
ENTREVISTA
Demitido do clube no último final de semana, o técnico Allan Aal foi procurado pelo Coxanautas para esclarecer melhor os fatos sobre sua saída do clube e fala, com exclusividade, sobre diversos assuntos, entre eles, sobre o aproveitamento dos jogadores da categoria de base do Verdão. Confira:
1) Allan, por favor, nos explique melhor como foi o processo de demissão. Quem lhe comunicou, como isto foi feito e quais os motivos foram alegados para sua dispensa?
Quase no final das férias (20/01 à 09/02), me ligaram dizendo que o Medina queria fazer uma reunião para conhecer as comissões técnicas da base antes do nosso retorno (09/02). Portanto, no dia 5 de fevereiro, uma quinta-feira, fomos todos para o Couto Pereira.
Chegamos na sala de preleção do profissional e todas as comissões estavam lá. O Medina chegou, falou rapidamente com todos nós (cerca de 5 minutos) e apresentou o novo coordenador da base, Eduardo Zuma, o que foi uma surpresa para todos nós, pois o então coordenador Augusto Oliveira também estava lá e ficou sabendo da mudança junto com todos.
Após uma rápida apresentação, o Eduardo Zuma passou os horários que ele conversaria individualmente com os membros de todas comissões e eu seria o segundo a falar com ele, neste dia mesmo. Aguardei alguns minutos e entrei para a reunião, que na verdade era com o Medina, e também estavam presentes o Eduardo Zuma e o Artur Klass (conselheiro do clube).
Achei estranho o fato do Krüger não participar e muito menos saber que teríamos essa reunião, pois é o coordenador técnico e acompanha o dia-a-dia da base.
Iniciamos a conversa e já percebi que se tratava de uma típica entrevista de emprego, onde se avalia um "novo" funcionário ou uma pessoa estranha no clube para "tentar" em 30, 35 minutos avaliar o potencial e conhecimento do mesmo.
Com muita tranquilidade, respondi o que me foi perguntado, e fiz minhas considerações finais explicando que a maioria dos jogadores que estavam comigo durante o ano que havia passado eram jogadores mais novos que o permitido na categoria e que já vínhamos fazendo isto há algum tempo no sub-17, quando eu estava lá, e agora no sub-20 (atletas nascidos em 1995, 1996 e 1997 numa categoria que permitia, até ano passado, atletas nascidos em 1994). Isso era uma filosofia que havíamos discutido com a antiga coordenação e colocamos em prática durante 2014 inteiro, salvo dois ou três atletas que abriríamos uma exceção (Samuel goleiro e Paulo Vitor atacante que estão no profissional agora e o Wanderson Maranhão que está emprestado ao Foz do Iguaçu). Falei também do perfil de atletas para o Coritiba, da identificação que deveriam ter com o clube e como eu procurava passar isso diariamente a todos eles.
No final, todos me cumprimentaram pelo trabalho e o Medina falou que era para eu aguardar em casa que eles ligariam para definir alguma coisa. A partir daí, já não sabia se manteríamos o planejamento no clube ou não e fiquei muito desconfortável, sem saber o que falar para minha comissão e depois para os atletas que me ligariam ou mandariam mensagens me perguntando se a reapresentação realmente seria na segunda-feira, dia 09/02.
Oito dias depois, me ligaram pela manhã e às 13h fui ao clube para uma nova conversa, dessa vez com o Eduardo Zuma, que me recebeu na sala dele e falou que fez questão de falar comigo pessoalmente. Ele agradeceu todo o trabalho que eu havia feito no clube mas não contaria mais comigo porque eles procuravam um perfil diferente, que não era problema técnico ou algo que eu havia deixado a desejar e que faria questão de dar "as melhores" referências possíveis se eu precisasse, porque todos dentro do clube falavam muito bem de mim.
Fiquei surpreso e não entendi muito bem o que ouvi mas não questionei que perfil era esse porque não iria adiantar de nada, já estava tudo definido e ele me mandou procurar o RH para assinar o que fosse preciso.
2) Por algum momento o risco de demissão passou pela sua cabeça ou foi algo que te pegou de surpresa?
Antes dessa reunião (ou entrevista de emprego) não me passou em momento algum, pois na taça São Paulo em janeiro, após nossa vitória de 8x0 (sobre o São José/AP), o presidente me ligou e fez questão de dizer que estava muito feliz com meu trabalho, que confiava muito nesses atletas e em toda comissão ,que tínhamos condições de ir muito mais longe e só não tinha ido pessoalmente falar comigo e com os atletas porque as coisas estavam muito corridas no clube. Eu agradeci a confiança e disse que daríamos a vida para fazer o nosso melhor.
