
FALA, COXAnauta!
O Coritiba, René Simões e a magia do futebol
*Às vésperas de importante jogo decisivo, ápice de bela campanha que culminou com o retorno do Coritiba à elite do futebol brasileiro, reflitamos sobre alguns aspectos deste capítulo da saga Coxa-Branca. A Segundona mostrou ser extremamente competitiva, difícil e equilibrada. Poucas foram as goleadas e muitos jogos foras decididos no puro detalhe. Quando René Simões assumiu o comando técnico, o Coritiba estava longe do G4, e a ascensão à Série A parecia um sonho cada vez mais distante. O time não mostrava padrão de jogo e a média de público rondava as 9, talvez 10 mil pessoas. Se ouvia de todo lado reclamações sobre a qualidade do elenco, aparentemente incapaz de chegar no G4.
Chegou René Simões e o cenário começou a mudar. Com um discurso diferenciado, fugia do lugar comum da grande maioria dos treinadores, assumindo responsabilidades pelos erros, apontando méritos dos jogadores nas vitórias, absolutamente humilde nas declarações. Suas preleções mostravam conteúdo, atingindo de modo positivo o estado moral dos jogadores e os resultados começaram a aparecer. Afinal todos sabem jogar futebol, faltava apenas a afinação e René Simões assumiu com brilho o posto de maestro da orquestra. Mesmo com as limitações do elenco, o interessante rodízio dos jogadores proporcionou antídoto interessante contra as inevitáveis ausências dos principais jogadores.
O torcedor Coxa-Branca ansiava há muito tempo por ver o time jogar para frente, de maneira insinuante, objetiva, e a equipe de jovens talentos, dentre alguns veteranos, começou a mostrar em campo um futebol de qualidade, que acabou refletindo no espetacular aumento do público no Couto Pereira. Por anos a fio, na Série A e mesmo na Libertadores, raramente o público chegava a 15 mil pessoas. O que levou, neste ano de 2007, tanta gente a pagar um dos ingressos mais caros do Brasil para ver jogos da Segundona? A resposta é simples: o padrão de jogo envolvente, bonito, mostrado pelo time de René Simões na maioria dos jogos. A nação coritibana (ainda) está vivendo um sublime estado de espírito, como que envolvidos pela magia do futebol e que não acontecia há muitíssimo tempo. A beleza que este momento propicia é porém frágil, quebradiça, fruto de uma espécie de karma habilmente semeado por René Simões e não deveria ser perturbada por mesquinharias clubísticas.
A torcida precisa entender que o time não é invencível, como não o são Barcelona, Milan, e a própria Seleção Brasileira, pois estamos falando de futebol e não de basquete. A raridade do gol é que o torna tão precioso e que faz do futebol, dentre todas as modalidades coletivas, o esporte mais artístico e rico em variações.
O resultado do jogo com o Marília deve ser encarado como normal, pois, se a vitória de um dos times fosse certeza absoluta, não haveria nem jogo. A vitória daria o título ao Coritiba, mas o Coritiba perdeu o jogo, assim como poderia ter ganho. A bola do Anderson Lima que bateu no travessão, por 10 ou 15 centímetros teria entrado, e o resultado do jogo poderia ser a vitória do Coritiba, quando todos estariam festejando e elogiando a garra da equipe. Podem 10 ou 15 centímetros significar a diferença entre paraíso e inferno? O gol do Marília a 1 minuto de jogo foi algo de espetacular. Se fosse marcado pelo Coritiba, todos estariam exaltando a habilidade do autor e não qualquer possível desatenção da outra equipe. À parte as jogadas violentas, que resultaram na triste saída de Keirrison, o Marília merecia aplausos ao final do jogo pela vitória, que levou a decisão desta empolgante edição da Segundona para a última rodada.
E o que é melhor, para quem realmente gosta de futebol, do que ver o seu time decidir o título na rodada final, ainda que pela televisão? Esta é a magia do futebol que o Coritiba encarnou neste ano, e que deve levar a torcida a aplaudir e receber com carinho a equipe, por tudo o que nos proporcionou, independentemente do resultado do jogo em Recife.
Alfred Doetzer é Coxa-Branca de coração.
*Nota do editor: texto redigido em 23.11, antes da última rodada do Brasileiro.
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