
CURIOSIDADE
De bola e literatura
Vinte pras dez da noite. Olho pro relógio e percebo que hoje o dia de trabalho foi longo. Nem tempo pra conferir as horas tive. Por isso me surpreendo pelo adiantado da hora. Tudo bem: agora meu destino é minha casa, minha cama, minha tv, meu travesseiro... Antes, um detalhe importantíssimo - a seleção de o que vou ler no ônibus no longo trajeto até chegar em casa.
A Folha de São Paulo não vai dar. O maldito entregador de jornal ao invés de arremessar a Folha pra dentro do meu quintal acabou se confundido e deixando o Valor Econômico na minha calçada. Como notícias econômicas não são lá muito atrativas para se ler em trânsito, desisto. A Gazeta do Povo já li de manhã, bem como os outros jornais daqui de Curitiba. Pra piorar não tenho nenhum livro na bolsa. Enfim, vou ter que apelar pra Época que o Samuel deixou dando mole em cima da mesa dele. Dito e feito - amanhã eu devolvo. Juro!
No fim da revista, chego a um texto sobre um escritor da nova geração da literatura americana. Um tal de James Frey, que segundo o próprio título da matéria dizia ("Ríspido, metido e talentoso"), me parece ser um belo de um pedante. Aos 33 anos, o cara diz que pretende ser o maior escritor de sua geração. Até aí, nariz empinado suficientemente possível de se agüentar.
Mas eis que na última pergunta da repórter, o cara solta essa: "Quero ser diferente de tudo o que já foi feito antes, e acho que nunca ninguém escreveu como eu. Mas é claro que tenho semelhanças com outros escritores americanos, como Hemingway, Bukowski ou Jack Kerouac. Dou continuidade à tradição deles". Vá se foder! Tudo bem, os três tinham em comum a vida errante e o texto direto, seco. Mas daí a dizer que se é uma mescla dos três. Muita petulância pra uma única pessoa!!
Fazendo o comparativo do nosso geniozinho e tranportando a querela pra esfera da bola, tentei me lembrar de alguém que pudesse aglutinar três características tão ímpares. Simplesmente não existe.
Não há nenhum jogador de futebol que consiga ao mesmo tempo ter o ímpeto do garanhão e encrequeiro Hemingway, a incoseqüência e ternura do velho Buk e a libertinagem e o poder visionário do andarilho maluco Kerouac. Por outro lado, pensei, mas cada pode muito bem ter seu similar dentro do campo.
A partir desse ponto, resolvi relecionar meus onze escritores preferidos - um time completo - com seus onze similares dentro de campo. Tentei encontrar um equivalente
a Pelé, mas não deu. Pelo menos até se descobrir quem é o autor da Bíblia...
Ernest Hemingway - De caráter explosivo, porém de um talento fora do comum, dentro de campo o autor de "Adeus às Armas" e "Por Quem os Sinos Dobram" poderia muito bem ser comparado a Rivelino. Dois gênios difíceis de lidar, porém companheiros e competentíssimos.
J.D. Salinger - Assim como o autor do clássico adolescente "O Apanhador no Campo de Centeio", Tostão também teve um longo período de isolamento após largar o futebol - desde que optou pela reclusão voluntária numa fazenda do interior dos Estados Unidos, ainda na década de 60, o "pai" de Holden Caulfield nunca mais escreveu. Para nossa sorte, Tostão resolveu aparecer de volta e hoje nos passa seus conhecimentos através de excelentes comentários. Guardadas as devidas proporções, tão bons quanto os textos de Salinger: cheio de humanidade e embasamento, mas verdadeiros tapas na cara.
Gabriel García Marquez - Com um texto redondo e preciso, em que a imaginação vai longe, mas sem se perder em devaneios inúteis, a literatura de Marquez lembra o utebol de Zico. Clássico, simples, eficiente, porém mágico. Assim como o autor colombiano, o Galinho conseguia transformar o simples em fantástico.
