
LITERATURA
O BRASILEIRO DE 1985 - NÃO VIVO SEM FUTEBOL E MULHER...
Por Gilson de Paula
Brasileiro que é brasileiro de verdade não sabe se trocaria ver seu time na final do Campeonato Brasileiro (faz tempo que o Brasileirão não tem final) por algumas horas de prazer com a garota mais gostosa da sua rua. É uma dúvida cruel. Mulher e futebol são praticamente a mesma coisa. Ambos mexem com sentimentos diversos, entre eles paixão, que leva à loucura e também ao paraíso. Veja só: futebol tem jogo de cintura, penetração, calendário, entradas violentas, finais felizes, finais tristes, suor, cansaço, satisfação, decepção. Percebeu a semelhança?
No sexo, às vezes, a gente também tem que pagar ingresso. Existem as jogadas pelas pontas. Muitas vezes é preciso enfrentar uma defesa muito bem plantada para se chegar ao objetivo final. Resumindo: futebol e mulher são praticamente a mesma coisa. Tem neguinho por aí que não gosta nem de futebol, nem de mulher, mas isso é assunto para outro tipo de publicação. Eu não vivo sem futebol e também não vivo sem mulher, embora meu tornozelo não permita que eu bata o bolão de antigamente e minha nêga véia viva reclamando das minhas sucessivas dores-de-cabeça. Mas isso também não vem ao caso.
A história que eu vou contar agora tem tudo a ver com futebol e mulher. Ano? 1985. Como não vivo sem futebol e mulher, meus ídolos não eram muito parecidos fisicamente. Eram tão diferentes quanto a Magda Cotrofe e o Toby; Luiza Brunet e Rafael Camarotta; Maitê Proença e Lela. Todos esses personagens ocupavam um espaço enorme no meu coração, que recém havia completado seus 17 anos. Naquela época, eu era um poço de hormônios e, quando não estava num estádio de futebol vendo meu Coritiba jogar, estava trancado no banheiro. Ah, sim. Ia até esquecendo de dizer meu nome. Meu nome atual surgiu exatamente como o homem, que foi evoluindo, saindo da forma de um macaco e chegando à forma atual. No começo, me chamavam de José Carlos. Com o passar dos anos, me transformei em Zé. Um tempo depois acabei virando Zeca. Daí para Zecão foi um pulo. Esse sim, um nome imponente, de respeito. Zecão. É até bonito de se falar.
Nem preciso dizer que 1985 foi o grande ano da minha vida. Meu time apavorou o país inteiro, atropelou todo e qualquer clube que apareceu em sua frente e chegou à grande final do Campeonato Brasileiro daquele ano. Antes de chegarmos a essa decisão, vencemos o São Paulo, com Careca e tudo; passamos pelo Cruzeiro do Joãozinho; não tomamos conhecimento do Flamengo, que tinha Zico e Sócrates na meia-cancha; surramos o Corinthians do Biro-Biro e do Casagrande; não tivemos piedade do Santos, do Marolla e deu até dó do Atlético Mineiro, do excelente ponta e já falecido Edivaldo. O “Atrético” Paranaense não disputou a primeira divisão em 85, senão tinha levado uma surra também. Resumindo: aquele ano o Coritiba conseguiu uma façanha realmente inacreditável. Os clubes brasileiros tinham a força de um Real Madrid, de um Barcelona ou de um Manchester United dos dias de hoje. Os craques ficavam por aqui mesmo. Eram poucos os brasileiros que jogavam na Europa. Hoje em dia, qualquer time meia-boca que fizer um trabalho decente pode vencer o Brasileiro, um torneio de baixo nível técnico, recheado de pernas-de-pau. Agora, vai se meter a besta com aquelas feras da década de 80. O Grêmio tinha Renato Gaúcho infernizando. O Inter tinha Benitez pegando até pensamento. E o Coritiba, com um time bem meia-boca, mas muito bem organizado pelo mestre Ênio Andrade, foi comendo pelas beiradas e, quando viu, abocanhou a taça.
Depois de ser campeão do segundo turno e garantir vaga na segunda fase, o Verdão caiu na chave que tinha Corinthians, Sport e Joinville. Empatamos as duas com o Sport, vencemos as duas contra o Joinville e ganhamos uma do Corinthians e perdemos lá em São Paulo. Resultados mais do que suficientes para levarem o Verdão às semifinais do campeonato. Lembro que a diretoria do Atlético Mineiro reuniu o elenco para fazer a foto oficial do título e o planejamento para ir ao Rio de Janeiro encarar o Bangu, antes mesmo de enfrentar o Coritiba. Eles não imaginavam que iriam ter que encarar um tal de Rafael Camarotta pela frente. O que esse cara jogou naquele Brasileiro não tá no gibi.
