
ENTREVISTA
O jornalista Róbson De Lázzari, da Gazeta do Povo, entrevistou com exclusividade o treinador do Coritiba, René Simões (foto).
A matéria publicada neste domingo, 9, traz entre outros assuntos, detalhes sobre preconceito, pressão, de Ênio Andrade e dos principais adversários do Cori no Brasileirão. Confira:
Sua carreira deu muitas voltas. O que você destaca de mais importante?
O que mais me valorizou não foi como profissional, mas sim como ser humano. Tive a oportunidade de viver em várias culturas e povos diferentes. Ninguém é tão ignorante que não tenha algo para ensinar e ninguém é tão culto que não tenha algo a aprender. Em termos de futebol e conquistas, foram tantas e tão diferentes situações que todas tem um saborzinho especial. Desde o Mesquita e a condição de pobreza que o pessoal tem lá na Baixada Fluminense, até a discriminação e pobreza na Jamaica. Mesmo com a soberba dos árabes, conquistamos a primeira Copa que o Al Rayan, no Catar, nunca tinha conseguido em 33 anos de existência. Na seleção feminina também foi uma conquista bonita. Por mais incrível que pareça todos esses trabalhos tiveram um laço de preconceito com a conquista e com o pessoal que trabalhava.
E qual foi o preconceito encontrado no Coritiba?
Estar na Segunda Divisão. Um clube que tem o maior número de títulos e a maior torcida do estado fora da Série A deixa todo mundo se sentindo mal, para baixo.
Dos seus outros trabalhos qual mais se assemelha ao Coritiba?
Não tem nada que possa se comparar ao Coritiba. Nos outros lugares em que trabalhei a vitória era importante, mas no Coritiba é a única coisa. Se o time não subir isso aqui vai ser uma dificuldade só no ano que vem. Penso muito nos funcionários. É diferente da pressão de quando eu trabalhei no Vitória, que também estava na Segunda Divisão. Aqui não, com o P. Clube e o A. Paranaense na Série A, a dor é muito grande.
Essa pressão influi em campo pela base do time ser jovem?
Apesar de pouca experiência são jogadores de muita qualidade. Pela experiência que vão adquirir eles irão melhorar. É o que chamo de inteligência emocional. Você vai na universidade, pega pessoas extremamente inteligentes, mas quando saem para o campo de trabalho às vezes não conseguem produzir.
Você é um técnico diferenciado?
Sou um técnico do jeito que gosto de ser. A opinião das pessoas eu escuto, avalio, mas elas não determinam quem eu sou e o que vou fazer. Faço o que acho que tenho de fazer, mas converso com minha comissão técnica, mudo de opinião e me lembro até do Juscelino Kubitschek. Uma vez ele assinou um decreto e um ministro chegou e disse: “Presidente, o senhor mudou de idéia”. E ele respondeu: “Mudei sim, não tenho compromisso com o erro”. Eu também não.
Em quem você se inspira no trabalho de técnico e qual é o grande treinador do Brasil hoje?
O Vanderlei Luxemburgo é o melhor da atualidade. É aquele ame-o ou deixe-o, as pessoas ou gostam ou não gostam dele, mas como treinador ele sabe arrumar, montar e remontar uma equipe. Agora tem alguns grandes treinadores como o Tim, por exemplo, que não perdia o segundo tempo. Observava o primeiro e no segundo mudava. Me preocupo muito com isso e fico frustrado quando ocorre o oposto comigo. Cheguei a conhecer um pouquinho do Ênio Andrade e achei perfeito na forma de dar treinamento tático. Vi também o Telê Santana. Ele tirava 100% do jogador.
O episódio ocorrido após o jogo com o Gama já está superado?
Está sim. Foi um episódio em que todos, inclusive eu, aprendemos um pouquinho, então ficou a lição.
Como é sua relação com o presidente Giovani Gionédis?
A relação está ótima. Não tem problema nenhum.
Quem entrou no vestiário lhe ofendendo?
Ninguém ofendeu. Foi um momento de desabafo e cada um entendeu de forma diferente. Só que eu tenho de ser profissional. O nome não importa. Não falei ainda e desde o momento que sentamos e conversamos está tudo bem.
Quem são os maiores adversários por uma das quatro vagas na Série A?
O primeiro é o próprio Coritiba. Toda essa pressão que está colocada por esta situação de estar na Segunda Divisão e os rivais na Primeira. É também um período eleitoral e em qualquer clube é difícil de se passar. Há também uma chance de no ano que vem só dois subirem. A preparação para o centenário do clube que na Segunda Divisão seria meio complicado. São ingredientes que temos de vencer.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)