Charles Bukowsky - Esse não há como não remeter a Garrincha. Não só pela simples companhia do álcool, que ambos tanto adoravam. Também pelo caráter fanfarrão e o
estilo de vida desregrada. Dos dois lados da moeda, sujeitos que não ligavam pras coisas do dia-a-dia, como contas a pagar ou compromissos profissionais. O que interessava, para ambos, era a diversão pura e simples, seja caçando passarinhos com os amigos em Pau Grande, seja torrando toda a grana do mês nas pistas de cavalos de Los Angeles. Além desses fatores, há ainda a sexualidade. Garrincha, uma máquina de fazer sexo. Bukowsky, também conhecido como o "velho safado", uma máquina de escrever indecências.
John Steinbeck - Assim como o escritor americano conseguia jogar pitadas de humor em seus textos referentes à fase negra da história norte-americana, no período de
depressão, após o crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, Toninho Cerezo amenizava um pouco as dores da derrota em campo, como na dolorida queda em 82. Da desgraça, os dois conseguem encontrar o bom-humor.
John dos Passos - Defensor dos direitos sociais e crítico do american way of life, conforme muito bem demonstra a trilogia "USA", esse americano de origem portuguesa é o Sócrates da literatura. Polêmico e ferrenho defensor de seus ideais. Assim como o doutor, líder da "Democracia Corintiana". Para os dois, só há um lado: a esquerda.
Nick Horby - Talvez pela idade, talvez pelo gosto pela cultura pop, o autor de "Alta Fidelidade" e "Grande Garoto" está para a literatura assim como Casagrande está para o futebol. E mais: um já rondou a área do outro. Enquanto Casão é constantemente visto em shows de rock e tem uma coluna esportiva de caráter, digamos, um pouco menos rançoso e mais conceitual do que as similares escritas por ex-jogadores, Horby é um doente por futebol. Na relidade, doente pelo Arsenal, conforme demonstra o livro "Febre de Bola".
Érico Veríssmo - Não apenas pelo fato de serem conterrâneos - está certo, bem sei que Falcão é catarinense de nascença. Porém, sem a menor sombra de dúvida, gaúcho de alma. E assim como o pai do Luís Fernando, colorado até o último fio de cabelo. Mas as semelhanças vão além. Em ambos está presente o estilo, a elegância, o respeito ao próximo - no caso de Falcão, aos adversários, que nunca receberam uma botinada do melhor volante do Brasil de todos os tempos; no de Érico, na sua humildade, expressa através dos sentimentos humanistas em seus textos.
Jack London - Eis o errante, o incontrolável, o homem que não segue regras e nem recebe ordens. Tal qual o aventureiro autor de "Caninos Brancos" e "O Chamado da Selva", Edmundo é incontrolável. Não à toa o chamam de Animal. Como London sempre comparava os sentimentos humanos aos comportamentos das feras selvagens, a relação cai muito bem.
Graciliano Ramos - Em ambos, o comportamento avesso ao do nordestino convencional. No lugar da espontaneidade, a introspecção. Assim como o alagoano Graciliano era fechadão e calado, o é também o pernambucano Rivaldo dentro de campo. Mesmo com tamanho silêncio, Rivaldo é capaz de fazer maravilhas com a bola nos pés. Tal qual Graciliano fez com a pena nas mãos ao escrever "Vidas Secas", "Angústia", "Memórias do Cárcere"...
Jack Kerouac - Essa comparação é muito mais pelo estilo de vida "não to nem aí". Se por um lado o franco-canadense Kerouac optou por largar tudo e desbravar a América de dedo em riste pedindo carona, tudo muito bem narrado no maravilhoso "On The Road", Marinho Chagas, lateral da Copa de 74, preferiu o sol acolhedor do Rio Grande do Norte, as dunas de Jenipabu para viver após deixar a bola.
Marcos Xavier Vicente
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Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)