
JOGOS HISTÓRICOS
Em dezembro de 1995, após superar inúmeras adversidades para se classificar ao quadrangular final da Série B, o Coxa finalmente estava a um passo de retornar à elite do futebol brasileiro. No AtleTiba válido pela 5ª rodada da última fase, bastava ao Coritiba vencer o rival e o retorno estaria sacramentado. O rival havia garantido seu retorno já na rodada anterior, e jogava pela vitória para assegurar o título de campeão da Série B.
A jogada mais forte do Coxa era pelo lado esquerdo, por onde jogavam o garoto-de-ouro Alex e o já ídolo Pachequinho. Tentando neutralizar os avanços do Coxa por aquele setor, o técnico rubro-negro Pepe escalou o volante Alex na lateral direita, com a incumbência de marcar Pachequinho. O esquema não deu certo, e Pachequinho deitou e rolou, fazendo miséria com a zaga atleticana.
O retorno tão aguardado ficou mais próximo logo aos 10 minutos do primeiro tempo, com Alex, que recebeu de Ademir Alcântara e chutou forte, de fora da área, para abrir o placar e fazer explodir em alegria os mais de 30 mil torcedores do Coritiba presentes.
Alex abre o placar para o Cori.
O Alviverde dava um show de raça e determinação dentro de campo, e o adversário, atônito, somente assistia. No início do segundo tempo, veio o segundo gol. Aos 9 minutos, após cobrança de falta do Cori pelo lado esquerdo, o goleiro ruborizado bateu roupa, e o zagueirão Auri, outro prata-da-casa, pegou o rebote e empurrou para o fundo das redes: Coritiba 2x0.
Auri pega o rebote e faz o segundo.
Para fechar com chave de ouro, faltava o gol daquele que foi o melhor em campo. O "Foguetinho" Paulo Mosimann resumiu, em sua coluna publicada no jornal Gazeta do Povo à época, a importância do craque alviverde: "No AtleTiba, Pachequinho reviveu seus melhores tempos de ídolo. Anotou um golaço e bem posicionado, ajudou a desmontar o esquema de jogo do experiente Pepe, fugindo sereno da confusa e improvisada marcação atleticana".
O terceiro gol, que transformou a vitória simples em goleada, veio aos 27 minutos do segundo tempo. E foi bem ao estilo de Pachequinho, que recebeu lançamento em profundidade pelo lado esquerdo do gramado, invadiu a área e fuzilou, sem dar a menor chance para o goleiro adversário.
Pachquinho fecha a goleada Coxa-Branca.
Após o jogo, festa da torcida nas arquibancadas do Alto da Glória, e dos jogadores e dirigentes dentro do gramado. O presidente do Coritiba, Edison Mauad, em entrevista à Tribuna do Paraná, finalmente desabafou sobre as declarações do arrogante presidente adversário, Mario Celso Petraglia: "O placar foi aquele que o Petraglia havia anunciado: três a zero. Só que a nosso favor. Aqui em casa, o Coritiba é imbatível. Não tem pra ninguém". Joel Malucelli, que, ao lado de Mauad e de Sergio Prosdócimo, comandava o clube à época, também disparou: "Ninguém ganha do Coritiba na véspera".
O dono do jogo, Pachequinho, chorando de emoção ao final da partida, desabafou: "A gente não aguentava mais ver a torcida sofrer com a segunda divisão. Fico feliz de estar aqui no momento em que o Coritiba alcança o seu maior sonho dos últimos anos".
Adversários se rendem à superioridade alviverde
Se os torcedores rivais insistem até hoje na tese de que o resultado do jogo foi acertado para que ambos os clubes paranaenses conseguissem o acesso, o mesmo não aconteceu com cronistas notoriamente torcedores do adversário, ao comentarem a partida.
