
FALA, COXAnauta!
1967 foi um ano definitivo em minha vida: fui ao primeiro jogo do Coritiba (5 x 0 no Atlético numa partida toda do Krüger, o Flexa-Loira) junto com meu pai e meu avô. São, portanto, praticamente 43 anos de dedicação de alguém que já bate nos 55. Já vi muito, de bom e de ruim. De alegria que parece interminável – mas que termina; de tristeza que parece inelutável – mas que acaba. Temos agora nosso maior desafio.
É preciso ter calma ... e memória: aquela para não destruir ainda mais as esperanças; esta para lembrar que muitos – mas muitos mesmo – já passaram por tudo o que ocorreu. Quem não se lembra das barbaridades, por exemplo, de São Januário (Vasco)? Quem não se recorda do que aconteceu no Pacaembu (Palmeiras e São Paulo)? Por certo aqueles brasileiros não eram nem melhores nem piores que os daqui.
É preciso também lembrar do dia do jogo em si. Eu lá estava e me recordo perfeitamente da torcida cantando patrioticamente o Hino Nacional (mesmo o setor da curva), com respeito, sem fazer barulho, fato raríssimo – até inusitado (enquanto o Fluminense nem ao menos se dignou a perfilar perante a bandeira no dia em que o hino fazia 100 anos).
Não quero dizer que apoio torcidas organizadas e marginais – muito ao contrário, penso que todos devem ser punidos. Mas não posso deixar de lembrar que não foram eles os únicos e que a própria mídia vinha estimulando o conflito: ou não lembramos da propaganda de famosa cerveja que apresenta os jogadores como guerreiros armados preparado para o combate?
Também não falo de gente escolada, preparada, vivida – experiente. Falo aqui de jovens com cerca de vinte anos, que vêm de longe, sem dinheiro, sem educação, sem amor, sem sonhos – sem porvir. Eles que tudo entregam naquelas duas horas onde se sentem portadores de tudo o que acima disse – e que subitamente viram cair sobre suas cabeças todo o peso de uma frustração nacional que vai de cuecas a meias – passando por panetones que eles nem podem talvez comprar.
Não se pode então crucificar quem já é cristo e não judas. E aí entra o Coritiba e entra o torcedor. Aquele que ontem foi o do Couto Pereira, mas que já passou por São Januário, pelo Pacaembu e por muitos outros locais que podem ser lembrados.
Vamos punir os responsáveis, vamos – dentre eles o Coritiba e particularmente sua direção. Mas não vamos chamá-los de únicos, porque não o são, neste país. Vamos ao menos dar a eles o que demos aos outros: a possibilidade de recuperação. Pois que dentro de todos nós ainda bate um coração, o mesmo daquele menino de 1967. Com muito orgulho, com muito amor.
Manoel José Lacerda Carneiro é Ex-presidente do Instituto dos Advogados do Paraná e Coxa-Branca de coração.
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