
FALA, COXAnauta!
Ao falarmos de justiça no Brasil, podemos usar a própria história do futebol brasileiro como comparativo com a realidade que se vive no país.
O Coritiba Foot Ball Club sofre, até hoje, as conseqüências de uma série de atitudes que acabaram por redundar não só em rebaixamentos, mas, também, em retrocesso no seu próprio desenvolvimento como instituição. A intenção desta coluna é refletir sobre o verdadeiro significado da justiça, lembrando de episódios históricos, tanto no País como em nosso Clube, ao longo dos anos 80, para exemplificar. No começo daquela década, o último dos presidentes militares, João Batista Figueiredo, já preparava a transição para a tão sonhada democracia, cantada em verso e prosa pela população, pelos reformadores e revolucionários.
Os militares deixaram de “dar as cartas” e o famoso Colégio Eleitoral, para os que não se lembram, indicou Tancredo Neves para presidir a nação que, por infelicidade do destino, faleceu e não assumiu. A esperança que surgiu com a mudança, contrastava com a tragédia da perda daquele que passou a ser o símbolo dos novos tempos. A partir deste momento fatídico, o Brasil passou a conviver com a democracia e a liberdade de expressão, junto com a expectativa da resolução de diversos problemas sociais e econômicos que nos assolavam. Nesta época, o futebol também dava mostras de que poderiam ocorrer mudanças.
Em 1984, o tal do Coritiba estava, novamente, disputando uma fase decisiva de quartas de final com aquele que viria a ser o campeão daquele ano, o Fluminense. O Coxa mostrava, dentro do campo, que podia chegar mais longe desde a década de 70, fazendo ótimas campanhas, ganhando o Torneio do Povo e chegando a outras duas semifinais.
Mas, ninguém no país imaginava que um clube do Paraná quebraria todas as escritas e se tornaria o primeiro Campeão Brasileiro da Nova República, no ano seguinte, em 1985.
Isto provocou uma grande expectativa de crescimento para a coletividade Coxa, para um futuro próximo. A mesma esperança de engrandecimento surgia nos Brasileiros, junto com a primeira oportunidade, em décadas, de escolher nas urnas aqueles que seriam nossos representantes e mandatários, onde apostamos nossas fichas em pessoas que trabalhariam por um futuro melhor, agasalhado pela “justiça”...
Da mesma forma como o Coritiba frustrou-se em suas tentativas de tornar-se uma referência no futebol, graças a decisões arbitrárias da Justiça Desportiva ou por ações protecionistas de grupos, vimos nosso país decepcionar-se diante de uma desvirtuada classe política que pouco promove a Justiça social. Quanto ao clube, obviamente, as diretorias que passaram por ele ao longo dos anos, tiveram sua parcela de culpa pelo pouco desenvolvimento, bem como a população, quando da escolha de seus péssimos representantes, nas eleições.
Hoje, após vários pleitos eleitorais, temos a consciência (alguns tem) de que a ignorância de parte dos eleitores, aliada a desonestidade de oportunistas políticos, acabam por tornar o estado democrático uma faca de dois gumes, da seguinte forma: somos responsáveis pela escolha dos dirigentes políticos e acabamos nos tornando reféns destes, por quatro ou oito anos, pois, os mesmos não realizam as ações concretas para desenvolver a nação, conforme prometiam. De forma semelhante, vimos os dirigentes da Confederação (CBF) agir de maneira discriminatória, usando seu poder de forma arbitrária ou através da “Justiça Desportiva”, além dos prejuízos, por vezes, dentro do campo. Em 1989, no exato momento em que o Coritiba tentava alçar vôos maiores, sofremos uma pena duríssima e tivemos nossa primeira queda. Outros clubes, por motivos semelhantes, nem sequer foram censurados e muito menos punidos.
Pouco depois, em 1991 e 1993, mesmo com os esforços árduos para subir no campo, tivemos, novamente, nossos tapetes puxados, ou pela arbitragem (quem não lembra do J.R.W., em Campinas) ou pelas barganhas políticas. Subimos em 1995 graças a nossa grandeza, independente do resto, algo que faremos novamente.
Em resumo, temos um sistema claro, dentro da política e em torno do poder, que serve para agraciar pessoas ou beneficiar pequenos grupos em detrimento de outros, tornando submisso todo o restante. O comando do futebol brasileiro exerce uma proteção semelhante a um grupo clubes ditos grandes, com ajuda da mídia. A questão é que os outros, ditos “pequenos”, são responsáveis, por exemplo, pela revelação de muitos dos jogadores que vemos por aí, nos ditos grandes. Se fizermos uma análise, veremos que o Coritiba, time de porte médio no futebol brasileiro, foi um dos que mais preparou e jogadores de alto nível para o profissional! Temos profissionais e estrutura para revelar atletas que acabam brilhando em outros centros maiores ou no exterior; se somarmos os valores dos passes de Miranda, Marlos, Keirrison, Henrique, Adriano, Rafinha, Raul (aquele roubado), Alex, Rodrigo Mancha, Pedro Ken, Marcel, Alex ou até o Varlei e alguns outros chegaremos a cifras de centenas de milhões de dólares.
Qual porcentagem deste montante que o clube recebeu, sendo que este investiu em preparação física, nutrição, orientação, medicina e outros quesitos? O que seria “justo” o formador dos atletas receber? Hoje, dificilmente conseguiríamos recontratar qualquer um destes jogadores que saíram a preço de banana de nossas bases. Quando se fala em justiça, seja no âmbito social, ambiental, criminal ou esportivo, descobrimos um vácuo entre a teoria e a prática.
Outro ponto que poderíamos discutir é a tal “Lei Pelé”. Se esta legislação não ajuda a proteger um clube que revela um grande número de jogadores, então, para que serve? Provavelmente, os clubes têm uma parcela de culpa na composição desta legislação, pois vemos que, na prática, a grande maioria das vantagens está na mão de empresários ou de sociedades que lucram. A situação que envolveu o atacante Keirrison é um exemplo claro dos absurdos: o atleta, que se revelou um grande atacante, precisava do “trampolim” do Palmeiras para chegar ao Barcelona? Poderia jogar mais um ano aqui e ser transferido direto para a Europa.
Agora, o atleta foi para o Barcelona que emprestou ao Benfica e que não se adaptou, acabando na Fiorentina. Até o momento, o único que está levando vantagem é o empresário, pois o jogador mostra dificuldades para se readaptar a tantas mudanças, o que já refletiu no seu futebol. Observamos muitas situações semelhantes, mas, com tratamentos diferentes.
Lembram do caso do doping do jogador Dinei, quando estava no Coritiba, em 1996, quando foi suspenso e depois foi recuperado para em seguida voltar para o Corinthians, onde foi campeão do Brasil? Qual o tratamento que foi dado para o caso do Jobson, do Botafogo, que continuou jogando dopado por mais três jogos e, com seus gols, ajudou seu time a escapar da serie B?
São perguntas que fazemos, em busca de respostas satisfatórias. Toda esta especulação sobre a justiça tem o sentido de nos tornarmos mais observadores com relação ao mundo a nossa volta, seja no futebol e, principalmente, na vida.
Se a lei é para todos, por qual motivo alguns conseguem contorná-la e não sofrem as mesmas conseqüências?
Abraços aos leitores, Coxas ou não.
Mauricio Dobjanski é Coxa-Branca de coração.
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