
SCOUT
Por Alysson Artuso, físico e pós-graduando em métodos
estatísticos aplicados à engenharia, integrante da equipe COXAnautas
O Scout técnico é uma poderosa ferramenta para auxiliar a preparação de equipes. Percebendo isso e buscando atender seus consumidores, a mídia esportiva tem cada vez mais se preocupado em divulgar estatísticas sobre os times.
Quem acompanhou a Euro 2008 pôde ver o show que a Uefa dá nesse sentido. Durante o jogo acompanhava-se as distâncias percorridas pelo jogador, o número de finalizações, a quantidade de lançamentos tentados, a porcentagem de passes corretos etc. Para quem não viu, o site da competição mostra o nível de detalhamento dos números.
Vamos usar um quesito como exemplo, os passes certos. O passe pode ser dado de várias maneiras como longa, média ou curta distância, ou de um meia para um atacante, ou para um lateral, ou um zagueiro (todos eles são detalhados pela Uefa) e assim por diante. Por isso olhar somente a porcentagem de passes completados pode ser um indicativo, mas não explica muito sobre o comportamento do time, visto que não se conhece a natureza desse passe. E o número absoluto de passes quer dizer menos ainda.
Na Euro 2008, a campeã Espanha foi a equipe com o melhor aproveitamento nos passes, com um índice de acerto de 81,33%, errando somente 106 passes por jogo em média, que também é o menor valor absoluto da competição. Marcos Senna, o grande passador do time, deu quase 56 passes por jogo, errando apenas 6 deles em média.
Vamos agora aos números divulgados pelo site Globoesporte.com sobre os números do Brasileirão 2008. O Coritiba se destaca como o time que mais deu passes errados até agora na competição, com 324 passes errados em 8 partidas, algo como 40 passes errados por jogo.
A verdade é que esse número absoluto não possui significado nenhum, pois o Coritiba pode ter errado 324 passes em 3000, o que seria uma marca incrivelmente boa. Enquanto o Ipatinga, detentor do melhor número, pode ter errado os seus 220 passes entre 250 tentados, uma marca absurdamente horrível. E isso que nem sabemos as características desses passes.
Chama a atenção também a ausência de critérios que definem o que é um passe errado (e o mesmo vale para os demais quesitos). O que se pode ter certeza é que não são os critérios usuais divulgados pela Uefa ou computados em trabalhos científicos, afinal, segundo os números do Globoesporte.com o Coritiba errou somente 16 passes no último clássico. Para se ter idéia do quanto esse número é distorcido, Marcos Senna, o melhor passador da partida final da Euro 2008, errou, sozinho, 9 passes.
Não pode deixar de se salientar que é uma atitude louvável do site computar e divulgar tais estatísticas, visando contribuir tanto para a inclusão da ciência no futebol, quanto na informação aos seus consumidores. Mas é preciso fazer isso com qualidade, com números que sejam realmente elucidativos e não que apenas confundam ao invés de explicar.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)