E foi justamente no primeiro confronto com o Galo Mineiro que eu consegui as passagens para ver os jogos em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Tive que fazer um certo sacrifício, mas valeu a pena. Como valeu...
Dia 24 de julho de 1985. Intervalo de jogo. O Coxa empatava em 0x0 com o poderoso Atlético Mineiro e, para complicar ainda mais, alguns titulares importantes, como Rafael e Lela, não estavam em campo. Vencer aquela partida seria uma missão quase impossível. Mas nós estávamos lá, torcendo e empurrando o time pra cima dos mineiros. Eu levantei para ir à barraca do sanduíche de pão com bife e, quando pegava os “dez pila” para pagar meu sanduba, escuto uma senhora dizer assim para uma outra não tão senhora assim, que estava ao lado dela:
- Esse time tem que vencer de qualquer jeito. Senão adeus viagem para Belo Horizonte. Pior que já estou com as passagens compradas.
Nossa! Aquilo soou como poesia em meus ouvidos. Até parecia que eu estava ouvindo a mais bela nota musical. Não vou dizer pra você que a coroa era um avião. Longe disso. Tá bom, tá bom. Eu admito: ela não era nada bela. Na verdade, até era meio parecida com o Rivellino. Se ela comprasse um bigode postiço, era o Rivellino cuspido e escarrado.
Quando ela tirou a carteira do bolso para pagar o sanduíche, eu disse ao “dotô” que ia me dar o troco: “Pode cobrar o dessa moça também”. Aquele “moça” caiu como o maior dos elogios que aquela “véia” poderia ouvir na vida. Nem precisei fazer muito esforço para agradar. Perguntei se ela estava nas cadeiras e ela disse que sim. Então, lamentei não poder ficar perto de tão agradável companhia até o final do jogo porque eu estava nas arquibancadas. “Imagina. Vamos lá pra cima. Eu pago o seu ingresso de cadeira”. Eu, que nunca tinha chegado perto das sociais do Couto Pereira, fui todo metido lá pra cima para ver o final daquele drama todo que foi aquele jogo.
- Como é seu nome?
- Teresa. E o seu?
- Zecã...quer dizer... José Carlos...
- Bonito nome.
- O seu também é lindo. Igual à dona.
O Atlético Mineiro tinha mais time e começou a pressionar demais. O gol deles estava maduro. Numa cobrança de falta do lateral Nelinho, a bola bateu na trave, deu na cabeça do goleiro Jairo e perdeu-se pela linha de fundo. Noutro lance, o goleirão deu rebote pra dentro da área e o Edivaldo chegou para fazer o gol. O goleirão alviverde fez outra defesa milagrosa. Engoli sem mastigar o enorme pedaço de pão com bife que acabara de colocar na boca. Pedi licença à Teresa e fui ao banheiro fazer um xixi porque meu coração estava querendo sair pela goela.
Quando estava saindo do banheiro, notei que, atrás da porta, próximo ao teto, havia uma caixa cheia de interruptores. Abri a portinha e vi que estava escrito “chave geral”. Não pensei duas vezes e apaguei todos os refletores do Couto Pereira. Aquele seria o único jeito de conter os ânimos do time do Atlético Mineiro. Liguei logo em seguida, mas os refletores dos estádios precisam de um tempo para acender novamente. Voltei para a cadeira ao lado da Teresa e só dava pra ver a galera fazendo festa com seus isqueiros. “O que aconteceu?”, perguntei, com cara de tonto. “As luzes se apagaram. Senta aqui”.
Aproveitei que a bola não estava rolando e dei o bote final. Arrisquei pegar sua mão e, ao sentir que ela apertou meus dedos, aconteceu aquilo que estava para acontecer. Enquanto eu a beijava, ficava imaginando o Rivellino de olhos fechados e enfiando a língua na minha boca. Foi uma sensação muito estranha. Mas assim que eu pensava nas passagens para Belo Horizonte, voltava a beijar com gosto.
Aos poucos, as luzes reacenderam e, quando a bola voltou a rolar, o Coritiba foi pra cima e abriu o placar com um golaço do Heraldo, aos 13 minutos do segundo tempo. O final da partida foi um “Deus nos acuda”, mas o Jairo e sua turma conseguiram segurar o placar, que tirava do Atlético Mineiro o direito de jogar por dois empates. Agora, o empate era nosso.
