
ÍDOLO
O site Coxan@utas também tem o objetivo de ampliar a participação do internauta torcedor do Coritiba. Por isto a equipe do site cria mais um espaço para o torcedor do Coritiba Foot Ball Club colaborar com a história do Clube.
Neste espaço o torcedor do Coritiba poderá relembrar dos seus grandes ídolos que já pisaram no sagrado gramado do Estádio Couto Pereira, o Alto de tantas Glórias.
O primeiro Coxan@uta a participar desta nova fase do site é Ricardo Carvalho. Ricardo conta um pouco da história de seu maior ídolo Coxa, o ponta esquerda Pachequinho.
O torcedor Coxa interessado em participar da seção Os Ídolos da Torcida Coxa pode mandar uma mensagem para o endereço coxanautas@coritiba.com contando um pouco da história e das lembranças que um jogador do Coritiba deixou no seu coração de torcedor.
Pachequinho
Já existe uma geração de torcedores que não viu ou não lembra dele jogando. Durante quase toda a década de 90, naqueles que talvez tenham sido os piores anos da história do Coritiba, ele foi o maior, e talvez o único, motivo de alegria e orgulho para a torcida Coxa-Branca. Rápido, habilidoso, baixinho e veloz, o Pachequinho impressionava também pela garra, pela vontade e pelo amor com que vestia a nossa camisa. Alguns o chamavam de “Formiga Atômica”, outros de “O Endiabrado”. Antes do time entrar em campo, todos gritávamos em uníssono, num misto de raiva e esperança: “al, al, al, Pachequinho é animal !” Era uma maneira de extravasar e de dizer: “tudo bem, estamos na segunda divisão e há muito tempo não somos campeões, mas o Pachequinho é nosso !”.
Honestamente, não posso dizer, de bate-pronto, se ele era realmente ponta-direita ou ponta-esquerda. Tenho gravadas na memória jogadas maravilhosas dele por todos os setores do nosso ataque. Pela direita, um “já-vai” humilhante no pobre lateral atleticano, seguido de um cruzamento milimétrico na cabeça do nosso centro-avante, que nem precisou pular para estufar as redes do rival; pela esquerda, uma sensacional seqüência de dribles em dois marcadores paranistas, culminando com um pênalti escandalosamente não marcado; pelo meio um gol de voleio, seco, irretocável. Eram arrancadas fulminantes, toques de classe, dribles inacreditáveis, tudo isso sempre com pelo menos dois adversários no seu encalço. E gols, muitos gols. Sempre bem posicionado na área, não era raro vê-lo marcar de cabeça, apesar da baixa estatura. Em discussões menos acaloradas, até os torcedores dos outros times admitiam: “quando o alto-falante anuncia o Pachequinho, dá um frio na barriga”.
E dava mesmo. Certa vez, o Paraná era o franco favorito para um clássico no Pinheirão. Para piorar, a ausência do jogador, que ainda se recuperava de uma contusão, tinha sido anunciada durante toda a semana anterior. A poucos minutos do início da partida, começa a divulgação das escalações. No último nome Coxa, uma breve pausa e os altos-falantes anunciam: “camisa onze ... P-A-C-H-E-Q-U-I-N-H-O”. Parecia a voz trovejante e salvadora de Deus. Silêncio na torcida tricolor e uma explosão de alegria na torcida alvi-verde, que comemorava como se o time tivesse marcado um gol. Era tudo armação para confundir os adversários e a bomba de efeito moral quase deu certo. Empolgados com a sua presença, e contra todos os prognósticos, em campo fomos para cima, tomamos conta do jogo, dávamos uma aula de futebol. O craque, pra variar, estava com a macaca; dava pena da zaga adversária. Não demorou muito e saiu um pênalti para nós. Só para lembrar, eram anos complicados. O Norberto bateu e o Régis defendeu, até que com facilidade. Daí pra frente o Paraná cresceu e acabou ganhando o jogo...
Apesar de nunca ter ganhado um único título como profissional, ele vai estar para sempre nas mentes e nos corações alviverdes. Afinal, quem já teve a felicidade de ver o seu time marcar um gol olímpico? Pois o Pachequinho deu essa imensa alegria para a torcida naquele histórico 4x0 sobre o Paraná, que levou o Coxa a ficar bem perto da tão sonhada classificação para a primeira divisão do Brasileiro (como já disse, aqueles eram anos muito difíceis e, como todos sabem, fomos impiedosamente roubados na fase seguinte e decisiva, naquele fatídico jogo em Campinas...). Gol de bicicleta? Teve também, um perfeito, antológico, com pedalada e tudo mais, no gol da curva de entrada do Couto, em um jogo, se não me engano, contra o União Bandeirante.
Claro que tanta categoria, tanta habilidade, tanto futebol não ficavam impunes. A arma dos seus marcadores era a pancadaria. O problema disso é que o Pachequinho não sabia fazer corpo mole. Com ele, não tinha bola perdida, não lembro dele tirando o pé em dividida uma única vez. Em uma ocasião, no intervalo de um Atletiba no Pinheirão, o repórter Ney Inácio se infiltrou no vestiário rubro-negro com câmera e microfones escondidos e gravou, ao vivo e a cores, para quem duvidava que isso acontece no futebol, as ordens do técnico Leão: “... o Pachequinho está infernizando a nossa vida. Cara(...)! Um tem que chutar ele pela frente, o outro por trás !” Não adiantou, ganhamos aquela por 2 x 0, com direito a show do Endiabrado.
Mas nem sempre era assim. Em outra vez, numa quarta-feira à noite, o Coritiba jogava em casa contra o Londrina. De pé no retão da Mauá, eu esperava, como tantos outros, a volta do ídolo, que vinha de uma longa recuperação. No início do segundo tempo, subiu a placa número onze; vê-lo entrar em campo era como rever um velho amigo. Na primeira bola que recebeu, rolou de lado. Na segunda, não se agüentou: passou pela marcação do primeiro e, já na intermediária adversária, ergueu a cabeça, estufou o peito e partiu com ela dominada, em direção à grande área. Prendi a respiração. Das cadeiras, talvez alguém tenha visto meus olhos brilharem lá do outro lado. Dava pra sentir no ar o cheiro de gol. Só que o zagueirão pé-vermelho também deve ter sentido: sem dó nem piedade, entrou com as travas levantadas num carrinho voador e destruidor, num lance semelhante ao que afastou o Zico quase que definitivamente dos gramados naquele jogo contra o Bangu. A marca das travas ficaram nas pernas do craque e lá vieram muitos outros meses de afastamento. Desconfio que o Pachequinho nunca mais foi o mesmo depois daquele lance.
Há algum tempo atrás, fui jogar bola com a turma. No bar ao lado da quadra de grama sintética, lá estava ele, chinelos, bermudas e camiseta, tomando cerveja com os amigos. Olhando a cena, ninguém diria que estava ali um dos maiores craques da história do futebol paranaense. Encabulado, não fui pedir um autógrafo, afinal não fica bem essa história de marmanjo tietar marmanjo, ainda mais na frente da marmanjada. Em casa, mais tarde, me arrependi. Devia ter dito, pelo menos, “Pachequinho, muito obrigado”.
Ricardo Carvalho
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)