
LITERATURA
A partir de hoje, o Coxanautas traz um material mais do que especial para o seu leitor. O jornalista Gilson de Paula vai contar, de uma maneira divertida, misturando realidade e ficção, como foi que o Coritiba conquistou seus títulos de 78 pra cá. É a nova mini-série alviverde. Hoje, a primeira parte da história da conquista do Estadual de 78. Reviva fortes emoções e dê boas gargalhadas.
O tiro saiu pela culatra
Por Gilson de Paula
Dizem que, no futebol, é preciso mesclar experiência com juventude para se chegar à fórmula do sucesso. Eu já acho que com uma boa dose de malandragem dá pra ganhar muito jogo por aí. Ainda mais se, do lado de lá do gramado, estiver um time cheio de manés. A inteligência supera a força, já dizia... puts, não lembro quem foi que disse isso, uma vez. Acho que fui eu mesmo. Bem, deixa pra lá.
Eu sei que ninguém perguntou, mas vou dizer a todos que meu nome é Pedro Paulo da Silva (o “Da Silva” eu não sei de onde tiraram, já que meus pais são “Dos Santos”). Desde que nasci, sempre fui muito ligado ao esporte mais popular do planeta (não estou falando de peteca e sim de futebol). Papai era dono de um boteco daqueles cheios de baratas por todos os cantos e com aqueles peixes enrolados na cebola num pote cheio de água fedorenta em cima do balcão. Ah, também tinha aquela estufa nojenta com uns salgadinhos que nunca tive coragem de comer, mas que eram devorados pelos barbudos e mal-encarados fregueses que freqüentavam a bodega. Na maioria das vezes, quando o assunto não era a vida dos outros, estava todo mundo falando de futebol. Uns torciam para o Coritiba. Outros, em menor proporção, eram atleticanos e, a cada dois meses, aparecia um torcedor do Colorado para ser motivo de chacota. Nunca foi registrada a presença de um pinheirense naquele recinto.
Certa vez, um desses ilustres freqüentadores do bar (acho que o nome dele era Osmar ou Oscar, uma coisa assim) chegou pra mim e disse:
- Pedrinho. Chegou a hora de você virar gente. Vou te levar para ver a decisão do Campeonato Paranaense, entre Atlético e Coritiba e vou comprar uma camisa do Atlético pra você.
Estávamos em 1978 e eu tinha lá meus recém-completados oito anos. Iria ver um jogo de futebol de graça e, como de graça a gente aceita até ônibus errado, resolvi aceitar o convite do Osmar (ou seria Oscar?). Estava pouco me lixando pra camisa que iria vestir. Vesti minha camisa vermelha e preta e me mandei para o Couto Pereira, onde iria acontecer a tal decisão.
Pra mim, tudo era novidade. Eu jamais havia sequer visto um jogo na TV, já que não tínhamos televisão em casa. Imagina a excitação do moleque ao passar pela catraca do Couto Pereira e ver aquele estádio cheio de gente? Eu tava que não me agüentava de tanta emoção. Lembro que a primeira coisa que eu vi ao chegar no estádio foi uma faixa enorme onde estava escrito “MUC- Movimento Unido Coritibano”. No gramado, uns moleques da minha idade corriam atrás da bola e o Coritiba fazia um gol atrás do outro em cima do Atlético. E tinha uns garotos lá que jogavam bem pra caramba. Como o estádio estava completamente lotado (55.164 pagantes), muita gente ficava em pé, em frente ao alambrado e aí já viu, né? Eu com aquele tamanho todo, dancei. Tinha que ficar levando a cabeça pra lá e pra lá para poder ver alguma coisa.
Assim que os profissionais entraram no gramado, deu pra sentir a diferença de clima. Ninguém mais estava relaxado. Quer dizer: quase ninguém. Eu estava era feliz da vida por estar ali e não estava nem um pouco preocupado com o resultado da partida. Era nítida a expressão de preocupação no rosto de cada torcedor. Eles olhavam fixamente para dentro do gramado, uns procurando seus ídolos, outros observando o adversário. Bem, não preciso dizer que, por ter sido convidado por um atleticano, nós estávamos lá no meio dos Guerrilheiros da Baixada, com um tremendo sol na cara. Era um belo domingo. Um belo domingo para dar início a uma (bela) história de amor. Lembro que faltava uma semana para o natal.
