
LITERATURA
ABUSANDO DA SORTE...
Por Gilson de Paula
Sorte é uma palavra que nunca fez parte do meu vocabulário. Desde o dia em que nasci, a única coisa que eu consegui ganhar foi uma bala perdida no calcanhar, enquanto voltava pra casa, depois de perder o emprego. Nunca vi um cara com tanta maré de azar. Tanto que meu nome é Breno Flores das Dores, mas todos me conhecem como “Zicado”. Não que a palavra tenha alguma coisa a ver com o grande Zico, o melhor jogador da história do Flamengo. “Zicado” veio de tanto eu reclamar, nos botecos da vida, que tava num dia de “zica” total. Para quem não sabe, a expressão “zica” serve para quando você começa o dia entrando pelos canos, passa o dia tomando no rabo e termina o dia se f., se lascando. É mais ou menos por aí.
Um belo dia, achei um trevo de quatro folhas na rua e, quando fui apanhar, todo faceiro, pensando que os dias de nuvens negras haviam cessado, acabei atropelado por uma Brasília branca, placa AZ-5026. Traumatismo craniano e braço direito quebrado.
Como eu tenho 47 anos, dois meses e um dia, dá para dizer que eu tive 16.981 dias de azar. Até mesmo no dia em que nasci tive que levar uns treze ou quatorze tapas na bunda porque o médico disse que eu não estava chorando e não conseguia respirar. Depois fiquei uma semana sem comer porque mamãe não tinha leite e, quando o leite finalmente chegou, veio empedrado. Foi uma fase difícil da minha vida.
Aos trancos e barrancos, consegui ter uma infância quase normal, não fossem os pequenos acidentes que me aconteciam. Lembro do dia em que mamãe me deixou dois segundos em cima de uma mesa sinuca para pegar qualquer coisa em sua bolsa. Eu peguei uma bola daquela e joguei. Ela bateu no piso e voltou na minha cabeça. Minha testa ficou idêntica àquela bola sete.
A adolescência também foi quase normal. Eu só não me conformava com o fato de não pegar ninguém. Todos os garotos da minha rua se divertiam pra valer com as meninas. Só eu que não levava sorte no amor. Nem no amor e nem jogo. Uma vez, me apresentaram a Cristina, uma morena com lábios carnudos. Senti que ela me deu bola e, por um segundo, cheguei a pensar que aquela história de falta de sorte era bobagem. Quando estava me apaixonando pra valer, ela contou que o nome verdadeiro dela era Antônio Carlos e me perguntou se, na nossa primeira transa, eu poderia ser o amante passivo. Foi uma relação que não deu certo.
Mas como o assunto principal dessa publicação é o futebol, vou contar como foi que aprendi a gostar desse esporte que tanto eu ouvia falar, mas nunca havia tido o interesse de acompanhar de perto. Tudo começou quando, no final de 1985, eu fiquei em primeiro lugar num concurso de redação da Gazeta do Povo e o prêmio era o ingresso para o jogo Coritiba x Atlético, um amistoso que serviria para a entrega das faixas aos dois clubes, já que um havia sido campeão brasileiro naquele ano e o outro, campeão estadual. O prêmio para o segundo colocado foi uma viagem para o litoral com um final de semana pago numa hospedaria em Matinhos. Até quando fico em primeiro, o segundo colocado é que leva a melhor.
Fui, então, acompanhar o tal jogo. Fui, mas antes não tivesse ido. Por minha causa, o ambiente lá no Couto Pereira ficou mais do que carregado e os pouco mais de 3 mil pagantes viram de tudo naquela noite, menos futebol. Tudo corria normalmente, até que, aos 42 minutos do primeiro tempo, o Nivaldo fez o gol do Atlético. Pra quê? Os jogadores do Coritiba foram pra cima do bandeirinha, que levou catiripapo de tudo que é lado. Levou, mas deu também. O Gomes, zagueiro do Coxa, ficou com o beiço maior do que já era. Depois do sururu generalizado, alguns jogadores do Coritiba simularam uma contusão e o jogo terminou por ali mesmo. Só que a briga continuou nas arquibancadas. Eu, que não sou besta nem nada, me afastei dos brigões. Só que um torcedor lá, não se sabe porque, não foi com a minha cara e me jogou no meio dos brigões. Levei um tapão no pé-da-orelha, um pontapé na barriga, três ou quatro bicudas na bunda e me quebraram dois dentes da frente com uma joelhada, que eu não vi nem de onde veio. Minha primeira experiência num estádio de futebol não tinha sido muito agradável. O saldo foi triste: uma costela fraturada, dois dentes extraídos, hematomas por todos os músculos e vários jogadores suspensos por mais de 100 dias. Por causa daquela brincadeira, o Rafael Camarotta perdeu a chance de disputar a Copa de 86.