Augusto Mafuz, da Tribuna do Paraná, foi bem enfático ao avaliar a superioridade alviverde dentro das quatro linhas: "O Coritiba voltou porque ontem no Alto da Glória, quando precisava vencer o Atlético, o fez dentro dos princípios que comandam um grande, com personalidade entrou e foi para o jogo com um futebol irrepreensível, próprio para aquele momento de decisão. O placar final de três gols a zero, foi a medida exata de sua superioridade em campo".
Carneiro Neto, da Gazeta do Povo, também exaltou a bela apresentação do escrete coritibano: "Por necessitar do resultado, o time do Coritiba jogou com mais alma, foi solidário, vigoroso, se impôs em todos os setores do campo com personalidade, desprendimento e velocidade. Com todas essas virtudes, o Coritiba já tinha o suficiente para dominar a partida".
Já o cronista Luiz Augusto Xavier, também da Tribuna do Paraná, afastou a possibilidade de um resultado combinado, dando os méritos pela vitória à dedicação da equipe Coxa-Branca dentro de campo: "Não que sentissem qualquer cheiro de marmelada no ar. Mas todos sentiram que o Atlético não teria força para esboçar qualquer reação contra o adversário determinado a deixar marcada sua ascensão à primeira divisão com uma grande exibição".
Inesquecível
Confira o depoimento de alguns torcedores alviverdes acerca do jogo:
"Em dezembro de 1995, eu trabalhava em uma mina de estanho (Pitinga) no interior do Amazonas. Ainda assim, no meio daquela floresta toda, eu sempre dava um jeito de acompanhar o Coritiba. Depois do quase milagre de termos passado à fase final, íamos muito bem no quadrangular e estávamos a uma vitória de voltar à primeira divisão, e o jogo seria justamente contra o meio time lá de baixo.
Até hoje eu não sei como foi que eu fiz, mas em dois dias eu consegui sair da mina (que ficava cerca de 300 quilômetros a nordeste de Manaus) e chegar em Curitiba a tempo de ver o jogo. Sinceramente, não lembro nem qual era a companhia aérea pela qual eu voei para o sul. Só me lembro é do Couto Pereira lotado, dos gols do Alex, do Auri e do Pachequinho, da festa da torcida, da humilhação mais uma vez imposta aos atleticanos, e das lágrimas de alegria que eu deixei no estádio naquele dia.
Aquela foi a minha lição definitiva: para o Coritiba, e para a torcida Coxa-Branca, nada é impossível!"
Marcus Popini, colunista do site COXAnautas.
"Em 1995, eu e meu pai morávamos em Foz do Iguaçu, onde tínhamos uma gigante bandeira alviverde instalada na sacada, com a inscrição “Coxa” em preto. Nosso síndico “adorava”. Por isso – no meu jogo inesquecível – eu incrivelmente não estava presente. Ao menos fisicamente.
No nosso rádio, muitas vezes nem a já saudosa Rádio Clube conseguíamos sintonizar. Nesses dias, a solução era telefonar para Curitiba, quando algum familiar aproximava o telefone do rádio para que pudéssemos “viver” os jogos (detalhe: certa vez, minha avó sintonizou um jogo de suburbana e nos esqueceu, desesperados).
Foi também o que aconteceu nesse memorável AtleTiba, clássico único, capaz de nos tirar o fôlego, dar frio na barriga e nó na garganta como nenhum outro confronto.
Através do telefone-rádio, foi possível ouvir nossa torcida e imaginar a beleza do estádio lotado, ansioso pela vitória e pelo tão esperado retorno à divisão de elite.
Estávamos lá, reunidos na corrente Coxa-Branca, eu no meu quarto, meu pai no dele e o amigo André no aparelho da cozinha. Nossos comentários eram compartilhados e complementavam a transmissão.
O jogo - tão esperado e acirrado - acabou transformado fácil pela decidida apresentação do time e pelos gols dos “ouros-da-casa” – sempre eles – Alex, Auri e Pachequinho, que, ao marcar o terceiro, nos marejou os olhos de emoção pela certeza do retorno à primeira divisão.