Antes daquele jogo, Coritiba e Atlético já haviam se enfrentado duas vezes pela decisão do Estadual de 78 e os jogos haviam terminado empatados em 0x0. A diretoria atleticana tinha quase certeza da conquista do título, já que possuía uma equipe tecnicamente superior à do Coritiba. Tanto que os dois primeiros jogos foram marcados pela catimba alviverde, que não deixou a bola correr e, na base da retranca, segurou os dois empates. Foram dois jogos muito parecidos. Todas as jogadas do time atleticano passavam pelos pés do Rota, um meia-cancha habilidoso, que era praticamente o motor do time. O Tobias, goleiro, também era um nome a ser destacado. Pelo lado do Coritiba, vários jogadores de alto nível, entre eles o goleiro Manga, que havia disputado a Copa de 66 como titular da Seleção Brasileira, na Inglaterra.
“Osmar. Pra qual time a gente está torcendo”, arrisquei, já que queria ver pelo menos um golzinho, independente de que lado fosse.
O Osmar (nessa hora eu já havia decorado o nome do cara) estava que nem piscava. Quase nem prestou atenção no que eu perguntei. Só resmungou um “Atlético Paranaense, moleque. Que pergunta mais besta!”
O técnico alviverde era o Chiquinho e, conforme os minutos iam passando, um jogador em especial começou a chamar minha atenção. Era um meia-cancha de cabelo encaracolado, que jogava como se fosse o dono do campo. Na verdade, acho que ele realmente era o dono do pedaço. Era uma beiçada no amendoim e uma olhada no talento daquele cara. Uma coisa que eu achei estranho foi não ter narrador no estádio. Como eu ia saber quem estava com a bola?
Eu estava curioso pra saber o nome daquele meia-cancha abusado, que jogava de verde e branco. Até que, em dado momento, ele pegou a bola, passou como quis por três adversários e chutou forte. A bola passou perto. Foi quando um torcedor do meu lado disse:
- Esse Pedro Rocha é f.!
Um cara com aquele talento todo não podia ter outro nome. Ele tinha que se chamar Pedro. Naquele mesmo instante, deixei completamente o Atlético de lado e passei a torcer para que o meu xará fizesse um golzinho. Por causa disso, quase levei uns tapas. Na primeira vez que ele pegou na bola após eu descobrir que ele se chamava Pedro, não me segurei. Levantei e gritei:
- Pra cima deles, Pedrão!
Quase não consegui terminar a frase e começaram a me xingar de tudo que é nome feio. B., F. da p. Moleque lazarento. Esses foram apenas alguns dos adjetivos que me deram por causa do meu grito. O Osmar, ao ver que iria sobrar pra ele, resolveu me tirar dali. Eu, sem entender absolutamente nada, perguntei o que estava acontecendo. Ele apenas respondeu que a torcida estava muito nervosa e isso me deixou mais confuso ainda. Se está nervosa, por que querem bater nas crianças? Vão bater em alguém do tamanho deles.
Enquanto procurávamos um lugar pra ficar sem que levássemos uns catiripapos, eu vi um portão que dava acesso à torcida do Coritiba, bem onde estava aquela faixa enorme da MUC - Movimento Unido Coritibano. Aproveitei um vacilo do Osmar (decididamente, eu já havia decorado o nome do cara), tirei minha camisa, joguei no chão e fui em direção ao guardinha que cuidava do portão:
- Moço, moço. Tem como me passar pro lado de lá? Meu tio está desse lado e eu acabei me perdendo dele e vim parar aqui na torcida do Atlético.