Para me vingar da dupla AtleTiba, resolvi torcer para o Pinheiros, um time que tinha pouca torcida e que usava as duas cores que eu mais gosto: azul e branco. Azul da cor do meu Fusca 1978 e branco para lembrar de todas as noites em que eu tentei agarrar alguém e passei em branco.
No dia 2 de março de 1986, lá estava eu devidamente acomodado nas arquibancadas do Estádio Erton Coelho Queiroz para ver o confronto entre o meu Pinheiros e o Coritiba, pelo primeiro turno da fase classificatória do Campeonato Paranaense. Quando contei ao meu amigo Nenê que iria ao jogo, ele fez um comentário que me deixou intrigado: “Zicado. Tem certeza que vai lá? Tenho pena dos coitados que forem ver esse jogo. É capaz de cair todo o estádio na cabeça deles. Azarado do jeito que você é, até terremoto pode dar na hora da partida que não vou me espantar”.
Como o Nenê sempre foi meio exagerado, não dei importância ao que ele dizia e me mandei para o estádio da Vila Olímpica, que recém tinha sido inaugurada.
O Pinheiros até que venceu o jogo, mas um garoto do Coritiba, que fazia sua primeira partida como profissional, quebrou a perna numa dividida com um jogador pinheirense. Um minuto antes, a bola havia sido chutada para a arquibancada e eu a peguei, jogando a gorduchinha nas mãos desse pobre lateral-direito para ele a colocar novamente em jogo. Não deu outra. Coitado. Se futricou! Sem contar que roubaram minha carteira, enquanto eu tentava sair do estádio, após o término daquela partida.
Decidi, então, largar mão daquele negócio de ir aos estádios. Até que era bacana, mas minha presença não poderia ser altamente nociva àquela grande quantidade de gente.
O campeonato seria disputado em turno e returno, com quadrangulares após esses turnos. Os vencedores desses quadrangulares fariam a final do Estadual de 1986. O meu Pinheiros ganhou o primeiro turno e o Coritiba abocanhou o returno. Logicamente, Pinheiros e Coritiba fariam a final do campeonato.
Durante a competição, o departamento jurídico do Coxa conseguiu, em novo julgamento, livrar a cara daqueles que estavam ferrados e ferrou aquele que estava livre de qualquer punição. Rafael, Índio e Marco Aurélio, que haviam pegado 120 dias de gancho, foram absolvidos. O Gomes, que saiu no tapa com o bandeirinha no fatídico AtleTiba, mas que estava ileso de qualquer punição, pegou 120 dias de suspensão e deu adeus à sua vencedora carreira no mundo da bola.
Naquela época, eu havia feito umas economias e estava pensando em vencer financeiramente na vida. Jamais seria um bombeiro. Com minha sorte, iria morrer carbonizado na primeira semana. Marinheiro? Nem pensar! Morrer afogado é fria! Com a sorte que eu tinha, era capaz até de galinha deixar de ser ovípara, caso eu abrisse uma granja (nossa! Nessa eu arrasei!hahahhahaha). Com certeza, o mundo viraria vegetariano, caso eu abrisse um açougue e assim sucessivamente. Resolvi apostar, então, num negócio mais do que seguro: um boteco. É mais fácil a galinha deixar de ser ovípara do que acabarem os bêbados do mundo. E assim foi. Chamei o Nenê para a sociedade e, como eu imaginava, o empreendimento foi um tremendo sucesso. Enquanto houvesse cachaça e cerveja no mundo, sempre haverá uma boca sedenta para mandá-la goela abaixo. Mesmo assim, passei numa loja de mandinga e comprei um colar com um pé-de-coelho azul e branco na ponta. Quanto mais coisas para se garantir, melhor.
