
DOSSIÊ
Os administradores do site COXAnautas entrevistaram com exclusividade o Professor Doutor Clifford Stott, da Escola de Psicologia da Universidade de Liverpool, Inglaterra. O Doutor Stott é um dos maiores especialistas sobre comportamento e psicologia em eventos de massa, sobretudo os atos de hostilidade e violência, definidos pela mídia como 'hooliganismo' (movimento dos hooligans, como são chamados os torcedores violentos na Europa).
É dele um estudo, elaborado em conjunto com outros dois especialistas em comportamento de massas da Universidade de Liverpool e da Academia de Polícia holandesa, denominado 'low profile', que teve muito sucesso na Eurocopa 2004 e tornou-se referência pela Europa. O holandês Otto Adango e a alemã Martina Schreiber colaboraram com o Dr. Clifford Stott (foto) na elaboração de uma nova proposta de ação das forças policiais em eventos esportivos na Europa, sem o uso de ações ostensivas e violentas.
Por e-mail, o Dr. Stott faz uma extensa abordagem sobre o assunto, comentando temas tidos por muitos como verdades e por outros como mitos, quando o assunto é a violência dos torcedores.
Confira a primeira parte da entrevista exclusiva:
COXAnautas: Quais são os principais aspectos do sucesso do método “low profile”, no que se refere à segurança da torcida e das ações policiais em partidas de futebol?
Dr. Stott: Quando usamos o termo policiamento “low profile”, estamos essencialmente falando sobre formas não-confrontativas de policiar torcidas. Policiamento “high profile”, por sua vez, é quando a polícia tende a usar batalhões de choque e armas (como canhões de água) de formas bastante ostensivas. A polícia geralmente se utiliza disto para demonstrar sua capacidade de dominar a situação com força subjugadora; em outras palavras, para garantir a ordem por meio de intimidação. O problema dessa abordagem é que pode levar os torcedores a ver a polícia como uma ameaça desnecessária e, portanto, ilegítima.
Também devido à abordagem “high profile”, quando a polícia vai de encontro a uma multidão, ela está muito mais propensa a se utilizar de força indiscriminada (por exemplo um ataque com cassetetes contra uma multidão como um todo, quando apenas uma minoria de torcedores está realmente fazendo algo errado). Esta ação é capaz de unir o que antes era uma multidão pacífica, contra aquilo que ela vê como uma ação ilegítima e, portanto, desencadear uma reação de violência em cadeia. De fato é esta combinação de percepção de ilegitimidade e união de uma torcida que consiste no fator central da dinâmica e psicologia de uma rebelião, não apenas no futebol, mas de um modo geral.
O policiamento “low profile” também é capaz de intervenções à força, mas os batalhões de choque saem de cena, em um primeiro momento. Ao invés disso, policiais em uniformes normais (ou à paisana) são utilizados para interagir com os torcedores, monitorando a situação e levantando informações sobre quaisquer torcedores que estejam propensos a criar confusão.
Esta abordagem “low profile” é eficiente porque a interação amigável com torcedores auxilia a construir uma idéia, entre a maioria dos torcedores, de que a polícia é amigável e não-confrontativa e, portanto, legítima para atuar como protetora dos cidadãos. Devido ao fato de os torcedores verem a polícia como entidade legítima, eles se tornam muito menos propensos a se envolverem em brigas e atos violentos contra policiais. Também, por estarem no meio dos torcedores, interagindo com eles, os policiais são mais capazes de entender precisamente o nível e fontes de risco durante eventos de massa. Sendo assim, se alguma intervenção utilizando força for necessária, eles podem agir rápida e diretamente naqueles torcedores que estiverem agindo de forma anti-social. Aqueles que nada fizeram, portanto, nada sofrem.
Então, o policiamento “low profile” é eficiente porque administra a dinâmica dos acontecimentos em eventos de massa, de maneira a prevenir que a psicologia das rebeliões possa se desenvolver.
COXAnautas: Que situações podem ser apontadas como sendo de maior risco em uma partida de futebol? Seria a rivalidade, a ação policial ou as condições dos estádios?
Dr. Stott: Podem ser muitas coisas, mas o fator mais importante é a interação. Nós sabemos, por nossas pesquisas, que o risco não é devidamente entendido – ninguém realmente sabe o que vai ou não causar uma revolta, uma confusão. Mas, isto dito, nós também sabemos, a partir de nossas pesquisas, que confusões em eventos de massa são sempre associados à interação entre grupos. O padrão desta interação pode ter um tremendo impacto nos níveis de risco em determinadas situações. Então, o que nós argumentamos é que o gerenciamento efetivo das massas está concentrado em administrar os padrões de interação entre os grupos (torcidas organizadas etc.) dentro da multidão. Em se conseguindo isso, tem-se grandes chances de reduzir os níveis de risco presente em um evento de massa. Isto posto, o histórico da interação entre grupos rivais (incluindo torcedores e a própria polícia) exerce um importante papel.