O guarda, comovido com a minha situação, abriu o portão para eu passar e, antes de cruzar a fronteira entre o mal e o bem, ainda levei um copinho de cerveja nas costas. Quando passei para o lado verde e branco do Alto da Glória, parece que o clima ficou mais suave. Era como se eu tivesse saído de um ambiente carregado e entrasse num ambiente de gente do bem. Lógico que, ao me ver no meio da galera coxa-branca, o Osmar teve que vir também. Conseguimos achar um lugar com uma vista maravilhosa para o gramado. Só não dava pra ver melhor porque tinha um gordo na minha frente comendo pipoca e levantando toda vez que o Coritiba passava do meio-de-campo. Quando ele levantava, a única coisa que eu conseguia ver era a bunda daquele pançudo. Manja aquele agasalho querendo cair e deixando o começo da bunda à mostra? Pois então...
Bem, voltemos ao jogo. A bola ia de um lado para o outro, mas ninguém conseguia colocar a gorduchinha no barbante. O jogo terminou empatado em 0x0 e isso levou a decisão para a prorrogação. Quando terminou o primeiro tempo dessa prorrogação, a sorte começou a decidir o título em favor do Coritiba. Um garoto de uns 12 anos me perguntou se eu gostaria de entrar em campo para comemorar o título, caso o Coxa fosse o campeão. Ele disse que era filho de não sei quem e que tinha acesso aos vestiários e, conseqüentemente, ao túnel que dava acesso ao gramado.
“Nossa! Você tá falando sério? Vamos nessa! É lógico que eu topo”, disse ao garoto.
“Mas você só vai se me der esse pacote de amendoim”, ele rebateu. Logo vi que estava fácil demais...
Pensei um pouco, analisei a situação e vi que valia a pena abrir mão do amendoim para chegar perto daqueles craques todos, inclusive do Pedro Rocha, meu primeiro ídolo no futebol.
Enquanto corríamos pelos corredores (com o perdão da redundância) do vestiário do Coritiba em direção à escada para chegarmos ao túnel, nada demais aconteceu no gramado. O segundo tempo da prorrogação foi dramático mais pelo cansaço dos atletas do que por alguma jogada que pudesse resultar em gol. Nada mudou e o placar continuou em branco. Sendo assim, o título seria decidido nos pênaltis. Era o atacante contra o goleiro. E mais nada. Aquilo estava divertido demais.
Todo mundo começou a esticar as canelas por causa das câimbras e eu notei que o goleiro do Coritiba, um cara com cara de velho e que tinha os dedos tortos, mancava bastante. Ele havia machucado a perna direita ainda no primeiro tempo do tempo normal. Eu estava atrás do gol e, quando ele se aproximou, perguntei o que havia acontecido.
“Oi, garoto. Não foi nada, não. Com uma massagem e uma faixa eu resolvo o problema”, disse o goleirão do Coritiba, sorrindo pra mim.
Nesse exato momento, veio uma idéia brilhante em minha mente:
“Por que você não enfaixa a perna boa?”, gritei. “Os caras do Atlético vão pensar que você está machucado na perna esquerda, vão bater os pênaltis ali e você pula sempre pro lado esquerdo”, gritei mais alto ainda.
Ele ficou olhando pra mim durante uns sete segundos, quase que me chamando de gênio. Ao chegar o massagista, ele pediu o tratamento na perna machucada, mas mandou enfaixar a perna que estava boa. Resultado: os dois pênaltis que os jogadores do Atlético chutaram no canto esquerdo, o goleiro Coxa-Branca defendeu. O único que bateu no canto direito foi o tal de Rota, que fez o gol. Só que não adiantou nada porque o Coritiba venceu a decisão dos pênaltis por 4x1 e levantou a taça de campeão paranaense de 1978. Ao ver que o título estava conquistado, o Manga até que tentou vir me agradecer pela dica, mas aí já era tarde demais. A torcida já havia invadido o gramado para comemorar e eu não ganhei nem um “muito obrigado”. Mas ele e eu sabemos que, se o Coxa foi campeão estadual naquele ano eu tive boa parcela de culpa naquilo tudo.
Depois que voltei pra arquibancada, encontrei o Osmar com os olhos cheios d'água, lamentando a derrota do Atlético dele. O que ele nem imaginava era que, me levando pra ver aquele jogo, ele praticamente decidira o título em favor do maior rival do clube dele e fizera com que nascesse ali uma longa história de amor entre o Coritiba e este que vos fala.
Decididamente, o tiro do Osmar saiu pela culatra...
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)