Teresa me levou embora num belíssimo Corcel 2 ano 84. Sua irmã e seu sobrinho estavam juntos no carro. Ao chegar, trocamos os números de telefone, rolou mais um beijo de Rivellino e ficamos de nos vermos no dia seguinte. Eu sei que vocês estão curiosos para saber mais detalhes sobre o físico da criatura. Tudo bem, vamos lá: ela devia ter entre 44 e 48 anos, o sorriso lembrava muito o Dadá Maravilha e, quando andava, eu tinha a nítida impressão que ela tinha uma perna maior que a outra, mas isso eu não tenho certeza. Pelo menos não era gorda.
Na quinta-feira, mal acordei e minha mãe jogou-me o telefone na cara, dizendo que uma tal de Teresa com voz de velha queria falar comigo. “Oi, sim, claro. Eu também já estou com saudades. Ah, com certeza estarei lá”. Iríamos tomar chope no Pig Burger, no Largo da Ordem, e depois iríamos assistir ET, o Extraterrestre, no Cine Condor. Era a minha chance de ir ver o Coxa em Belo Horizonte. O chope foi maravilhoso, chorei feito um condenado ao final do filme e, quando estávamos indo para o estacionamento para irmos embora, aconteceu aquilo que eu temia: um convite ao prazer. Eu ainda tinha esperanças de ir antes a Minas Gerais e ao Rio de Janeiro sem ter que fazer isso, mas foi impossível. Lá fomos nós para o motel mais chique da cidade, o Labirintê. A mulher tinha mais cabelo no peito do que eu. As coxas da lazarenta pareciam um mapa hidrográfico por causa daquelas varizes todas. Fechei o olho, pensei na Maitê Proença, tirei o Rivellino da cabeça e fiz o que tinha que ser feito. Quando terminamos, ela, sorrindo, segurou meu rosto e disse:
- Eu quero que você vá comigo para Belo Horizonte ver o Coxa eliminar o Atlético Mineiro.
- Ah, querida. Eu não tenho dinheiro para uma viagem dessas e nem sei se vou poder. Tenho aula no Bardhal e vai ser complicado pra mim perder aula nessa altura do ano letivo.
- Que pena. Vou ter que chamar minha irmã, então...
- Eu vou, eu vou. A escola que se dane_ apressei-me em dizer, antes que ela desistisse de me levar. Ganhei mais um beijo de Rivellino, vestimos nossas roupas e fomos embora.
Eu já sabia que o jogo de volta contra o Atlético Mineiro seria dramático e que eu teria que rezar para todos os santos possíveis e imagináveis para sairmos de lá com a classificação. Pior que o jogo era de dia e não ia dar nem para eu apagar as luzes, dessa vez.
As cortinas se abriram, os artistas entraram em cena e o espetáculo, quer dizer, o sofrimento começou. A bola parecia pegar fogo nos pés de jogadores como Lela, Toby, Índio, Edson e Marildo. Ninguém jogou nada. Sorte que a rapaziada lá de trás, principalmente o André e o Rafael, estavam numa tarde iluminada. A bola vinha de tudo que é lado e eles tiravam do jeito que dava. O importante era não deixar a bola entrar. Cada vez que aparecia uma falta ou um escanteio em favor do Galo, alguém na torcida alviverde soltava a célebre frase: “Ih, não quero nem ver”. Mas viam com os dedos abertos sobre o rosto.
E foi assim que a nação Coxa-Branca viu uma das defesas mais espetaculares de todos os tempos do futebol mundial. Depois de um cruzamento que veio da esquerda, a bola desviou na canela do zagueiro Gomes e foi em direção ao gol. Ela passou por baixo das pernas do goleiro Rafael e o estádio inteiro já estava comemorando. Porém, numa prova que Deus é Coxa-Branca, o goleiro alviverde conseguiu girar e, não se sabe como, agarrar a gorduchinha antes que ela ultrapassasse a linha fatal. Muitos juram até hoje que aquela bola entrou. Foi inacreditável o reflexo mostrado pelo goleiro do Coritiba. Ele foi aplaudido até pelos jogadores do Atlético Mineiro. E os últimos cinco minutos da partida? Cada minuto parecia demorar uma hora. Aquilo sim foi um teste para cardíacos. E todos nós passamos no teste. O jogo acabou e a diretoria do Atlético teve que jogar fora a foto que fez. Numa dessas eles poderiam guardar a foto para o Estadual de 86.
Assim que o árbitro acabou com o pesadelo, Teresa virou para mim, com lágrimas nos
olhos:
“José. Você é o meu talismã”. Eu, naquela altura, já nem lembrava mais que ela era a cara do Rivellino e a dei um tremendo beijo de língua. Dessa vez o beijo foi violento. Do jeito que eu estava feliz, era capaz de transar até com a Aracy de Almeida sem reclamar.
