
LITERATURA
CAMPEONATO PARANAENSE DE 1989
POR ELAS FAZEMOS QUALQUER COISA!
Por Gilson de Paula
Não adianta negar. Nós homens, vivemos em função delas. Se a gente toma banho é por causa das mulheres. Se compramos um carro pra rodar por aí é pra ver se conseguimos impressionar uma delas. Se a gente faz a barba, corta a unha, faz musculação, cooper é porque tem mulher por perto. Até emprego um homem é capaz de arrumar por causa de uma pessoa do sexo feminino. Eu fazia tudo isso e mais um pouco por causa da Salete.
Meu nome é Lacerda, mas como viviam fazendo rimas infames com meu santo nome por onde quer que eu fosse, resolvi adotar o apelido de Periquito, já que o periquito é um bicho verde e verde é uma das cores do meu Coritiba Foot Ball Club. Mesmo assim, sempre aparecia um engraçadinho rimando Lacerda com outras coisas. “Lacerda. O cara que só fala bobagem”.
1989. Meu amor por Salete nasceu após uma partida entre o meu Coritiba e o A. Paranaense. Lembro como se fosse hoje. Ela ali, com um walkman no ouvido, provavelmente escutando os detalhes do jogo na Rádio Clube e esperando o ônibus chegar. Ela não era assim um exemplo de magreza, mas tinha um olhar que me deixou enfeitiçado. Aquela tatuagem em forma de uma bola de futebol nas costas dela também me levou os trocados. “Se essa garota for Coxa-Branca, chegou a hora de me casar”, pensei, enquanto apreciava cada centímetro daquele corpo. E eram muitos os centímetros.
Não resisti. Aproximei-me e, para minha decepção, ela segurava uma bandeira minúscula dos caras lá de baixo, que acabara de perder para o meu Coritiba por 2x0. Num esforço terrível, disse que o time dela havia jogado bem, que o resultado havia sido injusto e arrisquei perguntar se ela não estava afim de comer um sanduíche de mortadela com queijo. Ela nem olhou na minha cara. Apenas respondeu: “Vamos nessa, carinha”. Foi a frase mais linda que já ouvi na vida.
Sabe como é, né? Queijo rima com beijo. Pão rima com mão. De modos que, de rima em rima acabou surgindo um grande romance. Ela tinha umas manias estranhas, mas eu fingia que nem via quando ela cuspia no chão ou tirava tatu do nariz e colava a meleca na parede. Suas frases também não eram muito poéticas. A cada dez palavras, oito palavrões em média. A cada palavrão, a cada cusparada, mais eu me apaixonava.
Afinal, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a música está nos ouvidos de quem ouve. Nossa, nada a ver essa frase que acabei de dizer. O que eu quis dizer é que, quando se está apaixonado, os defeitos transformam-se em virtudes e os erros viram atitudes que jamais a gente vê. Tudo a gente aceita quando está apaixonado. E não há nada de errado porque amar é bom demais. A gente tolera tudo. Até mesmo o fato dela torcer para aquele timinho de merda lá de baixo.
Nosso amor era cada vez mais lindo. Jogávamos pipoca um no outro em câmera lenta enquanto sorríamos, felizes, no meio da rua. Eu ligava para Antena 1 e oferecia as mais belas canções de amor para o meu benzinho.
Mas vamos deixar a Salete um pouco de lado e falar de futebol, que é o que mais interessa a você, caro leitor. Apesar de todo o esforço dos dirigentes, que fizeram de tudo para transformar o Campeonato Paranaense daquele ano num lixo, nós da família alviverde dávamos risada até mesmo quando batíamos a canela no canto da cama. Nem mesmo os constantes aumentos no preço da cerveja e da gasolina conseguiam tirar o sorriso da cara da torcida alviverde. Nosso time empolgava até defunto. Tinha um pôster do Chicão na parede do meu quarto e era só eu olhar pra cara do nosso artilheiro e adeus mau humor.
No meio de tantas lambanças dos cartolas, lembro que o placar de 0x0 não dava ponto pra ninguém. Eu até poderia tentar contar a fórmula de disputa do Estadual, mas você aí não iria entender nada, tamanho o número de quadrangulares, turnos, returnos e jogos extras. Só sei que colocaram os ricos de um lado e os pobres do outro, por causa do famoso Clube dos Seis, criado naquele ano pelos grandes do futebol paranaense.
