
CURIOSIDADE
Os acadêmicos de Direito das Faculdades Integradas Curitiba, Aline Pereira, Daniele Teixeira, Leonardo Boguszewski, Marcella Guedes, Mariana Barbosa e Stephanie Schaefer realizaram um trabalho sobre o comportamento das torcidas organizadas de Curitiba.
O trabalho de Sociologia baseou-se em estudos a respeito dos diversos fatores ligados a um grande problema da sociedade brasileira: a violência nos estádios de futebol. Confira:
A pesquisa consistiu em analisar o esporte, desde a sua origem até a sua atual importância na cultura brasileira, constatando as suas diversas conseqüências no comportamento das pessoas. Além disso, analisou, com enfoque principal no Estado do Paraná, a importância das torcidas organizadas no combate à violência.
Como se pôde notar durante a pesquisa, o futebol passou por várias etapas desde a sua introdução no país. Na década de 50, com a consagração da Seleção Brasileira de Futebol, ele se consolidou oficialmente como parte do dia-a-dia da população.
Devido à conquista desse caráter popular, acabou sendo um importante instrumento de alienação política na época da ditadura militar, período em que conseguiu também grande ascensão, não só nacional, mas principalmente mundialmente.
Hoje, o Brasil é o único país pentacampeão do mundo, fato que confirma seu traço marcante na cultura brasileira. Dessa forma, mesmo que o berço do futebol não tenha sido o Brasil, mas sim a Inglaterra, ele representa um fator que contribui diretamente para a unidade e orgulho nacionais. Está presente até mesmo na linguagem, com expressões como “show de bola”, “tirar de letra”, etc.
Esta paixão do povo pelo futebol, porém, acaba causando uma situação de avaliação comparativa, com objetivos competitivos e muita rivalidade. Esses fatores, unidos com o stress da vida social e a ansiedade causada pelo jogo, acabam gerando brigas.
Mesmo que muitos torcedores aleguem que vão aos estádios para incentivar o time e não para brigar, a briga acaba acontecendo, devido aos fatores emocionais envolvidos na situação, a influência de amigos, etc.
Na pesquisa de campo, enquanto que alguns poucos torcedores declararam que a provocação dos times e os cantos das torcidas são um incentivo à violência, a maioria deles acredita não haver nenhum incentivo a tal prática dentro dos estádios.
Nem mesmo a bebida alcoólica, citada na pesquisa teórica. Na questão da violência urbana, responsável pela destruição de patrimônios públicos, os torcedores se mantêm bastante imparciais. As torcidas organizadas acreditam que isto é uma questão social, que deve ser resolvida pelas autoridades. No entanto, as mesmas possuem punições para os torcedores associados que se envolvem nessas confusões.
A Torcida Organizada Império Alviverde, principal torcida do Coritiba Foot Ball Club, na voz do vice-presidente Osvaldo Dietrich, afirma que a mídia é muito sensacionalista. Segundo ele, nos dias de clássicos é dado um enfoque muito grande à destruição dos patrimônios públicos, sendo que os mesmos sofrem uma destruição muito maior em outros eventos organizados pela prefeitura da cidade.
Sobre a violência dentro dos estádios, é possível perceber que uma das torcidas mais atuantes do Paraná Clube, a Paran@utas, tem uma visão semelhante à da teoria. De acordo com Darkles Guimarães e Thaissa Mendes, diretores da organização, existem vários fatores sociais que acabam influenciando na violência urbana. Para eles, que afirmam sempre buscar a paz, a violência exclusivamente dentro dos estádios já é algo inexistente.
A Império Alviverde possui opinião parecida, afirmando que a atual violência dentro dos estádios é bastante pequena, se comparada com a encontrada anos atrás. Osvaldo Dietrich afirma que a organização busca cada vez mais a presença de famílias nos jogos, confirmando ser um interesse de todos o
fim da violência nos estádios.
A Torcida Organizada Os Fanáticos, do Clube Atlético Paranaense, na voz de Maurício de Paulo e Silva e Dráuzio Cordeiro Santos Júnior, enfatiza a importância da polícia nas situações de perigo. Além disso, ressaltam que as gravações feitas dentro do estádio são uma eficiente maneira de evitar a violência, assim como a conscientização feita pela torcida perante seus associados.
Dessa forma, fica claro a atual importância das torcidas organizadas no combate à violência nos estádios do Paraná. Como são de fundamental importância para os jogadores dentro de campo e, conseqüentemente, uma referência para os demais torcedores na arquibancada, elas acabam exercendo grande influência sobre o comportamento daqueles que vão ao estádio torcer pelo seu time de coração.
Por outro lado, as torcidas organizadas são vistas hoje, por grande parte da população, como as principais responsáveis pelo alto índice de violência nos estádios de futebol. É necessário mudar esse retrato, uma vez que a violência encontrada nas praças esportivas é cada vez mais um reflexo da própria violência urbana.
