
DINHEIRO
Os torcedores Alexandre Cruz, Fabricio Marques e Cesar Micheviz gentilmente avaliaram, a pedido do site COXAnautas, o balanço do Coritiba relativo ao exercício de 2006, publicado no site.
Confira o que os contabilistas tem a dizer sobre o assunto:
Alexandre Cruz
Analisar um balanço é transformar os dados contábeis em informações úteis, que é o que tentarei fazer.
Em primeiro lugar, é importante falar sobre a legislação. Os clubes de futebol são associações e, portanto, estão sujeitos a leis diferentes de uma empresa comercial, por exemplo.
A área específica para a atividade do futebol sofreu recentemente de uma ausência de normas contábeis específicas. Depois de pesquisar, encontrei um dado que me espantou: o CFC (Conselho Federal de Contabilidade) emitiu as devidas normas para serem exigidas somente a partir do exercício social de 2005. Ou seja: antes disso, a contabilização dos clubes era feita sem o devido rigor.
Pelas demonstrações contábeis do Coritiba, logo percebe-se que foi feita uma auditoria independente, isto é, foi contratado um profissional "de fora" para emitir sua opinião. Duas coisas a serem destacadas:
1) A ausência de provisões judiciais, que são feitas com o objetivo de apropriar custos ou despesas, que, provavelmente ou certamente, ocorrerão. Ou seja, a falta dessa conta pode alterar (e muito) a posição patrimonial e financeira do Coritiba, pois, imagino eu, a soma de processos existentes deve ser de um montante elevado.
2) O alto valor das exigibilidades, que são todas as obrigações da associação.
Após citar o parecer da auditoria, eu poderia destacar aqui vários aspectos, mas citarei apenas os que considero os mais relevantes.
Primeiramente, a diferença enorme dos valores nos balanços de 2005 e 2006. Isso significa que o montante gerado e modificado caiu praticamente pela metade. Veja que somente a conta "Contas a receber" tem, em 2006, praticamente apenas 5% do que apresentou em 2005. Analisando pelas notas explicativas, percebe-se que ocorreu isso em função do recebimento, em 2006, provavelmente, do valor referente à transferência de Rafinha, que foi jogar no Schalke04, da Alemanha.
Para analisar os dados contábeis, utilizarei algumas técnicas simples. Vejamos:
Conceituando: liquidez é a capacidade da empresa de transformar tal conta em dinheiro.
A liquidez geral é de apenas R$ 0,06. Isso vale dizer que, para cada R$ 1,00 de dívida, o Coritiba possui apenas R$ 0,06 de Ativo Circulante + Realizável a Longo Prazo. Isso significa que, se todas as obrigações vencessem hoje, o Coritiba não poderia arcar com todas elas.
Mas, como elas não vencem, podemos utilizar outro índice: a liquidez corrente. Esse índice analisa apenas o ativo e passivo circulantes. A liquidez corrente do Coritiba em 2006 foi de apenas R$ 0,25. Ou seja: para cada R$ 1,00 de obrigação a curto prazo (inferior a 360 dias), o Coritiba tem R$ 0,25 de Capital Circulante.
A situação econômico-financeira do Coritiba é preocupante, infelizmente. O Ativo Permanente representa praticamente 96% do total. Mal resumidamente: o CFC possui muitos valores em imóveis e poucas disponibilidades, comparadas às necessidades das obrigações, é claro. No Passivo, o Capital de terceiros soma quase R$ 30 milhões. É muita coisa, visto que o Patrimônio Líquido (Capital Próprio) soma R$ 23.358.674,04. A isso some-se um déficit de R$ 11.470.010,94 em 2006.
Aqui cabe perguntar: onde está a "gestão financeira" de Gionédis? Não bastassem os vexames no campo, no papel as coisas também não estão nada boas...
Para exemplificar, o total de receitas em 2006 não chegou nem a 30% do montante arrecadado em 2005. Presumo que a queda à Segunda Divisão, somada à falta de vendas de jogadores, tenha acarretado tal resultado.
Poderia enumerar várias questões aqui, mas não quero me prolongar muito. Espero ter ajudado. Qualquer coisa, coloco-me à disposição, como coxa-branca de coração e também como COXAnauta!