Chegamos, então, ao histórico 31 de julho de 1985. Poucas vezes eu vi uma imprensa e um povo com tamanha certeza da conquista de um título. Eles já haviam até reservado o Sambódromo, não sei quantos litros de chope e caminhão do corpo de bombeiros para a festa do Bangu. No estádio, 90 mil flamenguistas, vascaínos, botafoguenses e tricolores (como se chama quem torce para o Fluminense? Fluminensista, hahahahhahaa?) unidos em prol do Bangu. A festa estava desenhada, armada. E o pior é que o Bangu tinha o Marinho e o Arturzinho em excelente forma. Até hoje, não sei como aqueles dois não disputaram a Copa de 86.
Bem, a festa estava pronta, mas esqueceram que haviam convidado o Rafael Camarotta para aquela festa e que aquele cara ali iria fazer a alegria mudar de lado. Enquanto a bola rolava, os cariocas riam à toa. Depois que ela parou de rolar, eles pegaram suas bandeiras, enfiaram debaixo do braço (não pense besteira!) e foram pra casa batendo palmas para a raça alviverde. Conheceram, papudos?
A agonia da galera Coxa-Branca começou na quarta-feira e terminou apenas na quinta, dia 1º de agosto. Quase 180 minutos para conquistar uma taça. Precisava judiar tanto assim? Nem preciso contar que, antes de chegar ao estádio, passei uma noite daquelas com a Teresa. Até parecia que aquela mulher não fazia bobiça há mais de 20 anos. Cheguei exausto ao estádio. Mas vamos deixar a parte ruim de lado e partir logo para o que interessa, que é o jogo mais importante da minha vida. Meu coração devia bater 220 vezes por minuto. Eu nem acreditava que estava lá, em pleno Maracanã, gritando junto com mais 13 mil Coxas-Brancas e esperando o tempo passar para meu time ser campeão do Brasil.
Naquela altura, eu nem lembrava que a vaga na Libertadores já estava garantida. Só pensava no título. E ele começou a vir aos 26 minutos, quando Índio bateu a falta com força, a bola desviou na barreira e enganou o bom goleiro Gilmar. Confesso que levei um tempinho para acreditar que a bola tinha entrado. A ficha caiu quando três ou quatro torcedores (um mais bêbado que outro) vieram na minha direção gritando: “Não tem pra ninguém! Não tem pra ninguém!” E me abraçaram, cantando alto: “Coooooxaaaa! Coooooxaaa!” Dei uma beiçada na cerveja de um deles e comecei a gritar também. Poucas vezes na minha vida fui tão feliz. Ali no estádio eu evitava beijar a Teresa para todos pensarem que ela era minha mãe. É complicado agarrar um tribufu daqueles em público. Aquele peito peludo...
Se o Bangu já havia começado melhor o jogo, depois que tomou o gol, partiu de vez para o ataque. A partida transformou-se numa verdadeira disputa de ataque contra defesa, ou melhor: ataque contra Rafael Camarotta. O goleiro do Coritiba foi arrojado ao se jogar nos pés dos adversários; foi corajoso nas saídas de bola; foi salvador em defesas impossíveis e foi o dono do jogo. Eu era capaz de dizer que o Rafael era muito mais lindo que a minha Teresa.
Aos 35, ainda do primeiro tempo, um tremendo susto. Depois de um rebote infeliz do lateral-esquerdo Dida, que ao invés de chutar uma bola que estava dominada pra fora, devolveu a gorduchinha pra entrada da área, veio o chute do Baby e o desvio no Lulinha. Aquele desvio matou e nem mesmo a muralha chamada Rafael conseguiu evitar o gol de empate. Meu Deus! Como aquele Maracanã tremia. Eu só pensava: “Vai cair essa p.!”
O gol animou ainda mais o Bangu, que continuou pressionando. O maior susto aconteceu no segundo tempo, quando Marinho entrou completamente impedido e fez o gol. O bandeirinha, safado, não marcou nada. Sorte que o árbitro era o Romualdo Arpi Filho, que iria apitar a final da Copa do Mundo, um ano depois. Ele viu que o impedimento era escandaloso demais e anulou o gol do Bangu. Ainda teve uma bola que cruzou toda a extensão da meta alviverde lambendo a risca fatal e também não entrou. Naquela hora, eu lembrei daquela defesa do Rafael no Mineirão, e cheguei à conclusão: “Ninguém vai tirar esse título do meu time. Está escrito nas estrelas que o Coxa vai ser dono do Brasil”. E tome mais um gole de cerveja.
