
ENTREVISTA
Por Thiago Miguel Silva
Sorridente e bem humorado, o ex-presidente Vilson Ribeiro de Andrade recebeu o Coxanautas em seu escritório, na última quinta-feira, para um bate-papo. Afinal de contas, desde que a eleição terminou, Vilson tem se dedicado a seus negócios: "Agora posso voltar a dizer à minha sócia que faço parte disso aqui", diz ele. O ex-dirigente, que permanece utilizando sua gravata verde, tão comum em aparições públicas, também assumiu erros e falou sobre diversos assuntos. Confira abaixo, os principais pontos da entrevista:
Relação atual com o Coritiba
Depois de cinco anos de intensa relação com o Alviverde, Vilson ainda não foi ao Couto Pereira depois que deixou a presidência. Emocionado, ele diz que não é por falta de vontade: "Ponho a camisa, vou até a porta e não consigo passar. Não sei o que acontece. Tive que passar por tanta coisa (voz embargada). É difícil cara...".
De qualquer forma, ele diz que acompanha o time e que pretende voltar ao estádio: "Continuo torcedor e quero que o Coritiba siga seu caminho de vitórias".
Como deixou a diretoria
Vilson também comentou sobre como deixou o clube: "Diferentemente de 2010, quando pegamos o clube com apenas 2,5 mil sócios, com inúmeras dívidas fiscais, cíveis e trabalhistas, estádio interditado e jogadores sem nenhuma vontade de atuar pelo Coritiba, deixamos o clube com mais de 17 mil sócios e com investimentos de mais de R$ 30 milhões no Couto Pereira que, literalmente, estava caindo aos pedaços e hoje é um estádio que dá boas condições aos torcedores e aos atletas, porque também reformamos o sistema de irrigação, drenagem e instalações".
O ex-dirigente também falou da dívida: "Se a dívida aumentou? Não posso te responder, porque quando nós chegamos, o Coritiba simplesmente não sabia para quem devia e quanto devia. Contratamos uma empresa de auditoria que consolidou os 146 processos em andamento e reuniu todos os credores do clube. Chegou-se a um patamar de R$ 151 milhões, que foram incorporados (depois de auditados) nos balanços de 2011, 2012 e 2013. O valor em risco trabalhista era de R$ 273 milhões, considerando multas, juros e correção nas possíveis condenações. Organizamos a dívida, tiramos os esqueletos de 20 anos do Coritiba e tivemos a coragem de reconhecer tudo em balanço", completou.
Números totais da dívida
Vilson também contesta os números apresentados pela nova diretoria que, ao assumir o clube, disse que a dívida total do Alviverde estava em R$ 204 milhões. Logo após, este número foi ajustado para a casa de mais de R$ 220 milhões: "Deixamos o Coritiba com R$ 194 milhões de dívidas projetadas para dezembro e estes números foram apresentados ao Conselho na reunião de outubro, que incluiu a apreciação do orçamento de 2015. Sinceramente não sabemos de onde vem esta diferença, até porque não tivemos acesso aos balanços do fechamento do quarto trimestre e, consequentemente, do ano de 2014, já que a diretoria assumiu no meio do mês".
Vilson também deu detalhes da dívida total: "Destes R$ 194 milhões, R$ 156 milhões são de dívidas em longo prazo (alongadas em prazos compatíveis com o fluxo de caixa do clube), e R$ 33 milhões são de curto prazo e envolvem pendências com a CBF, Banco Central, atletas, contratos a vencer, entre outros. Estes são meus números", apontou.
Principal problema
Do montante total, Vilson também apontou o que, segundo ele, seria o "calcanhar de Aquiles" da dívida Alviverde: "A meu ver, o grande problema é a dívida fiscal, que não foi construída apenas na minha passagem pelo clube. Até novembro, a dívida era de R$ 94 milhões, mas o Coritiba não consegue nem honrar os juros dessas dívidas. É uma bola de neve".
