
LITERATURA
CAMPEONATO PARANAENSE DE 1999
Esse deu trabalho!
Por Gilson de Paula
Confesso que não foi tão fácil assim tirar a Salete do pensamento. Aquela mulher tinha algo que me tirava do sério. Aquela tatuagem em forma de uma bola de capotão não me saía da cabeça. As paredes da casa ainda tinham vestígios da sombra dela. A cadeira de balanço da sala, onde ela repousou aquele traseiro enorme várias vezes, olhava para mim como que dizendo “Onde ela está?”
As paredes do meu quarto imploravam por sua presença e eu cheguei à conclusão de que seria impossível conviver com aquele fantasma da Salete assombrando a minha casa. Resolvi me mudar. Fui morar em Florianópolis, trabalhar como salva-vidas num clube social. Lá, estaria rodeado de belas garotas e, em pouco tempo, iria conseguir esquecer a minha amada Salete. E assim foi.
Minha vida em Santa Catarina era uma mordomia só. De dia, sol e belas garotas. À noite, eu tocava violão num barzinho beira-mar e fazia muitas amizades. Ia dormir sempre às duas da manhã para acordar às nove do outro dia.
O trabalho era tão prazeroso que foram os nove anos mais rápidos que eu já vi passar. Se eu não me engano, devo ter levado uns quatro ou cinco dias nessa rotina para tirar Salete da cabeça. Só não me conformava com os seguidos fracassos do time clube do coração. Inventaram um tal de Paraná Clube lá em Curitiba que começou a ganhar tudo que via pela frente. Meu Verdão, o máximo que conseguia, era um vice aqui e um terceiro lugar acolá.
Quando eu já estava praticamente falando “Tu viste” antes de começar a maioria das frases que saíam da minha boca, fui a uma banca de jornais e comprei uma edição da Gazeta do Povo, que aos domingos chegava até Santa Catarina. Na abertura do caderno de esportes, o título da matéria: “Coritiba quer acabar com jejum de títulos na temporada em que completa 90 anos”.
Comecei a ler e lembrei que a última vez que meu time havia levantado um caneco havia sido justamente no ano em que resolvi sair da cidade, em 1989. Já estávamos em 1999 e comecei a ligar uma coisa à outra.
Cheguei à conclusão de que estava na hora de mudar aquilo. É muito tempo sem um título sequer por causa de uma desilusão amorosa minha. Vou voltar para a minha terra. Vou voltar pro meu clube do coração. E assim foi.
Minha missão não seria das mais fáceis. A equipe do Coritiba era apenas razoável e o treinador era Abel Braga, que tinha contra ele o fato de já ter trabalhado no time lá de baixo. Time-base do Verdão: Gilberto, que alternava boas e más partidas; Reginaldo Araújo, o odiado pela torcida; Reginaldo Nascimento, Flávio e Fábio Vidal; na meia-cancha, Struway, Ataliba, Mozart, Yan, todos quebradores de bola, e no ataque Cléber e Sinval, que contavam com a confiança do torcedor. Desses, eu gostava do futebol do Struway, o gringo raçudo, e do atacante Cléber, sério candidato a ídolo da torcida. O resto do time era bem meia-boca. O título teria que ser conquistado na base do grito da torcida e da superação Coxa-Branca, já conhecida pelos adversários.
Como o nível técnico dos campeonatos estaduais é sempre muito baixo, devido ao quase amadorismo dos clubes do interior, os times da capital não tiveram dificuldades na fase classificatória do torneio. Fácil como tirar doce de uma criança. Todo mundo fez o que tinha que ser feito. Sendo assim, nem vale muito a pena perder tempo falando dos entretantos. É melhor partirmos direto para os finalmentes, como diria o saudoso Odorico Paraguaçu.
Na fase do mata-mata, antes de chegarmos à grande final, tivemos que passar por cima do União Bandeirante e também fomos obrigados a atropelar nossos maiores fregueses lá da Baixada. Chegamos à decisão sem fazer muito esforço. O problema é que, na final, o adversário seria o embalado Paraná Clube, que ainda não havia perdido pra ninguém e que era apontado por todos, até por mim, como favorito à conquista da taça.
Só mesmo um grande milagre para fazer com que o Coritiba passasse pelo Tricolor da Vila naquela decisão. Além de ter um time superior tecnicamente, eles ainda contavam com a vantagem dos empates ou resultados iguais. Decididamente, estávamos diante de uma missão quase impossível. Mas, como diria aquele ditado antigo, nada é impossível perante os olhos de Deus. Sendo assim, não custaria nada bater um papo com o dono do mundo para ele dar uma forcinha para o nosso Verdão. Afinal, eram dez anos de jejum e uma torcida tão grande assim não merecia ficar tanto tempo sem um motivo pra sorrir. Mas isso é assunto pra depois.
Enquanto não chegava o dia do primeiro confronto da grande final, resolvi dar umas voltas de moto por perto da casa onde Salete morava antigamente. Ao parar em frente ao portão (até parece música do Roberto Carlos), notei que um moleque de aproximadamente uns oito anos, corria pra lá e pra cá no quintal. Até que surgiu um feioso. Ele passou a mão no moleque e o levou para dentro de casa. Pensei: “Ela deve ter se mudado e um outro casal está morando aí. Decididamente, nunca mais verei minha amada Salete”. Porém, quando ajeitava o capacete para pegar o caminho da roça, vi aquela figura cinco vezes mais gorda do que antes acompanhando aquele cara até a porta e despedindo-se dele com um longo beijo de língua. A minha Salete ali na minha frente, aos beijos com um estranho, que certamente devia ser o pai do filho dela, que devia ser o meu filho. Pensei: “Há males que vêm para o bem. Tomei a decisão mais acertada naquela ocasião e, pelo jeito ela está feliz. Segue o barco”. Liguei o motor da minha CG125cc e me mandei dali.