No outro dia, passei isso para todos os atletas e membros da comissão e todos ficaram muito motivados e felizes, inclusive eu, pois não havia tido nenhum tipo de contato antes como o nosso presidente e fiquei muito orgulhoso com a atitude dele.
Depois de uma conversa assim e de todo planejamento que havíamos feito com atletas mais novos, pensando em 2015, não tem como passar na tua cabeça que você não irá dar sequência em um trabalho que estava iniciando, pois fazia exatamente um ano apenas que eu estava à frente do sub-20 ou sub-23 como foi denominado depois.
3) Além dos encargos normais de uma demissão trabalhista, você tem algo a receber do clube? (salários atrasados, 13º salário, premiações e etc)
Ainda está pendente o mês de janeiro, as férias que tiramos e o FGTS também não havia sido depositado.
4) Embora não tenha conquistado títulos, você teve resultados consistentes no sub-20, como a quartas de final de Campeonato Brasileiro e boas campanhas na Copa São Paulo. Por que, então, foram aproveitados tão poucos jogadores da base na equipe principal em sua passagem pelo Coritiba?
Como comentei anteriormente, quando assumi o sub-20, conversei com a coordenação da base para mudarmos um pouco o processo internamente, procurando aproveitar, o quanto antes, jogadores do sub-17 nas carências que tínhamos dentro do sub-20 e acelerarmos esse processo de amadurecimento deles na base ao invés de buscarmos atletas fora do clube e já quase "estourando" a idade na categoria sub-20. Nós iríamos valorizar atletas que já estavam no clube no caso no sub-17 e foi o que fizemos, pois jogadores como Julio Rusch, Fernando Diniz, Evandro, Mosquito e outros, já estavam inseridos no sub-20 e brigando por posição para jogar, sendo que alguns deles já eram titulares. É claro que, com isso, você não vai brigar diretamente por títulos, porque nessa categoria um ou dois anos a mais faz muita diferença. Mesmo assim fomos semi-finalistas na Dallas Cup, vice-campeões do Paranaense, fomos para as quartas de finais do Brasileiro sub-20 em Porto Alegre, saímos das maiorias das competições perdendo nos pênaltis, etc. Enfim, o objetivo não era somente os títulos e sim dar experiência para esses atletas juntamente com os outros que já estavam no sub-20. Tudo isso foi feito em apenas um ano de trabalho.
Por isso, te falo com tranquilidade que esse ano, se a filosofia for mantida, além de revelar jogadores, as conquistas vão aparecer, pois a experiência que esses atletas adquiriram vai fazer a diferença na categoria.
Por outro lado, o processo de revelar jogadores vai até um limite para nós que estamos na base, pois só se revela jogador se der oportunidade e continuidade, acreditar mesmo nesses jogadores para que eles tenham tranquilidade quando estrearem, e essa oportunidade, infelizmente, não dependia de mim.
Tivemos ainda a mudança de cenário no meio do caminho com a criação do sub-23, onde trabalhávamos com mais ou menos 60 atletas diariamente. Alguns atletas que não faziam mais parte dos planos do clube, que não iriam disputar nenhuma competição e que apenas aguardavam o término do contrato ou a virada do ano para saber o que aconteceria, junto com atletas mais novos com outros objetivos e competições. Mesmo assim, conseguimos levar o trabalho com equilíbrio, profissionalismo e mantendo todos, sem exceção, motivados com nosso trabalho.
Trabalhamos muito com alguns atletas pensando neles dentro do próprio Coritiba, como Walisson zagueiro, Zé Rafael, Rafhael Lucas e outros mais, que estão no atual elenco principal.
5) O Luccas Barreto foi um dos destaques do time Alviverde na Copinha. Atualmente, no elenco principal do Coritiba, não há nenhum jogador com as características dele. Você acredita que o Luccas Barreto poderia ter o mesmo sucesso do Rafhael Lucas neste início de Paranaense caso fosse lhe dada uma chance? Fale um pouco mais sobre esse jogador.
O Barreto é um atleta que está no clube há um bom tempo, já havia trabalhado com ele no sub-17 e tem um potencial enorme.
Há um ano atrás, quando assumi o sub-20, tive uma conversa particular com ele e falei que se realmente ele botasse na cabeça dele que queria ser um atleta profissional, ele seria, mas teria que melhorar a postura, o comprometimento nos treinamentos, a competitividade e colocar o que ele tinha de melhor tecnicamente em beneficio da equipe. Foi isso que ele começou a fazer, o rendimento subiu muito e por isso se destacou na Copinha.
Um atleta técnico, de velocidade, competitivo como ele não se encontra facilmente em qualquer lugar e além de tudo isso é de uma índole maravilhosa, um menino maravilhoso mesmo.