Fabricio Marques
Por esse balanço que está aí, eu diria que ainda (eu disse ainda) não estamos totalmente complicados. Vai depender muito das receitas e despesas desse ano de 2007. Mas pode, sim, ser uma tragédia. Se, de repente, o Coxa subir para a 1º Divisão e restabelecer suas cotas de televisão, pode equilibrar o caixa tranqüilamente. Se repararmos bem, o prejuízo (déficit) que tivemos este ano, decorre principalmente da perda das verbas provenientes da televisão. Se observarmos a Demonstração de Resultados, perceberemos que houve uma redução na receita bruta de praticamente R$ 6 milhões, de 2005 para 2006. Não sei exatamente de quanto foi o corte nas cotas de TV, mas com certeza é decorrente disso. Logo, a recuperação das cotas de TV é fundamental para equilibrar o caixa do clube.
Um fato que me chamou a atenção foram os Custos Operacionais do Departamento de Futebol. Esse valor de R$ 17.074.254,02 (uma média de R$ 1.422.854,50 por mês), na minha opinião, está muito alto. Pode ser pelo fato das contratações errôneas, rescisões de contrato e altos salários de jogadores. As despesas administrativas e financeiras (que deveriam estar especificadas na Demonstração de Resultados) também tem um valor muito elevado, mas não sei te dizer o porquê.
Resumindo: acho que tem jeito de melhorar, mas tem que profissionalizar todas as áreas (administrativa, futebol, etc) do clube e, imprescindivelmente, retornar à Primeira Divisão.
Esta é a minha com base no balanço publicado.
Cesar Micheviz
O déficit do clube de R$ 11,5 milhões, apresentado no balanço, é em relação ao Exercício. Ele pode não ser acumulado. Precisamos deixar isso claro.
Isso significa que, no exercício de 2006, o Coritiba teve um déficit de R$ 11,5 milhões. Porém, o grau de endividamento atual do clube poderá ser observado em relação de análises de endividamento no Balanço Patrimonial.
O clube teve um saldo negativo R$ 6.341.113,58 de rendimento com jogos (Público, Cotas de TV) se comparado a 2005.
O clube teve despesas operacionais (Administrativas e Financeiras) no valor de R$ 6.407.058,97. Montante, portanto, superior ao do ano de 2005, onde as despesa foram na ordem de R$ 5.421.148,57.
Isso significa que o clube perdeu rendimentos. Porém, o clube aumentou seu custo operacional, em um ano em que, teoricamente, deveria reduzir custos e fazer cortes para conseguir seu objetivo.
Outro detalhe: o Coritiba teve um Lucro, em 2005, de R$ 10.177.421,53. Porém , com o Déficit no ano de 2006, o Clube acumulou um Prejuízo, para este ano, no valor de R$ 5.859.826,40.
Verificando nosso Passivo, e os percentuais exigíveis a Longo e a Curto Prazo.
Curto prazo: 28,33%
Longo Prazo: 71,65%
A composição do endividamento encontrada foi de 28,33%. Isto significa que, de todas as obrigações que o Coritiba possui junto a terceiros, 28,33% são de curto prazo e os 71,65% restantes são de longo prazo. De forma geral, quanto menor for este índice, melhor. Ou seja, é muito mais conveniente para o Coritiba que suas dívidas sejam de longo prazo, pois assim o Clube terá mais tempo para buscar ou gerar recursos para saldá-las.
Assim, há algumas questões que carecem de resposta, da análise do balanço:
Por que o presidente Giovani Gionédis, sabendo que teríamos uma receita menor com a redução de cotas da TV, com a conseqüente queda para Segunda divisão, teve um custo operacional e administrativo semelhante ao do ano de 2005? Por que nada foi feito em relação a isso?
Por que na Demonstração de Resultados ele não abre a conta de assessoria jurídica? Precisamos saber qual é o montante de despesas que o Clube tem com seu escritório, e se houve alterações, em comparação com o ano anterior.
Finalmente, segundo a análise de endividamento que efetuei, existe uma dívida a longo prazo (Passivo LP) que será problema para o próximo presidente. Hoje, 72% das nossas dívidas são a longo prazo, isto é, o próximo Presidente que assumir o Coritiba pode encontrar um índice maior ainda dessa dívida.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)