
LITERATURA
CAMPEONATO PARANAENSE 2003
Campeão Invicto, após 67 anos
Por Gilson de Paula
Acredito que vocês devem lembrar de mim. Sou o Padre Lacerda e estou aqui para falar do Coritiba, meu clube do coração. Vou contar uma história que aconteceu num passado não muito distante. Eu acabara de ouvir uns quatro ou cinco pecados bem cabeludos e ainda estava pensando neles quando lembrei: “Poxa, já faz 67 anos que o Coritiba foi campeão invicto pela última vez. Bem que poderia repetir essa façanha no Campeonato Paranaense deste ano”.
Estávamos em 2003. Eu ficava com um ouvido ligado nos pecados dos fiéis (os de traição e as confissões eram os mais interessantes) e com o outro ouvido ligado nas notícias do rádio. Não perdia um programa da Rádio Clube, que começava às 17h. Eu era fã do Edu Brasil. Foi então que decidi bater um papo com Deus, dizer a ele que eu havia cumprido três grandes promessas e bem que ele podia dar um jeitinho de fazer meu Coritiba conquistar um titulozinho de forma invicta. Sempre tem um sabor especial, né? Deus não me parecia estar muito bem-humorado naquele dia. Não me respondeu nem que não, nem que sim. Apenas disse que ia pensar porque tinha um monte de pepino pra resolver. Se o “ómi” falou, tá falado...
O Coritiba tinha um time bem ajeitadinho. Lá atrás, o goleiro Fernando contava com a confiança do torcedor. Eu não gostava dele, mas, se a galera gostava eu era obrigado a gostar também porque a voz do povo Coxa-Branca é a voz de Deus. Nas laterais, o contestado Reginaldo Araújo pela direita e o craque Adriano pela esquerda. Na zaga, Fabrício e Edinho Baiano, o incansável Edinho Baiano. Na meia-cancha, Reginaldo Nascimento, que batia até na mãe dele; Roberto Brum, o senador; Tcheco, o dono do time e o também contestado Lima. O engraçado é que ninguém gostava do Lima, mas era sempre ele quem fazia os gols importantes. Lá na frente, Marcel e Edu Salles completavam o time que iria tentar a proeza de recuperar a hegemonia no futebol paranaense sem uma derrota sequer.
Eu pensava cá com meus botões: o que era bem mais difícil, já que os botões de uma batina ficam nas costas: “Será que esse time aí vai ter condições de conquistar o Estadual? E invicto? Com Edinho Baiano e Reginaldo Araújo? Bem, para o “Homem lá em cima” nada é impossível. Então vamos acreditar”. Ao fazer minha oração antes de dormir, veio a resposta do Senhor: “Eu dou um título invicto para o Coritiba, mas você vai ter que levar a minha palavra para os jogadores. Antes de cada jogo quero uma pregação sua para os atletas. É pegar ou largar. Se não topar, eu dou o título invicto para o Atlético”.
E eu seria bobo de não topar uma proposta do chefe? Até achei que ele pegou leve comigo. No dia seguinte, eu fui até o Alto da Glória me oferecer para ajudar, passando sermões nos atletas antes dos jogos daquele Campeonato Estadual. O presidente do clube gostou da idéia e o treinador achou ótimo. Ele dizia que, quanto mais as pessoas se aproximam da igreja, mais se afastam das noitadas. Não sei de quem ele estava falando. O técnico era o inexperiente Paulo Bonamigo, que não cheirava nem fedia. Era um cara pacato, que se dava bem com todo mundo e que não custava muito aos cofres do clube. O cara certo na hora certa, já que os jogadores gostavam muito da sua forma de trabalho.
Na primeira fase do Campeonato Paranaense, o Coritiba não teve qualquer tipo de dificuldade para detonar seus adversários. Aquele que aparecia na reta do Verdão era impiedosamente castigado. Não tinha perdão! Com uma bela campanha e com a invencibilidade que eu encomendei, o time conquistou vantagens para disputar as fases seguintes, o que facilitou um pouco o trabalho da rapaziada.
Na segunda etapa da competição, caímos na chave do Malutrom, um time que nunca conseguiu incomodar ninguém, mas que não podia ser menosprezado. Chamei todo mundo num canto e contei a eles a história do Davi, que venceu Golias mesmo sendo mais fraco e infinitamente menor que seu oponente. Portanto, era bom que o gigante ficasse esperto porque os pequenos, às vezes, conseguem surpreender. Aliás, antes de ser padre, eu levava essa frase como lema da minha vida, mas isso também não vem ao caso.
O Coritiba não tomou conhecimento e despachou o tal de Malutrom. Nas semifinais, o adversário seria o Londrina, um time já tradicional no futebol paranaense e que já chegou até a ser campeão estadual. Não me pergunte quando foi que isso aconteceu porque eu só lembro dos títulos que o Coritiba conquista.
Para motivar os jogadores para o confronto com o Tubarão, lembrei como Moisés abriu o Mar Vermelho para seu povo passar. Disse que, se tivéssemos fé e acreditássemos no talento do companheiro, tocando-lhe sempre a bola, iríamos abrir a defesa do Londrina para chegarmos à grande decisão. O Tcheco não resistiu e fez um pequeno comentário: “Se o problema é cajado, vamos deixar tudo com o Edu Sales”. O Coritiba não teve problemas e, depois de uma vitória e um empate, conseguiu garantir a sua classificação para a final do Campeonato Paranaense. Até ali estava tudo perfeito. Eu tentando cumprir minha parte do trato aqui embaixo e o Chefe fazendo a sua parte lá em cima.
