
OPINIÃO
Conforto
Não sei por que alguns fatos acontecem, quando se está longe. Talvez, apenas coincidência. Porém, pode ser uma pegada da vida. É que o fato distante nos imobiliza através de dúvidas, que deixam os sentimentos em desamparo.
Estava bem longe daqui, quando recebi a notícia: Evangelino da Costa Neves morreu. O sentimento que me dominou não foi o de surpresa, como é o que nos domina toda a vez que morre alguém querido. Não foi de tristeza, como é toda a vez que se perde um amigo. O sentimento, que me envolveu foi o de conforto por Evangelino, como o é sempre aquele com o final digno, embora doloroso.
Os minutos, que seguem à notícia dada de longe da morte de alguém que se quer, parecem uma eternidade. Qualquer um de nós camufla as fragilidades, ganha o poder imediato de reprisar fatos, casos e ter reflexos da vida que terminou.
Não sei se por estar longe, ou por ser controlado pelo sentimento de conforto, senti-me tranqüilo. É que ao reprisar a vida de Evangelino, me foi provocado a lembrança de Valkiria, a especialíssima Dona Valkiria, que era tudo, em especial, a própria alma.
Minha fé é de católico. Mas confesso que o sentimento pelo conforto veio da lembrança da cena final do filme “A Casa dos Espíritos”, baseado na obra prima de Isabel Allende, ambientado na tomada do Chile pelo sanguinário Pinochet.
Clara (Meryl Streep), cansada de ver seu amado Estebam (Jeremy Irons), busca-o com seu espírito. Ao som de “La Paloma”, leva-o.
No nosso conto, Valkiria interveio. Levou Evangelino e colocou-o em seu lugar: ao seu lado.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)