Assim sendo, o papel exercido pelas torcidas tem sido o de prevenir os problemas, através da conscientização de seus associados e da punição àqueles que não mantém um bom comportamento.
É notório que muitas pessoas colocam as torcidas organizadas acima do próprio clube, causando problemas e entrando em confronto com outros torcedores em nome da
organização, no entanto, esse comportamento não condiz com o pensamento dos diretores da torcida, que buscam a cada dia acabar com esse tipo de atitude.
Fica claro, então, que o problema da violência nos estádios de futebol é algo relacionado a uma série de fatores, que necessita de um conjunto de medidas para deixar de acontecer. Na opinião dos torcedores entrevistados na pesquisa de campo, que afirmaram que dificilmente agrediriam alguém em nome de seu time, a prevenção deve ser feita através de um maior policiamento e monitoramento nos estádios.
De acordo com Luiz Henrique Barbosa Jorge, secretário da Diretoria Executiva do Coritiba Foot Ball Club, o problema é que ainda faltam leis para punir de maneira correta os envolvidos em confusão. Atualmente, a maioria dos torcedores presos durante os jogos são encaminhados à triagem da Polícia Militar e liberados após o evento, fato que acaba sendo um grande incentivo para que o problema volte a acontecer.
Como foi exposto no trabalho, uma das alternativas encontradas pelo governo foi a criação do Estatuto do Torcedor, sancionado em 2003 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele prevê normas que regulam a conduta de um torcedor durante um jogo, assim como assegura seus direitos e obrigações perante o clube e as federações.
A grande maioria das pessoas confirma que foi um instrumento importante para a organização dos estádios brasileiros, porém, os clubes ainda relutam em cumpri-lo totalmente, uma vez que acreditam ser de difícil aplicação em curto prazo o que está previsto em seus artigos. Além disso, as torcidas organizadas também possuem o seu próprio estatuto, que ajuda a manter a ordem entre seus torcedores associados.
O maior problema do Estatuto do Torcedor é a pouca divulgação de seu conteúdo. A maioria dos torcedores e até mesmo as torcidas organizadas têm conhecimento de sua existência, mas poucos sabem claramente de suas obrigações.
Além disso, apesar do avanço proporcionado por ele, é fato que ainda faltam leis mais específicas que tratem da violência nos estádios. O ideal seria uma ação conjunta entre as torcidas organizadas, os clubes, os torcedores comuns e a Polícia Militar.
Uma alternativa diferente poderia ser a utilização da Lei no 9.099/95, que, dentre outras coisas, permite que o acusado troque a possibilidade de um processo penal
assumindo a obrigação de fazer ou deixar de fazer algo. Quando a violência nos estádios de futebol ocorre, os envolvidos estão cometendo crimes como crime de dano,incitação à violência, lesões corporais, etc.
Dessa forma, poderia se propor aos supostos réus a seguinte transação penal: pelo prazo máximo legal da prestação de serviços à comunidade, eles deverão prestar serviços públicos, sempre nos dias e horários dos jogos de futebol.
Assim, os estádios brasileiros estariam livres dos responsáveis pela violência e a sociedade de um modo geral ainda sairia favorecida. No entanto, se o réu achar que a
transação proposta é injusta, ele pode optar pela ação penal que venha a caber a cada caso. Essa idéia, defendida pelo advogado paulista Paulo Antonio Papini, parece ser bastante coerente e pode ao menos servir de base para uma nova legislação sobre o assunto.
O trabalho nos mostra, então, que a violência dos estádios está sobretudo relacionada com a violência urbana. Sendo assim, as torcidas organizadas possuem extrema importância e não podem se calar diante dessa situação. É fato que na maioria das vezes elas não possuem a devida autoridade para punir os infratores, porém, através da utilização correta de sua influência perante os outros torcedores, elas podem prevenir a violência de maneira bastante eficiente.
É importante que os torcedores entendam que seu papel é incentivar seu time dentro de campo, fato que não implica em desmoralizar o próximo e entrar em confronto com torcedores de outros times. Além disso, como a rivalidade entre os clubes é que nutre o ódio entre os torcedores, é importante que os clubes também mantenham entre si uma relação amigável, evitando, assim, danos a seus próprios patrimônios.
Assim sendo, busca-se uma tolerância entre as torcidas, para que exista entre elas uma convivência social harmoniosa e os torcedores de times adversários possam se
relacionar em qualquer ocasião, sem quaisquer atos de vandalismo, que trazem danos para a cidade e prejuízos para os cidadãos. Portanto, o trabalho reforça a necessidade de uma legislação eficiente para o combate à violência nos estádios de futebol do Brasil.
Enquanto isso não acontece, porém, espera-se que as torcidas organizadas paranaenses mantenham-se interessadas na paz e continuem agindo para que o torcedor possa comemorar sem ter medo de ser agredido, possa circular sem ser xingado ou desmoralizado por estar defendendo as cores de um determinado time e possa conviver normalmente com outros torcedores, sem ódios ou preconceitos.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)