
MEMÓRIA
Por Gilson de Paula - para o COXAnautas
Jairo Nascimento foi um dos melhores goleiros da história do Coritiba. Há quem diga que ele foi o melhor. Bem, se foi ou não foi o melhor, é meio complicado de dizer. Uma coisa é certa: o cara é uma figuraça! Daqueles que fazem as horas voarem de tão agradáveis que se tornam. Durante a homenagem que o clube fez para ele, segunda-feira, no Cascatinha, por tantos anos de entrega e dedicação ao Coritiba, o ex-goleiro deu um verdadeiro show quando assumiu o microfone.
Muitos esperavam aqueles depoimentos emocionados, já que não é sempre que se recebe uma homenagem tão linda como essa. Porém, o que se viu foi um boa praça contador de histórias, pra lá de bem humorado, prendendo a atenção de todos com histórias hilárias. Os personagens? Seus companheiros de Clube. Sobrou para todos os que estavam presentes e que tiveram a honra de jogar ao lado dessa lenda viva do futebol paranaense.
A cada dez frases proferidas pelo ídolo eterno da torcida alviverde, uma sonora salva de palmas e muitas gargalhadas. Quanto mais os convidados riam, mais o Jairão se empolgava. A cada minuto aparecia uma história diferente. Como não levei gravador, vou contar apenas alguns dos causos relembrados pela eterna muralha negra do Alto da Glória:
"Tem que apoiar, Dionísio!"
Num passado não muito distante, alguns veteranos foram reunidos para a realização de uma partida de masters. E Jairo contou: "Quando o cara vai disputar uma partida de masters, não é nem porque ele está parando. É porque ele está parado mesmo".
Então reuniram lá vários ex-jogadores e um desses ex-jogadores era o Dionísio Filho, que foi um dos grandes laterais que o futebol brasileiro viu passar. E cada vez que a bola sobrava pra ele, um chato na arquibancada do Couto Pereira começava a cornetear.
O cara queria que o Dionga (apelido do Dionísio Filho) apoiasse, marcasse, fosse à linha de fundo o tempo todo, com aquela barriga toda (risos gerais). Era o Dionísio pegar na bola e o cara gritava: "Vamos, Dionísio. Tá morrendo, infeliz? Apóia, Dionísio!"
Aquilo foi irritando o Dionga, até, depois da décima-terceira cornetada, ele largou a bola, saiu do estádio e foi atrás do chato que estava o xingando. O cara saiu correndo e sumiu pela Perpétuo Socorro que ele não era besta de encarar um negrão daquele tamanho.
Ramirez
Lembra daquela cena fatídica do Rivellino correndo do Ramirez, no Maracanã, e caindo de bunda na escada que dá acesso ao vestiário? A história teve um capítulo a mais. Não foi só aquilo que aconteceu naquele dia.
E Jairo contou o que foi que rolou, mas que ninguém viu: “Eu acho engraçado que tem coisas que todo mundo vê e pensa que foi tudo muito lindo. Mas existem fatos que ficam escondidos e não saem na mídia.
Por exemplo, o que mais passa nos programas esportivos é o Ramirez correndo atrás do Rivellino e eu tomando cinco gols do Dinamite. É irritante isso! Agora, naquela tarde em que o Ramirez deu aquele ‘corridão’ no Rivellino, vocês não imaginam o que aconteceu com o gringo, coitado.
O Ramirez é nosso amigo. É gente boa, mas aquele dia ele se deu mal. Durante a partida, ele levou um sopapo do Rivellino e jurou o bigode. ‘Vou te pegar!’. E terminou o jogo, lá estava o Riva dando entrevista para uma emissora de rádio do Rio de Janeiro, quando o repórter o avisou: ‘O cara tá vindo aí’.
Imediatamente, o Rivellino correu em direção ao vestiário e desceu a escada do jeito que veio. Ralou cotovelo, perna, se quebrou todo, mas conseguiu escapar. O problema é que no banco de reservas tinha o Waldir Perez e mais um monte de bandido ali. E eles viram o Ramirez correr atrás do Rivellino. Coitado do gringo. Mas esse cara apanhou. Vinha um e batia e passava pro outro. O Ramirez ficou todo quebrado. No outro dia, tiraram uma foto do rosto dele e parecia que ele havia batido de frente com um trem. Essa surra ninguém nem imagina que aconteceu”.
Krüger e o sucesso com as mulheres
Essa foi uma das histórias da noite que mais arrancaram gargalhadas dos convidados. Jairo disse assim:
“O Krüger não poderia ficar de fora desse festival de histórias. Como ele era solteiro naquela época, posso contar sem problemas”, disse o Jairo, olhando para esposa do Flecha Loira. “Teve um dia em que Aladim chegou para o Krüger e disse: ‘Flecha, você, feio desse jeito, tem que aproveitar para casar enquanto você está jogando. Depois que parar, vai ser complicado arrumar casamento’.
Depois daquilo, o que se viu foi um verdadeiro festival de mulheres indo aos treinamentos dizendo estar apaixonada pelo Dirceu Krüger. E era uma mulher diferente da outra. Numa semana era uma loira, na outra, uma morena. Na outra, uma ruiva. Na outra, uma de cabelo cacheado e assim por diante. Era 'Krüger lindo pra lá, Krüger meu amor pra lá' e os jogadores começaram a ficar encucados com aquilo. O que será que aconteceu que o Krüger transformou-se no sonho das meninas em tão pouco tempo?
Aí o Aladim foi investigar e, em duas semanas, descobriu que a garota era sempre a mesma. Que ela só mudava a peruca pro Krüger impressionar a rapaziada”.
Esse é o Jairão, uma pessoa nota onze, não só no gramado, mas também fora das quatro linhas. Não é à toa que é um ídolo da torcida e uma pessoa tão querida por onde passa. Parabéns, Jairão! A homenagem foi mais do que justa e é uma grande honra para a história do Coritiba saber que você faz parte dos mais belos capítulos dela.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)