Pelos lados baixos da cidade, até hoje se pode ouvir a tão típica não-aceitação pela derrota, traduzida na acusação de que os próprios jogadores teriam facilitado o jogo.
O resultado deu origem à minha favorita edição da antiga 'Revista do Coritiba', da Editora Pinha, capa com foto do atacante Vital e a manchete: 'Não tinha como segurar, VOLTAMOS'."
Paulo Henrique Eisenbach Bueno Franco, dono da comunidade Jogos Históricos do Coritiba, no Orkut.
"Os AtleTibas da década de 80 até metade da década de 90 tinham uma particularidade: você saía de casa cedo, sabendo que o estádio iria estar abarrotado, mas, por obra do "sobrenatural de almeida" (ou não), lá pelos 40 minutos do 2º tempo, o público anunciado sempre girava entre 30 e 35 mil pessoas. Diferente disso foi um 2 x 1 para nós em 1989 (45 mil pessoas) e um 3x0 para nós (55 mil pessoas) em 1990.
O jogo que nos levou à 1ª divisão em 1995 não foi diferente. Público anunciado: 30.000. Público presente: mais de 50.000, tranqüilamente.
Eu e meus amigos, se fôssemos, na época, um pouco mais cautelosos com as coisas do Coritiba, cabalmente provaríamos isso nos dias de hoje. Estávamos em cinco, e os cinco passaram pelas catracas com os bilhetes na mão. Não por má-fé, mas sim porque os bilheteiros não davam conta do ímpeto do mar alviverde indo incentivar seus guerreiros à vitória.
Tranqüila também foi a nossa vitória naquele dia, ao natural, sob a batuta de Alex e Pachequinho.
Ainda hoje em dia, escuto teses absurdas e mirabolantes dizendo que aquele jogo foi acertado. Não acredito sob hipótese nenhuma que tenha sido. Jamais aceitaria o Coritiba entregar um jogo para quem quer que fosse, para beneficiar ou prejudicar algum outro clube.
Mas tem um detalhe. Se foi acertado, foi acertado o jogo, e não a lavada de bola e os 3x0 que enfiamos neles.
Até poderia dizer que foi injusto não ficarmos com o título, pois vencemos quatro, empatamos uma e perdemos somente uma partida naquele ano, para eles. O saldo de gols? 14 pró e 4 contra.
Mas depois de superadas as adversidades da 3ª fase, com mudança de técnico que desistiu do campeonato antes do fim e outros problemas de bastidores, prevaleceu a alma guerreira que nos levou novamente à 1ª divisão.
O título da 2ª divisão? A estrela prateada? Deixe para outros. Nós somos muito grandes para ostentar um título como esse em nossa camisa."
Fernando Todeschini, presidente da ONG Coritiba Eterno.
Ficha técnica
Coritiba 3x0 A. Paranaense
Data: 13/12/95
Local: Estádio Major Antônio Couto Pereira
Arbitragem: Dalmo Bozzano (SC)
Gols: Alex (CFC), aos 10 minutos do 1º tempo; Auri (CFC), aos 10 e Pachequinho (CFC), aos 28 do 2º.
Público: 34.698 pagantes (total 36.910 pessoas).
Coritiba:
Renato; Marcos Teixeira, Gralak, Auri e Claudiomiro; Paulo Sérgio, Marquinhos Ferreira (Léo), Ademir Alcântara (Basílio) e Alex; Pachequinho (Daniel) e Vital. Técnico: Lori Sandri.
A. Paranaense:
Ricardo Pinto; Ricardo, Jean, Luís Eduardo e Ronaldo; Alex, Leomar (Borçato), Everaldo (Jorginho) e João Antonio; Helinho (Washington) e Oséas. Técnico: Pepe.
Agradecimento especial aos Helênicos, que contribuíram fornecendo os dados e os vídeos do jogo.
Torcedor alviverde, se há algum jogo que marcou sua vida como torcedor do Coritiba, envie seu depoimento para o endereço falacoxanauta@coxanautas.com.br.
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Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)