O problema é que mesmo este levantamento histórico pode levar a uma definição imprecisa de nível de risco. Por exemplo, o Manchester United jogou contra o Boavista na Cidade do Porto, em 2002. A última vez que os ingleses haviam jogado lá havia sido em 1997, quando ocorreu uma grande confusão (em conseqüência do mau policiamento). Portanto, a previsão era de risco alto, quando, na verdade, os torcedores do United apresentam baixo risco. Essa previsão equivocada pode acabar levando a uma reação exagerada por parte do policiamento. Por sorte, naquela ocasião não ocorreu nenhum incidente.
COXAnautas: Comparando-se as décadas de 1980, 1990 e 2000 o que mudou no futebol do Reino Unido, no que se refere ao comportamento violento dos torcedores?
Dr. Stott: Esta é uma pergunta difícil, pois não possuo muitas evidências do que acontecia nos anos 1980, no futebol inglês. Nós tivemos grandes desastres em estádios e eventos como Heysel e Hillsborough. Estes fatos realmente movimentaram grandes pacotes de mudanças nas administrações de estádios e torcidas. Por exemplo, hoje temos muito mais câmeras de vídeo nos estádios e a maioria dos grandes estádios têm assentos, e pede-se que as pessoas se sentem para assistir à partida. Isto ajudou a controlar a torcida e levou a uma mudança no comportamento dos torcedores nos estádios – por exemplo, é muito difícil para uma pessoa mudar de lugar no estádio -, mas fora dos estádios ainda existem constantes problemas de violência, e sem perspectivas plausíveis de serem resolvidos.
COXAnautas: Na sua opinião, quais as torcidas mais violentas da Europa? Existe alguma característica, inerente ou adquirida, que tenha levado a essa situação?
Dr. Stott: Pela minha experiência, devo dizer que os italianos são os torcedores mais violentos. Creio que existem diversas razões para isso, mas uma delas é que muitas das formas de regulação sobre as quais comentei acima, que já estão evidentes no Reino Unido, não existem na Itália. Mas também existem importantes aspectos sociais que podem ser delineados – por exemplo, a polícia (e os dirigentes encarregados do futebol e dos estádios) permitem que os torcedores italianos atirem objetos nos torcedores visitantes (como garrafas) e nada fazem para prevenir isso.
Eu vi atitudes como essas levarem a retaliações dos torcedores ingleses e, ao invés de controlar a torcida italiana, a polícia local atacou com cassetetes os torcedores ingleses, vítimas num primeiro momento. Em conversa com policiais italianos, alguns me disseram que eles jamais iriam contra as torcidas organizadas italianas, pois isso levaria a tensões nas ruas que seriam ainda mais difíceis de administrar. Então, pude sentir que na Itália os torcedores violentos tomaram setores do estádio e podem atuar da maneira que quiserem, pois sabem que a polícia nada fará contra eles.
De qualquer forma, penso que deveria ser um consenso que é improdutivo tentar relacionar a violência a grupos predeterminados (poloneses são mais ou menos violentos que alemães, e assim por diante). Isso realmente tira o foco do fato que a violência é resultado de situações e relações sociais, e aspectos psicológicos dentro destas situações. Então, os processos que levam à violência, ocorrem (ou podem ocorrer) em todas as sociedades.
COXAnautas: Quais são as principais diferenças no comportamento violento de torcidas em partidas internacionais e clássicos locais?
Dr. Stott: Penso que as diferenças centrais residem na história e na organização, mas também na compreensão cultural. Nas ligas domésticas, os times jogam entre si todo ano e os grupos de hooligans têm um nível de organização e história que não se vê em partidas internacionais. Deste modo, em partidas entre times locais, as torcidas organizadas podem se confrontar entre si e o histórico dessas brigas alimenta mitos sobre o poder e a posição de uma torcida em relação à outra. Em partidas internacionais, esse nível de organização é menos evidente.
A violência aqui (na Inglaterra) é mais freqüente quando torcidas locais respondem a esse mito dos ingleses como hooligans e os enfrentam para ganhar status local ou em confrontos com a polícia, por policiamento hostil (ou “high profile”), sobretudo porque a polícia interpreta comportamentos corriqueiros dos torcedores como hooliganismo (por exemplo, beber em grandes grupos).
Aguarde a publicação da segunda parte da entrevista, que contém mais seis perguntas ao Dr. Clifford Stott e que irá ao ar na quarta-feira, 30.
Para conhecer mais sobre o currículo do Dr. Stott e detalhes sobre seus trabalhos, clique aqui.
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