Na final do Paranaense de 2003, o Coritiba enfrentaria o Atlético, mas não o Atlético que a gente estava acostumado a surrar e sim o Atlético de Paranavaí, que só pelo fato de ser um Atlético, tornou-se meu inimigo mortal. No primeiro jogo, na casa deles, uma partida complicada, com muita marcação e com uma tremenda pressão da torcida. O detalhe interessante é que o adversário também havia chegado àquela decisão sem perder um jogo sequer. Será que tinha padre do lado de lá fazendo acordos também com o pessoal do céu? Bem, como eu já havia falado com o patrão geral, o dono de tudo, não me preocupei muito com esse fato. A partida foi uma verdadeira pedreira e, no final, entre mortos e feridos, todo mundo saiu ileso: 2 X 2 no placar e tudo seria decidido no Couto Pereira. Quem perdesse, perdia o título e a invencibilidade. Olha só quanta emoção.
Dessa vez, resolvi apelar para os apóstolos. “Coincidentemente, vocês são onze como os apóstolos. Vocês serão aqueles que mostrarão ao mundo que o futebol paranaense é verde e branco, que o Coritiba é quem manda nessas terras e que somos os donos do pedaço”. Eu comecei a me empolgar com tão lindas palavras e vi que três ou quatro ali estavam se segurando para não chorar. E continuei: “Roberto Brum é um organizador como Tiago; Marcel é forte como Pedro e Adriano é jovem tal qual João”... eu iria continuar, mas o Bonamigo entrou no meio da conversa, dizendo que estava na hora de ir pro gramado e nem deu tempo de terminar o que eu tinha pra dizer.
Pela minha empolgação, acho que o sermão iria demorar pelo menos mais uma meia hora. O engraçado é que os jogadores levavam minhas pregações muito a sério. Eu era quase uma extensão do Bonamigo quando a bola não estava rolando.
Como era de se esperar, a partida foi complicada, com o Paranavaí fechadinho lá atrás, esperando a hora certa de dar o bote. Bonito de se ver estavam as arquibancadas do Couto Pereira. Quase 55 mil pessoas se acotovelavam para ver a conquista de um título invicto, depois de quase 70 anos.
como não estava nada fácil furar o bloqueio deles, o Chefe lá de cima foi obrigado a dar uma mãozinha. O árbitro viu um pênalti que ninguém viu e o Marcel bateu com categoria para abrir o placar. Como a porteira estava mais do que aberta, o segundo gol era apenas uma questão de tempo, já que o Paranavaí teria que se mandar para o ataque para tentar o empate. E não deu outra. Num contra-ataque mortal, aos 39 do segundo tempo, Edu Salles marcou o segundo gol e fechou o caixão dos atleticanos de Paranavaí: 2x0 e, como eu tinha planejado, Coritiba campeão paranaense invicto de 2003.
O jogo havia terminado lá pelas 18horas, mais ou menos. Eu fiquei observando a festa da torcida por quase uma hora e resolvi voltar para a igreja porque estava dando uma vontade imensa de tomar uma cerveja e sair pulando no meio daquele povo todo. Minha felicidade quase não cabia no peito. Ao chegar na igreja, meu coração quase veio à boca. Adivinha quem estava lá à minha espera? Não, não era o Edu Sales. Era Salete. Estava com uma cara triste, parecia ter tanta coisa pra me dizer. Cumprimentei-a e a chamei para conversar na sacristia. Ela pegou minhas mãos e começou a falar sem parar mais. Entre outras coisas, disse que estava arrependida por ter me pedido aquela prova de amor tão imbecil (vide crônica do Campeonato Paranaense de 89). Disse que queria ver se eu gostava mais dela ou do Coritiba. “São formas diferentes de amar. A intensidade pode ser maior, mas uma não pode ser comparada à outra”, balbuciei.
Depois de chorar as pitangas, Salete segurou mais forte minhas mãos e disse: “Padre, quer dizer, Periquito, não tem como você me dar uma nova chance?”
“Mas e aquele feioso que você estava beijando? Ele não é seu marido? E seu filho?”
“O Sandro? Não. Ele era um namoradinho à toa e o Marquinhos é filho dele só. Eu não tenho nada a ver com o peixe”.
Resolvi me fazer de difícil: “Não sei. Você me magoou muito”.
“É, eu não devia ter vindo aqui”.
“Calma! Também não precisa ser tão precipitada”.
Durante anos, ouvir aquela frase era tudo que eu mais queria. Mas naquele momento eu sabia que a coisa não era tão simples assim. Eu tinha um acordo feito com Deus e não podia quebrar esse acordo de jeito nenhum. “Preciso pensar, refletir, Salete. Você me dá um dia para pensar?”
“Claro, Luz dos Olhos meus”.
Tão logo ela foi embora, lá fui eu incomodar meu Pai Celestial para tentar recuperar o amor da minha vida. Nem bem terminei de fazer o sinal da cruz e já comecei a ouvir: “Nem precisa começar a ladainha porque eu vi tudo. Eu te libero da batina, mas ai de você se eu te vir, um dia, com um cigarro ou um copo de cerveja na mão”.
Dessa vez eu me dei bem. Consegui um título invicto para o meu Verdão, parei de fumar, abandonei a bebida e recuperei o amor da Salete. É mole? É mole, mas sobe...
FIM
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)