Saber se ele terá o mesmo sucesso que o Rafhael Lucas é difícil afirmar e aí entra aquilo que te falei, tem que apostar, tem que dar oportunidade. Se não der a resposta esperada, o clube perde menos do que apostando em que vem de fora.
Aprendi com grandes treinadores que, no futebol, não existe fogueira e sim oportunidade. Eu estreei como titular contra o Grêmio/RS marcando o Ronaldinho Gaúcho e o Paulo Nunes, acabei fazendo um gol e poderia se dizer que era uma fogueira enorme, mas na verdade foi uma oportunidade que me deram. Agora, se você me perguntar se o Barreto merece uma oportunidade de pelo menos estar no grupo principal, com certeza te digo que sim, e não só ele, tem alguns atletas no sub-20 que já merecem estar com o grupo principal, pelo menos treinando, porque chega num ponto que o atleta entra numa zona de conforto naturalmente porque ele sabe que na base ele é titular e acima da média em relação aos outros atletas da categoria, e aí é a hora de subir para novamente buscar seu espaço e evoluir.
6) Você deixa o Coritiba com mágoas de algo ou alguém?
Deixo o Coritiba com a certeza de que colaborei e que passei para esses atletas aprendizados dentro e fora do campo, porque se você me perguntar se é fundamental você ser ex-atleta para ser treinador eu te respondo que não, assim como não basta só ser graduado e ter o conhecimento teórico. A mescla das duas coisas te faz diferenciado, e, modéstia a parte, eu consigo aliar bem as duas coisas, pois estudo diariamente, lendo muitos artigos, pesquisas relacionadas ao futebol e etc. Mas o fato de você ter vivenciado situações dentro do futebol como atleta, que você sabe que teus jogadores vão vivenciar e ter pensado como a maioria deles, te dá a possibilidade de antecipar e alertar esses atletas para não cometerem os mesmos erros que você cometeu ou viu teus companheiros cometerem dentro e fora de campo. Além disso, a linguagem com o atleta é direta e a confiança quando eles entendem o que você pede é muito maior, é olho no olho, sem recadinho ou "trairagem", e isso o atleta respeita muito.
Você ganhar a confiança de um atleta e fazer ele acreditar no teu trabalho sem perder o comando é o grande desafio de qualquer treinador e isso eu sempre tive com meu grupo, tanto que recebi inúmeras ligações e mensagens de apoio e agradecimento dos atletas que trabalharam comigo, até daqueles que não eram titulares na maioria dos jogos.
Só tenho a agradecer ao clube, à torcida e aos funcionários, porque evolui a cada dia trabalhado no Coritiba e me sinto pronto para qualquer desafio.
7) Quais são os projetos para sua carreira agora? Pretende seguir como técnico das categorias de base ou voltar a treinar equipes profissionais?
Primeiro quero deixar baixar a poeira e pensar com calma no que pode vir pela frente, porque sinceramente meu planejamento era dentro do Coritiba e também buscar meu espaço profissional dentro do clube, mas no momento ainda estamos resolvendo as questões burocráticas de rescisão e estou procurando fazer isso da melhor maneira com o Coritiba.
Assim que resolver isso vamos esperar os contatos que aparecerem e avaliar o que é melhor, independente de ser na base ou no profissional. Como falei, me sinto preparado para ambas situações, até mesmo porque já trabalhei com as duas categorias.
8) Fique à vontade para falar qualquer tópico que não foi abordado na entrevista.
Quero agradecer publicamente ao Coritiba e sua torcida, porque sempre fui muito querido e respeitado por todos, e foi uma honra ter vestido as cores do clube como atleta e como treinador.
Infelizmente se o meu perfil, que é ser um cara dedicado, profissional ao extremo e autêntico, procurando sempre aliar minha experiência prática com estudos teóricos (pois converso com preparadores físicos, professores ou quem quer que seja dentro do futebol sobre qualquer assunto), e sempre pensar no melhor para minha equipe (e consequentemente para o Coritiba), não favorecendo empresários, amigos ou privilegiando A, B ou C, a não ser por méritos técnicos dentro do campo, então realmente meu perfil não se encaixa com essa nova filosofia que será implantada dentro do clube.
Mesmo tendo ouvido o contrário de pessoas ligadas à nova diretoria no final do ano passado, falando que iriam valorizar pessoas identificadas com o Coritiba, ex-atletas que estavam afastados e poderiam colaborar de alguma maneira e passar para os jogadores da base esse sentimento de raiz e identidade dentro do clube, vejo que essa filosofia não será aplicada tão cedo, porém torço e sempre torcerei para o sucesso do Coritiba.
O Coxanautas também permanece à disposição para ouvir a manifestação da diretoria do clube sobre a demissão de Allan.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)