Como estava com o cabelo um pouco maior do que o normal, resolvi passar num salão de cabeleireiros para dar um trato no visual. Entre um assunto e outro com o cara da tesoura, começamos a falar sobre a grande decisão. “Vocês estão f******. O Paraná leva essa sem dó nem piedade”, disse ele, que admitiu ser atleticano e que estava se divertindo com a situação.
“Você acha?”, perguntei, meio sem graça.
“Só mesmo com muita reza braba para esse título sair das mãos do Tricolor da Vila. Se eu fosse você, faria uma promessa bem violenta para tentar mudar o que já está praticamente certo”.
Ele disse aquilo em tom de brincadeira, mas às vezes a gente encontra a solução para os problemas num simples comentário ingênuo. Meu cabelo não ficou tão legal assim, mas valeu eu ter ido até lá porque o dono do salão, cujo nome não me lembro mais, praticamente decidiu o Estadual em favor do meu Verdão.
Tão logo que saí do salão, procurei a igreja mais próxima e me ajoelhei em frente ao altar para rezar e fazer a tal promessa. Mas o que será que eu poderia oferecer a Deus, a ponto de convencê-lo a ajudar o Coritiba a ser campeão? “Já sei. A cada jogo, prometo uma coisa. Se der certo, vou aumentando o grau de dificuldade das promessas”. E assim foi.
No primeiro jogo da final, caso o Coritiba vencesse, eu iria parar de fumar.
Tiro e queda. A invencibilidade do Paraná Clube durou apenas até o primeiro jogo da decisão. Couto lotado. Torcida inflamada e eu fumando um cigarro atrás do outro. Afinal, poderia ser minha despedida, o fim da minha carreira tabagista. Quando Cléber marcou o gol da vitória, lembro que apaguei meu Carlton na jaqueta de um senhor que estava sentado à minha frente. Deve ter ficado muito puto quando chegou em casa. Adeus, cilindro fumacento.
Nunca vou esquecer aquela cena: eu abraçado a dois Coxas-Brancas que nunca vi mais gordos, com um cigarro na boca e outro na orelha, segurando uma latinha de Antarctica e cantando: “Cadêêê Paraná? Cadêêêê Paraná?” Deu até vontade de voltar lá no salão e tirar um sarrinho daquele cabeleireiro atleticano duma figa. Mas era muito longe e estava chovendo pra ir de moto.
No dia seguinte, joguei fora minha carteira de cigarro e cumpri o que havia prometido. Para ficarmos com o título, bastava vencer o segundo confronto. O título seria disputado numa melhor de cinco pontos e o Paraná tinha um ponto extra por ter feito melhor campanha. Até ali estava 3x1 para o Verdão mais lindo do mundo. Uma vitória igual àquela da primeira partida era mais do que suficiente. E eu ainda não havia decidido o que prometer para o Coritiba levar a melhor de novo.
O jogo começou a mil por hora, mas infelizmente, o único time que acompanhou esse ritmo foi o Paraná Clube, que vencia por 2x0 até os 38 minutos da etapa complementar. Foi quando eu decidi trocar uma idéia com o Papai do Céu. “Se o Coxa empatar esse jogo, eu paro de beber”. Na hora do desespero, a gente fala cada absurdo. Mas já era tarde. A promessa já havia sido feita. Das duas, uma: ou torcia para o time não reagir, ou adeus latinhas de cerveja nas manhãs de domingo. O Verdão só precisou de quatro minutos para empatar o jogo. E quase virou o placar. Se eu tivesse pedido a virada, tenho certeza que aquela bola do Sinval teria entrado e o título teria sido conquistado ali mesmo, naquela partida.
Tudo ficou, então, para o terceiro confronto. O Coritiba precisava do empate e o Paraná levava o título com uma vitória. Em menos de 15 minutos, o jogo já estava 2x0 para eles. E o que é pior: eu já era um ex-fumante e ex-bêbado. Só faltava eu parar com meus vícios e ainda perder aquele título. Seria desgraça demais para um ano só. Olhei bem nos olhos de Deus, fiz cara de coitado e disse que, se o Coritiba empatasse aquela partida e ficasse com a taça, eu nunca mais tocaria numa mulher. Melhor: nunca mais olharia para uma mulher com cobiça e pecado.
Eu ainda estava conversando com o Todo Poderoso quando Cléber bateu a falta com perfeição e diminuiu para o Coritiba: 2x1. Até pensei que poderia ter deixado para fazer a promessa um pouco depois, mas já estava feita. Eu acabara de abrir mão de uma das coisas que eu mais gostava no mundo: a mulher. Só voltaria a tocar numa se o meu time não conquistasse aquele título.
Para minha sorte e azar da minha cabeça de baixo, aos 32 minutos, o sempre xingado Reginaldo Araújo cruzou na medida para o experiente Darci, que acabara de entrar no gramado. Ele bateu firme, sem chances para o goleiro Régis: 2x2 e delírio total nas arquibancadas do Pinheirão. Coritiba conquistava seu 30º título no ano em que completara seu 90º aniversário. Deu trabalho, mas eu consegui ver aquele time levantar a taça.
Foi um campeonato que mudou completamente a minha vida. E mudou para melhor: hoje sou conhecido na cidade como Padre Lacerda, o homem dos sermões anti-tabagismo e anti-cachaça.
FIM
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)