez, me enganei. O cara estava mesmo com medo do Nacional. Ele realmente colocou em campo o Roberto, o Aquino e o Renan Oliveira. Só que não tirou nenhum dos volantes, ou seja: trocou seis por meia dúzia. Mudar o esquema tático que é bom, nada. Como é que alguém paga um cara desse pra dirigir um time de futebol? Qualquer “Zé Ruela” faz isso que ele faz. O infeliz não sabe explorar os pontos falhos do adversário, não sabe fazer a leitura da partida, não tem coragem pra dar o seu time uma postura ofensiva. Profundamente lamentável o trabalho deste senhor à frente do comando técnico do time que eu amo. É como se você visse sua mulher te traindo com um cara mais feio que você. Não dá pra admitir.
Lógico que com tantos quebradores de bola (o Coritiba entrou em campo com oito jogadores de características defensivas), o time iria chamar o adversário pra cima e a bola não iria sair lá de trás. Nem precisa ser tão esperto pra saber isso. Resultado: o Coritiba levou um show de bola, foi massacrado pelo Nacional e o empate precisa ser comemorado porque se tivesse que haver um vencedor, esse vencedor seria o dono da casa. Tanto que, no final, o Pereira teve que apelar pra evitar o gol dos caras. Levou o cartão vermelho pra não tomar o gol. Uma vergonha.
Jogadores sem comprometimento com essa camisa centenária e um técnico incompetente, que mesmo pegando tudo mastigado ano passado (herdou uma equipe pronta, montada pelo mestre Ney Franco) não teve competência nem pra chegar à Libertadores (lembram do tal de Marcos Paulo na final da Copa do Brasil?). Será que vão esperar o time passar cinco rodadas na lanterna do Brasileirão para descobrirem que lugar de técnico medroso é no banco de reservas de clubes pequenos? Oito defensores para enfrentar o Nacional de Manaus é demais pra minha cabeça.
Resumindo o jogo de estreia do Coxa na Copa do Brasil: se o time fosse dirigido por um treinador digno da grandeza da sua camisa, o Coritiba teria amargado um empate com o Nacional de Manaus e o resultado estaria sendo lamentado. Como é dirigido pelo Marcelo Oliveira, missão cumprida. O Coxa jogou como time pequeno, na retranca, buscou o empate e conseguiu. É mais ou menos por aí.
O pior de tudo é que, mesmo sabendo disso tudo, quando a bola rolar novamente, lá estarei eu com os olhos arregalados e morrendo de saudade desse clube que eu tanto amo. Por isso não condeno os apaixonados que perdoam suas esposas traidoras. Por amor, a gente perdoa esses deslizes, passa a borracha em poucos dias e faz de conta que nada aconteceu.
Afinal, como diria meu amigo Falcão, é melhor comer doce de leite com os amigos do que comer m... sozinho.
Gilson de Paula é jornalista, historiador do Coritiba e Coxa-Branca de coração.
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