Como o Coritiba era imbatível, foi atropelando quem aparecia em sua frente. O time lá de baixo levou altas surras. Até mesmo naquele jogo em que a torcida Coxa boicotou a partida, o Tostão fez a festa da galera, dando um verdadeiro show de bola nos atleticanos, no Pinheirão, que era, então, a casa dos caras lá de baixo. No final das contas, o Coxa foi campeão da chave dos ricos e o União Bandeirante foi o campeão da chave dos pobres. Os dois times iriam fazer a decisão do campeonato.
Como o estádio Comendador Meneghel não tinha estrutura para abrigar uma final de campeonato paranaense, os dirigentes decidiram que os dois jogos seriam realizados em Curitiba. No primeiro deles, o Coritiba entrou em campo meio jururu e as coisas não aconteceram como a gente imaginava que poderiam acontecer. Um 0x0 bem sem-vergonha, que deixou a torcida meio chateada.
Eu estava tão empolgado com aquele time e com a minha vida amorosa que resolvi pedir a mão de Salete em casamento. Só que, para minha surpresa, ela hesitou, olhou bem no fundo dos meus olhos e disse:
“Eu caso com você, luz da minha vida. Mas antes preciso de uma prova de amor”.
“Ora, ar que eu respiro. Por você eu faço qualquer coisa. Pode pedir o que você quiser”.
“Quero que você torça contra o Coritiba nessa final contra o União Bandeirante e, depois dessa decisão, passe a torcer para o A. Paranaense. Se fizer isso, eu me caso contigo e seremos felizes para sempre”.
Veio o segundo jogo e o Coritiba começou a pressionar desde o primeiro minuto. O meio-de-campo alviverde era melhor que o time inteiro do Lazaroni que disputava a Copa América e que disputaria a Copa da Itália no ano seguinte. Oswaldo, Serginho, Carlos Alberto Dias e Tostão. Uma verdadeira máquina de dar 'Olé!'. Lá na frente, o artilheiro Chicão e ele, Kazuo, o japonês voador do Alto da Glória. Nem precisava de zaga, mas ainda havia o esforçado Gerson no gol, os laterais Pecos pela esquerda e o excelente Ditinho pela direita, além dos zagueiros João Pedro e Vica. Uma verdadeira constelação. Dava até dó dos adversários.
O gol, quer dizer, os gols eram apenas questão de tempo. O União até que não tinha uma equipe ruim, mas segurar o Coritiba no Couto lotado seria o mesmo que o Gerhard Berger tentar vencer o Ayrton Senna no mano-a-mano numa corrida qualquer. Era mais fácil chover pra cima do que o Coxa deixar escapar aquele título. E foi exatamente o que aconteceu. Até que demorou, mas o Tostão abriu o placar, de cabeça, fazendo a galera, inclusive eu, explodir de felicidade. O jogo estava chegando ao fim, quando Kazuo recebeu um lançamento em profundidade. Ele ganhou na corrida da zaga, driblou o goleiro Devanir e foi derrubado dentro da área. Pênalti claro que o árbitro não pensou duas vezes antes de marcar. O lance aconteceu bem na reta onde eu estava, devidamente abraçado à minha bandeira e beijando o escudo do meu clube do coração na minha camisa. O Chicão bateu com categoria e fechou o caixão do União: 2x0. Foi o título mais previsível da história do futebol paranaense. Se fizessem uma seleção entre todos os participantes daquele estadual, essa seleção seria facilmente goleada pela equipe Coxa-Branca.
Depois da conquista do título, reuni uns amigos e fomos para um boteco comemorar até o amanhecer. Eu bebia para celebrar a taça que meu Verdão acabara de levantar e bebia para tentar esquecer a Salete, que havia levado um tremendo pé na b. do bonitão aqui e, naquela altura do campeonato, já devia até estar em outros braços. Afinal, eu fazia qualquer coisa por aquela mulher. Qualquer coisa mesmo, menos torcer contra o Coritiba Foot Ball Club.
FIM
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)