
FALA, COXAnauta!
O Imortal Coritiba
Épico: essa é a melhor palavra para definir o que ocorreu nesta sexta no Couto Pereira. Diante de mais de 28 mil torcedores (sem necessidade de maquiagem e invenção de critérios por parte da imprensa marrom paga pelo El Coronel), o Coritiba mostrou mais uma vez porque é o Imortal das Araucárias.
Há partidas que somente o Coxa é capaz de fazer. Posso dizer que já presenciei pelo menos 3 partidas em que a camisa Coxa-Branca foi decisiva para que houvesse a vitória: a final de 1999, contra o Paraná, em que o Coritiba perdia por 2x0 e foi buscar o resultado com um gol de Darci aos 39 do segundo tempo, em pleno Pinheirão, até aquele dia notório cemitério Coxa-Branca; a final de 2004, em que o Coritiba virou o primeiro tempo perdendo de 3x2 para o rival do novo estádio nos padrões gaúchos de contagem de público, e que, aos 33 do segundo tempo, com uma testada firme de Tuta e o seu famoso "shhhh", protagonizaram um bicampeonato histórico e o maior vexame da história recente do rival de Pelotas; e o jogo de sexta, em que o Coritiba entrou em campo diante de quase 29 mil torcedores e jogou contra um adversário valoroso, muito bem montado e postado como é esse time do Ipatinga. Atrevo-me a dizer que os mineiros serão para esse final de década o que foi o Bragantino no começo da década de 90 e o São Caetano no início dessa década: o time mais encardido e chato de jogar que se tem notícia e que sempre vai chegar nas disputas. Foi diante desse rival é que o Coritiba, mais uma vez, deu mostras de sua imortalidade.
O jogo foi duro: uma bola na trave de cada lado, chegadas ao gol com agudez de ambos os lados, um jogo franco, disputado de igual para igual. A tônica do jogo nos 90 minutos foi essa. E o resultado de empate parecia se encaminhar no final da partida. Apesar dos ataques incisivos do Coritiba no final da disputa, o valente e encardido Ipatinga vinha resistindo e levando para o Vale do Aço um empate que valeria como ouro nas suas contas. Mas aí resolver aparecer o imponderável, aquilo que transforma jogos simples em odisséias inesquecíveis.
Aos 40 minutos do segundo tempo, em uma disputa áspera, o valente Gustavo acaba por agredir o zagueiro adversário, que revida a agressão sofrida. O árbitro Cléber Wellington Abade, erroneamente, vê apenas a agressão de Gustavo e expulsa o centroavante Coxa-Branca. O empate parecia se encaminhar depois disso. Mas Ricardinho, o habilidoso e liso 10 Coxa-Branca, resolve fazer uma graça na área mineira, aos 44 da etapa final. O valoroso zagueiro Duílio "cai" na ginga e derruba o meia coritibano na grande área. Pênalti nos estertores da peleja. Parecia o fim. Mas era apenas o começo.
O capitão Anderson Lima, do alto de sua autoridade, resolve pegar a bola e bater o pênalti. Jogador experiente, exímio batedor de faltas, aquela seria apenas mais uma cobrança para uma longa e vitoriosa carreira. Afinal, bastava jogar a bola na meta do jovem goleiro Fred e comemorar o que seria a consagração do time verde-e-branco rumo à elite do futebol nacional.
Com tranqüilidade, o capitão bate o tiro da marca fatal no canto esquerdo do jovem goleiro, que, por sua vez, se adianta a la Doni e Rogério Ceni e agarra a bola. O auxiliar, acertadamente, manda retornar a cobrança. Protesto por parte dos mineiros, mas, como diria Arnaldo Cézar Coelho, a regra é clara: o goleiro deve se mexer apenas na linha do gol, não deve se adiantar. Volta-se a cobrança para uma nova batida.
Novamente Anderson Lima atira a bola no mesmo canto, o jovem Fred mais uma vez imita o Doni no jogo Brasil x Uruguai e, mais uma vez, o auxiliar manda voltar a cobrança. Outra vez protesto do time mineiro e, mais uma vez, retorna à bola a marca de tiro fatal. Nessa altura dos acontecimentos a torcida coxa já imaginava se era melhor deixar a responsabilidade da batida a algum outro jogador com mais pernas. Ricardinho, quem sabe. Ou então o jovem Marlos. Mas Anderson Lima, teimoso como Palermo naquele Argentina x Colômbia em que perdeu três pênaltis seguidos, resolve bater novamente.
Nessa altura o árbitro Abade já lembrava Otávio Augusto na antológica cena da rua Javari no filme "Boleiros", em que o árbitro do filme manda voltar cinco vezes o pênalti até a hora que o batedor acerta. Até há um comentário maldoso do juiz naquela ocasião, dizendo que "daqui a pouco eu que terei que bater o pênalti". A bola volta à marca, e Anderson Lima, mais uma vez, repete o canto; Fred, mais uma vez, se adianta e espalma; dessa vez, o capitão pega o rebote e estufa a rede; mas, Cleiton Wellington Abade, tal qual o seu colega de profissão na rua Javari da década de 60, resolve mandar voltar a cobrança.
E lá vamos nós para a quarta e última cobrança. Já eram contados 54 minutos de jogo, e a torcida Coxa estava a 10 minutos esperando por um gol que já não sabia se iria sair ou não. Dessa vez, o capitão resolve mudar o canto; e aí meus amigos, o resto é história. O Coritiba prova a imortalidade de sua camisa e arremata a vitória em seus domínios.
Houve favorecimento? Creio que não. O árbitro resolveu seguir a regra a risca, haja vista os acontecimentos do Mineirão no jogo Atlético/MG x São Paulo, em que o arqueiro Rogério Ceni desavergonhadamente adiantou-se e agarrou a cobrança de Coelho.
Naquela ocasião, a falta de rigor à regra causou um dano ao campeonato irreparável, pois se não fosse aquele empate haveria uma disputa mais aguda entre São Paulo e Cruzeiro pelo título. Mas houve sim peso de camisa. Afinal, o Coritiba é um clube de história centenária, campeoníssimo em seu estado, campeão brasileiro e dono de uma das maiores torcidas do território nacional. O Ipatinga é um mero clube de empresários, formado para revelar talentos e revender jogadores aos clubes mineiros maiores, notadamente o Cruzeiro. É um time novo, que nem em sua cidade consegue ter torcedores: tem que enfrentar concorrência dos grandes mineiros e do rival local Ideal, um simpático clube amador que resolveu se profissionalizar esse ano.
Por essas questões é que existem clubes que aparecem no cenário nacional como "cometas", que foi o caso do Bragantino, do São Caetano e hoje do Ipatinga; e existem casos de clubes que são "imortais", notadamente o Grêmio, o Palmeiras, o Galo Mineiro, o Flamengo, o Bahia e o Coritiba. Os imortais são clubes que, na pior das dificuldades, nos estertores das disputas e nos momentos mais improváveis conseguem viradas espetaculares, principalmente movidos por suas fanáticas massas.
A vitória do Coritiba foi uma mostra do que significa a imortalidade de um clube no campo de futebol. Há clubes que estão lá apenas para constar, ganhar algumas glórias e depois esvanecerem-se nas lembranças; e há outros que conquistam títulos improváveis, vitórias impossíveis e títulos inesperados em condições épicas. E hoje posso dizer que tive o prazer de testemunhar um momento épico do futebol nacional. Parabéns ao Coritiba e a sua torcida, que é o coração e a alma desse grande clube.
VAMOS SUBIR COXA!!!
René Santos Neto é Coxa-Branca de coração.
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