Nesse tema, Vilson explicou o quanto, segundo ele, o projeto ProForte seria importante: "Com a aprovação desse projeto, reduziríamos em 48% as dívidas do clube. Por exemplo, R$ 70 milhões seriam pagos em 20 anos, desafogando um pouco a situação do clube. Aliás, na semana anterior, foi aprovado, na Câmara Federal, o regime de urgência desta lei, da qual trabalhamos ao longo dos últimos dois anos. Será a solução para todos os clubes brasileiros. Talvez este será o meu maior legado ao Coritiba", continuou.
Categorias de Base
Outro ponto levantado pela nova diretoria Alviverde foi o sucateamento das categorias de base. Vilson rebateu frontalmente esta visão: "Foram investidos R$ 40,5 milhões na base nestes cinco anos e o Conselho sabe disso. Foram reformadas instalações, como o espaço Dirceu Krüger e o próprio CT. Então dizer que não houve investimentos na base é omitir os fatos comprovados".
O ex-presidente também contestou o discurso da nova diretoria, apontando para os atletas aproveitados atualmente pelo clube: "Vaná, William Menezes, Ivan, Luccas Claro, Rafael Bonfim, Wallyson, Maranhão, Eberson, Paulo Otávio, Dudu, Rafhael Lucas, Paulo Victor e outros foram formados na nossa gestão. Ora, se a base estava sucateada, porque estes jogadores estão sendo aproveitados agora? É um contrasenso".
Receitas Futuras
Vilson também falou sobre o que o Coritiba tem a receber em 2015: "Parece que deixamos o Coritiba sem absolutamente nada a receber neste ano, mas engana-se quem pensa assim", diz.
Ele também trouxe detalhes da receita: "Alongamos o contrato de patrocínio da Pro Tork para os próximos 8 (oito) anos. Além disso, temos a receber R$ 4,2 milhões da Caixa do patrocínio do ano de 2014 (o dinheiro está embargado pela falta da CND, o que será solucionado com a aprovação da LRFE), R$ 8 milhões de times que devem ao Coritiba (Atlético/MG, Vasco e times da China e Arábia Saudita), R$ 3,8 milhões do pay per view e ainda R$ 16 milhões da TV", diz.
Mais tarde, Vilson continuou apontando as possíveis fontes de receitas: "Sem falar na base de sócios, além de inúmeras parcerias realizadas e que devem ser estimuladas na busca de novas receitas pela atual diretoria. Por fim, temos a vendas de jogadores. Quando assumimos, tínhamos 10% de direitos econômicos de atletas. Ao deixarmos o clube (mês de referência outubro/2014) tínhamos 56% de direitos econômicos de um total de plantel avaliado acima de R$ 70 milhões", detalha. "Claro que tivemos que antecipar as cotas da Globo para fechar as contas, mas o Coritiba ainda tem R$ 140 milhões a receber até 2018. Aliás, quando assumimos em 2010, tínhamos um fluxo negativo de caixa de R$ 76 milhões", finalizou.
Relações com o Atlético
Sem querer comentar muito sobre o assunto, Vilson foi enfático: "Se for para fazer um futebol paranaense mais forte, tudo bem. Mas duvido que as intenções do Petraglia sejam só essas. Eu não sou o único a achar que ele é muito esperto".
O ex-presidente também reafirmou suas convicções: "Tive vários problemas sim, mas não me arrependo de nada e faria tudo novamente. Principalmente não ceder o Couto Pereira a eles. Naquele episódio, enfrentamos a Federação Paranaense e levamos à justiça desportiva a tentativa de outros tentarem impor condições inaceitáveis e prejudiciais ao nosso querido Coritiba", argumenta.
Vida Pessoal
Depois de oferecer alguns goles de água e café e de mostrar, orgulhoso, algumas das salas de seu escritório, na porta da saída, Vilson dá os detalhes de seus planos: "Minha luta continua, tenho ainda mais uma importante batalha para vencer", diz ele, referindo-se à luta para definitivamente eliminar o câncer. "Mas, ah, avisa lá que estarei de volta a tempo de participar da próxima reunião do Conselho. O Coritiba acima de tudo e de todos", diz, enquanto a porta do elevador fecha.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)