
FALA, COXAnauta!
Num mundo não tão longínquo, haviam dois reinados. Um possuía seu castelo imponente em um lugar alto e privilegiado e o outro possuía o seu modesto castelo em um lugar baixo e pouco valorizado. Ao invés de buscar terras mais distantes e provar sua grandeza para toda a nação, ambos viviam se confrontando na busca de ser o maior reinado da região, o mais reconhecido, o mais famoso daquele pedaço...
Só que por mais que se esforçasse, o reinado lá de baixo não conseguia a mesma projeção que seu arqui-rival lá de cima, suas conquistas eram limitadas, por mais barulho que seus agregados fizessem, não conseguiam chegar perto das conquistas e triunfos de seu arqui-rival.
Num dia histórico de confronto direto na busca desse espaço, o reinado de baixo levou uma surra, ela foi tão significativa que um de seus adeptos jurou que isso jamais iria acontecer novamente, destituiu o rei, tomou posse do reinado, virou um imperador. Demoliu o castelo antigo, o substituindo por um novo e moderno palácio, mudou as estratégias de ataque e divulgação, se fez imbatível em seu território...
Porém seu arqui-rival (do lado lá de cima), com o apoio de seu fiel povo, o maior da região, continuava soberano, melhor e mais importante. Por mais que dissessem o contrário, a fortaleza lá de cima era inabalada. Prova disso que no primeiro confronto entre os rivais no novo castelo dos povos lá de baixo, uma verdadeira decisão de campeonato, os agregados de lá de cima foram e fizeram a festa, como era de costume. Não foi uma vitória arrasadora novamente, mas mostrou (naquele não tão longínquo mundo) que faltava muito para se mudar no reinado de lá de baixo.
O novo imperador dos lugares baixos, não dando por satisfeito, mudou sua estratégia, mandou um de seus súditos se passar por gente lá de cima, ensinou-lhe as fórmulas de se fazer importante como ele, de ser respeitado, amado ou odiado pelos seus súditos e mostrou o caminho de como se tornar a majestade do reinado lá de cima.
Os súditos do reinado lá de cima, ainda inebriados pelas costumeiras conquistas não perceberam essa infiltração, não demorou muito lá estava ele, cumprindo com determinação, coragem e destreza as ordens do imperador lá de baixo.
Os resultados começarem a aparecer, ou melhor, desaparecer. Os gladiadores contratados eram suspeitos, velhos em fim de carreira, os puros-sangues substituídos por pangarés, desta forma, as batalhas começaram a ser perdidas e as desculpas eram sempre as mesmas, "os outros", a falta de sorte ou ainda a interferência de estrangeiros que passaram a levar seus guerreiros formados em casa em troca de pagamento de dívidas que nunca eram desse novo rei.
Depois disso ainda teve uma batalha ganha, essa sem muita importância para a história, mas que serviu de escudo para o plano diabólico do imperador do reinado lá de baixo, tudo começou a se clarificar quando em uma disputa envolvendo outros reinados, após sucessivos fracassos, desmandos e resultados pífios o grande império se corroeu. Pelas regras estabelecidas na nação o reinado de cima não poderia mais disputar seu espaço com reinados fortes, seu espaço estava sendo limitado, mas ainda restava uma esperança...
Num momento de lucidez, os representantes do povo do reinado de cima viram uma grande oportunidade de depor o rei, se reuniram e decidiram pela mudança, porém por forças ocultas, quiçá vindas lá de baixo, permitiu uma reviravolta e o rei permaneceu. Seu discurso era o de união, vitórias e recuperação de todo o espaço perdido ainda naquele ano, afinal de contas, a culpa não era dele, nunca seria, nunca será...
Mais um ano passou, mesmo com intenso apoio e dedicação de seu fiel povo o reinado lá de cima, mais uma vez, não conseguiu se recuperar. Já antes mesmo de se consolidar essa hipótese, os súditos começaram um novo movimento com o intuito de destituir o rei. Foram feitos protestos, passeatas, abaixo-assinados, criadas palavras de ordem e até mesmo brigas entre os súditos e os velhos guerreiros contratados, o que antes era manchete de glórias e vitórias, passou a ser chacota de rivais e manchetes policiais.
O que se sabe hoje é que o imperador do reinado lá de baixo, já não tão amado pelos seus súditos, está assim mesmo rindo à toa, pois conseguiu seu intento de enfraquecer e quase eliminar o seu arqui-rival. E os súditos do reinado lá de cima continuam na busca de uma solução para seu problema maior, eliminar o rei plantado e retomar o posto de grande império da nação, voltando a disputar seu espaço com os maiores reinados, lugar de onde jamais deveria ter saído.
Por enquanto o que se sabe é que o povo lá de cima continua sendo tratado como os bobos da corte. Até quando?
Ricardo Costa Guiraud e Eduardo Turchen Guiraud são Coxas-Brancas de coração
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que apenas cede o espaço à publicação.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)