Na prorrogação, nada mudou. O Bangu seguiu atacando e o Rafael seguiu pegando até vento. Foi assim até o último minuto. Aliás, o último lance da partida foi um cruzamento do ponta Gilson para dentro da área e uma ponte sensacional do goleiro coxa-branca. Depois disso, não houve tempo para mais nada e a decisão foi mesmo para os pênaltis.
Se eu já tinha rezado para tudo que é santo até então, passei a rezar tudo em dobro naqueles momentos de angústia. Cada cobrança do Bangu era uma facada no meu peito. Os gols do Coritiba, com exceção do pênalti batido pelo Índio, eram todos na base do quase. Quase bateu na trave. Quase o goleiro pegou. Quase morri do coração.
Enquanto isso, o Bangu fazia seus gols com uma tranqüilidade incrível. Até que chegou a hora do abençoado ponta-esquerda Ado fazer a sua cobrança. Como eu virei fã desse jogador. Ele ajeitou o calção, deu um beijo na santinha, que certamente já tinha ouvido minhas preces também, correu, bateu e a bola foi pra fora. Eu fiquei paralisado nos minutos seguintes.
Não tirava o olho da bola. Ela saiu das mãos do árbitro, foi parar nas mãos do zagueiro Gomes, que a colocou na marca fatal. Aí eu fechei os olhos, baixei a cabeça, uni as mãos e comecei a agradecer a Deus pelo título brasileiro antes mesmo da bola entrar. Só ouvi o grito da Teresa: “É campeão! Não acredito!” Logo em seguida veio a explosão da torcida Coxa-Branca e empurrões de todos os lados. Gomes bateu mal, mas a bola entrou. Eu quase perdi os sentidos de tanta felicidade. Não sabia mais onde enfiar tanta alegria. Eu olhava para o placar eletrônico do Maracanã, que dizia: “Coritiba Foot Ball Club. Campeão Brasileiro de 1985”. Até parecia um sonho. Tantos clubes ficaram pra trás. Naquele instante, só um era o dono da taça. O meu Verdão do Alto da Glória. Contra tudo e contra todos. Com aquela conquista, meu clube entrava para uma lista que não tinha, por exemplo, os nomes do Corinthians, do Botafogo, do Cruzeiro e tantos outros grandes, que até então não haviam sido campeões do Brasil.
Esses foram os heróis da conquista histórica: Rafael, André, Gomes, Heraldo, Dida, Almir, Marildo, Lela, Índio, Tóbi, Edson, Vavá, Marco Aurélio, Gardel, Hélcio, Aragones, Eliseu, Vicente, Paulinho, Zé Carlos (esse tem nome de macho e craque!), Gil, Gérson, Caxias, Luisinho, Jairo e Ênio Andrade. A todos vocês, minha eterna gratidão.
Lembro que acabei perdendo a Teresa no meio daquela confusão toda. Invadi o gramado do Maracanã junto com alguns integrantes da torcida Mancha Verde e voltei para Curitiba no ônibus da torcida. Nunca tomei tanta cachaça vagabunda misturada com coca-cola sem gás. Eu sabia que a festa estava apenas começando. Quando chegamos em Curitiba, a cidade tinha parado para receber os heróis da maior conquista da história do futebol paranaense. Mais de 200 mil pessoas acompanharam a delegação, que seguiu de carro de bombeiro do aeroporto até o Alto da Glória. E eu lá no meio, louco de faceiro, pulando mais que pulga em dia de banho de cachorro.
Somente na segunda-feira pela manhã é que eu fui aparecer em casa. Ao entrar no quarto, um bilhete escrito pela minha querida e santa mãezinha: “Aquela Teresa com voz de mulher velha ligou de novo e disse pra você ligar pra ela”. Eu olhei bem para aquele bilhete, analisei tudo que aconteceu com muita calma e cheguei à conclusão de que aquela mulher foi a responsável pelos dias mais felizes da minha vida.
Liguei pra ela e contei exatamente tudo que eu havia planejado e perguntei se ela me perdoava. Ela ficou um pouco chateada, mas viu que eu não passava de um moleque de 17 anos e que era mais do que normal eu agir assim. Só que, mais uma vez, aconteceu aquilo que eu temia: ela pediu uma transa saideira. Lá fui eu, meio contrariado, para mais uma sessão de beijos de Rivellino e abraços de Tony Ramos. Pelo Coxa vale o sacrifício.
FIM
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Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)