
FALA, COXAnauta!
Recentemente, li uma coluna de autoria do Felipe Rauen, "A Melhor (E Maior) Torcida", e considerei pertinente sua observação relativa a modismos, em comparação ao tradicionalismo, e como a atuação da mídia consegue direcionar novos adeptos para o sentido desejado, independente da qualidade do produto em questão.
Para alguns, é possível "amar" sem sequer conhecer o conteúdo, como um namoro pela Internet, onde cria-se um personagem ou produto, por vezes, irreal. Da mesma forma que acontece o "encantamento" em namoros virtuais, muitos são induzidos a torcer por A ou B por mero sugestionamento.
Após a propaganda, compra-se o "produto", porém, não avalia-se a concepção e o "pacote de idéias" que está embutido no rótulo. Trata-se da ideologia, pois um clube não é uma instituição onde apenas se "contabiliza" o número de títulos.
Portanto, graças a nossa personalidade, não aceitamos conceitos ou definições através de informações duvidosas, oriundas de uma única fonte ou lendo apenas "manchetes", principalmente após o que sofremos como "coxas-brancas".
Num certo momento da história, nosso próprio apelido voltou-se contra nós, graças a uma "mídia' que parecia fazer questão de interpretar erroneamente, criando, em alguns inadvertidos, um preconceito indevido e totalmente descabido ao "Coxa-Branca".
O que foi entendido como segregação, na realidade, era apenas uma referência a um atleta de origem alemã, que foi xingado num Atletiba, na época da II Grande Guerra. Anos mais tarde, a torcida e o clube incorporaram seu apelido e o tempo acabou por "cimentar" aquela que seria a maior de nossas características: a personalidade.
Apesar desta não ser um pré-requisito de grandeza, notem o que acontece quando perguntamos para que clube as pessoas torcem: Quem torce para o Coritiba, em grande parte das vezes, não tem um segundo time; no caso dos outros, é curioso (e comum) a referência a um segundo, nas entrelinhas.
Se alguém acha tudo isso bobagem ou não entendeu o poder que a personalidade exerce, então, explique como apenas 2 mil torcedores Coxas conseguem se impor e calar uma baixada lotada, como em 2004, 2005 ou 2008??? Tudo isso tem relação com outras duas qualidades, diretamente proporcionais à personalidade: a independência e a identidade, comum em quem se acostumou a tomar e realizar decisões.
Para aqueles que continuam duvidando, relembro somente decisões do Maracanã: a última foi nas quartas de final da Copa do Brasil, em 2001, onde eliminamos o Flamengo; no ano de 1973, o Coxa também venceu o "Mengão", em pleno Maracanã, e encaminhou a conquista do Torneio do Povo, na Bahia; depois, em 1979, assistimos uma semifinal de Brasileirão, contra o Vasco. Em 1980, outra semifinal, novamente com o Flamengo no Maraca. Em 1984, quartas de final, desta vez contra o Fluminense do "Casal 20", adivinha onde? A rotina seguiu, em 1985, quando enfrentamos "dinovo" o Flamengo e o Estádio Mário Filho, onde o meia Marildo abriu o caminho para a decisão final, contra o Bangu, no mesmo estádio.
Após ver o Coxa encarando decisões em tantas oportunidades e situações, entende-se que isto é uma característica do Coritiba e não uma situação casual. Apesar da “performance” chamar a atenção, este não é o motivo pelo qual muitos de nós o admiramos. Na realidade, existe um ideologismo, uma forma de agir, como instituição, que o diferencia, acima de tudo.
Se alguém imagina algum preconceito, ao compararmos com os coirmãos, então, conceituem o Paraná Clube do Brasil!!! O Ferroviário, um dos antecessores, era um clube classista, ligado a R.F.F. O sucessor, Colorado, apelido de um grande clube Gaúcho, foi conhecido como "Boca Negra" e já era uma "gororoba". O Pinheiros, elitista de "sangue azul" e oriundo de outras fusões, outra mistura. Após a junção de doces, salgados, amargos, apimentados e azedos, considero o Paraná Clube uma "sopa de tudo", um misto sem conceito e muito menos definição!!!
E o Clube Atlético Paranaense? Originou-se de uma fusão entre retirantes do próprio Coritiba, com tendências preconceituosas, e outro clube já estabelecido. Apesar da "ausência" de alguns grupos étnicos até os anos 60 (descrito até em publicações), os mesmos julgam-se o "time do povo". Por décadas, sem um campo adequado, "pediram pinico" aqui ou ali. Com o passar do tempo, mudaram alguns padrões, como uniforme, mascote e símbolo. Agora, pousam como elite do futebol brasileiro, mas, precisam de "ajuda" para concluir seu estádio, propagado como moderno e inacabado desde o século passado!
Poderiam vender mais uns "jogadores" para concluí-lo, como fizeram na primeira fase (você acredita?). Não cabe aqui um julgamento e, sim, questionamentos: Qual é o time que se intitula o "time do povo", mas, segregava? Qual instituição precisou do apoio do Coritiba para não jogar a segundona do Paranaense, em 1968? Qual instituição precisou de nosso estádio para colocar sua torcida em grandes jogos de Brasileiros, já que não possuía um em condições? Quem queria emprestá-lo, novamente, para decidir uma Libertadores, depois de dizer que o mesmo era inseguro (ainda está de pé)? Quem se propôs a ceder seu estádio para uma Copa e, como um "João sem Braço", disse que não pode concluí-lo sem "esmola"?
Quem se diz "a maior (e melhor) torcida", mas, costuma perder em médias de público e, novamente, terminou atrás na Timemania? Percebem as diferenças ou precisamos de outros exemplos? Desde sua origem, o Coritiba trata e resolve seus problemas (ou não) dentro do seu âmbito e comprova sua força nos números, sem precisar de "maquiagens".
Permeando por esta análise, a realidade é a seguinte: quem tem independência e poder de decisão, cria personalidade para tal, apresenta argumentos consistentes e não deixa seus problemas nas mãos de outros "poderes".
Construímos, com recursos próprios, nosso primeiro estádio e, depois, o Couto Pereira; buscamos uma parceria privada para reconstruí-lo, sem recursos públicos, o que foi impedido pelo próprio poder público; enfrentamos as "forras" da CBF e do STJD, de peito aberto e cumprimos as penalidades, mesmo sem o apoio de jurístas do próprio estado; mostramos em números e fatos.
Todo o pioneiro tem sua vida alicerçada em suas próprias estruturas e recursos. Mesmo idealizado por descendentes de alemães e, independente deste fato, abriu-se para todos. Seu segundo presidente foi um Nordestino que acabou por fornecer seu nome ao mais importante estádio do Paraná. Desde a sua criação até o momento, jamais abdicou de carregar os fardos que a história lhe concedeu, por circunstâncias ou imposições. Nem sequer se desfez dos rótulos que se atreveram a criar, em razão de preconceitos a nós dirigidos, sofridos na pele por um jogador, durante a Guerra.
Como disse o Felipe Rauen, "só o Coritiba é assim". Hoje, entoamos o nosso "Coxa" pelas arquibancadas, para todo mundo ouvir, como forma de homenagear o atleta Hans Egon Breyer, ofendido e discriminado com a expressão "Coxa-Branca", para sempre, nossa identidade.
Mauricio Dobjanski é Coxa-Branca de coração.
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