
ARTIGO
O professor Martin Curi, sociólogo de futebol e pesquisador escreve artigo sobre a mercantilização do futebol. Martin é natural de Nuremberg, na Alemanha, e reside no Rio de Janeiro, onde atua como pesquisador do Instituto Virtual de Esporte, Rio De Janeiro, tendo prestado consultoria na Copa do Mundo da Alemanha 2006.
Confira o artigo que trata de um exemplo bem próximo de degradação do futebol em função de uma mentalidade estritamente mercantilistas:
“Paranaense” ou a destruição da cultura do torcedor pela mercantilização do futebol, por Martin Curi
Nesta semana uma entrevista com o presidente do Atlético/PR, Mário Celso Petraglia sacudiu os torcedores paranaenses. Os seguidores do Atlético devem ter ficados assustados e os fãs do Coritiba e do Paraná devem ter ficados felizes. Por que isso?
Porque Petraglia simplesmente anunciou a desconstrução do Atlético/PR como clube tradicional e bem quisto, pelo qual outrora foi conhecido. O presidente - ou dono, como ele quer ser chamado - tem a visão de uma empresa de entretenimento sem alma e sem torcedores, mas com consumidores e – obviamente – lucros.
Os primeiros passos desse plano, já aconteceram na forma de um estádio estéril, chamado moderno, que exclui qualquer atmosfera e cultura de torcedores. Canções, danças e criatividade não são mais desejados. O espectador deve deixar dinheiro, não opiniões.
Agora ele anunciou que este estádio não vai ter espaço para torcedores organizados. Deliberadamente vai ser excluído um grupo de pessoas. E este grupo não é qualquer um, mas sim o de pessoas que sustentam toda a atmosfera e a experiência única que a visita a um estádio representa. Estes consumidores que Petraglia deseja não são capazes de criar esta cultura. E, aliás, eles não querem só consumir o jogo e a comida, mas também o ambiente. É bem provável que, sem torcidas organizadas, também não vão haver consumidores.
Agora acontece o segundo passo, que consiste na mudança do nome. Um clube de futebol é a origem de identidade de milhares de pessoas, algo parecido com o país de origem. Imaginem se amanhã vem alguém e declara que o Brasil não se chama mais Brasil, mas Consórcio de Minerais e Agricultura S.A. O que vai achar?
Primeiro ele descaracteriza o estádio, considerado templo pelos torcedores, depois muda o nome do clube e depois fica surpreso porque os jogos ficam vazios. Agora reclama, que não consegue vender os carnês de temporada. A diretoria do clube paranaense acha que seus torcedores são uma falácia. Na verdade, o clube de quem estas pessoas eram torcedores não existe mais. Porque então deveriam comprar ingressos por aquele outro clube chamado Paranaense?
Conseqüência lógica é que o clube fica sem dinheiro e vai à falência. Mas o dono do Paranaense já tem a solução: vai vender para algum consórcio estrangeiro. Ele fica com o lucro para a aposentadoria e o povo fica sem time, definitivamente.
O problema descrito não é exclusivo dos atleticanos, mas sim de todos os torcedores brasileiros e talvez no mundo. Os estádios do Rio de Janeiro (Engenhão e Maracanã) acabaram de passar pela reforma do Pan. Resultado: são agora chamados “All-Seater” ou seja estádios sem geral, totalmente chocadeiras encadeirados, onde todo mundo deve ficar sentadinho. Torcida organizada, batucada, canções, alegria e vida? Não obrigado, por favor em outros lugares. Futebol está se tornando um espaço para consumidores.
E outra coisa: você consegue imaginar uma vida sem AtleTiba?
Nota: A opinião do autor não representa necessariamente a opinião da equipe de administradores do site COXAnautas, que tão-somente cedeu o espaço à publicação.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)