Lembro até hoje daquele dia 7 de junho. Nenê, um coxa-branca daqueles que vibram até quando passa o replay dos gols do time na TV, queria que eu tirasse, de uma vez por todas, aquela cisma de que eu era um azarado.
“Olha o sucesso do nosso boteco. Isso aqui vive cheio. A polícia nem vem mais dar batidas aqui. Você nunca mais perdeu a carteira. Sua vida mudou, Zicado. Acho que você deveria ir ao jogo comigo. Ficamos na torcida do Coritiba e eu prometo que não conto pra ninguém que você é pinheirense”.
Eu franzi a testa, quase juntando as sobrancelhas, como que dizendo: “Será?”
Ele apenas respondeu: “Claro! Vamos ao jogo. Se eu estivesse com medo, não iria te convidar. Você abandonou a maré de azar há muito tempo. E tem mais: a partir de hoje você deixa de ser Zicado e vai passar a ser apenas Zico para acabarmos de vez com a maré de má sorte. Que tal?”
Eu acabei gostando do rumo da prosa, até porque o Zico era o melhor jogador do futebol brasileiro naquela época. Era o fim da minha vida de azar. Para concretizar o fim dos dias de pé-frio, só faltava eu ganhar um prêmio qualquer. Aí sim o milagre estaria completo. Joguei na loteca e, apesar de ser pinheirense, acabei apostando no Coritiba e no empate. Se meu time perdesse, eu faria o ponto na loteria esportiva. Se eu perdesse na loteria esportiva, ganharia o jogo. A sorte estava cercada. Como era domingo, o bar estava cheio de gente ao meio-dia. Fazíamos frango assado e chovia de gente para levar os penosos embora. Era gente jogando sinuca, outros pendurados no balcão, música sertaneja rolando no rádio, enfim, um começo de domingo mais que perfeito. Até que lembrei do fim da minha maré de azar e resolvi comprar uma rifa de um frango. Número 39. Nunca esqueço que estava mijando e o Nenê batendo na porta:“Zicado! Zicado! Deu 39. Nós ganhamos o frango!”
“Nós? Eu ganhei o frango! E tira o zóio que ele é só meu”, eu estava com lágrimas nos olhos. Devorei cada pedaço daquele maravilhoso assado. Era a prova que faltava.
E lá fui eu assistir o clássico válido pelo primeiro turno do quadrangular do segundo turno (entendeu? Nem eu, mas tudo bem. O jogo valia isso aí que eu disse). O jogo terminou empatado em 1x1 e, dessa vez, ninguém se machucou, ninguém me roubou, enfim, foi uma tarde super agradável. Agora, agradável mesmo foi conferir o resultado da Loteria Esportiva, no Fantástico. Cada jogo que a zebrinha anunciava, aumentava meu batimento cardíaco. Jogo 13, Pinheiros 1x1 Coritiba.
Peguei a bicicleta e fui correndo na casa do Nenê, que já devia estar peidando de bêbado:
“Nenê! Nenêêê!!!!!! Você não tem idéia do que acabou de acontecer”.
“Vixe. Cruz credo, Deus me livre de todo o mal. O que foi que aconteceu, ómi? Por que essa cara?”
“Eu acabei de fazer 13 pontos na Loteria Esportiva, Nenê! Acredita nisso! Eu, o Zicado, ganhei na loteria”.
Como eu não entendia muito de futebol, acabei jogando algumas zebras sem querer e ganhei uma grana legal. Se fosse hoje, uns onze mil reais. Deu pra fazer uma reforma e tanto no meu Fusca e ainda pintei a minha metade do bar de azul e branco.
Dez dias depois, Pinheiros e Coritiba voltariam a se enfrentar no mesmo Estádio Erton Coelho de Queiroz para começarem a decidir o título do Campeonato Paranaense de 1986. Mais uma vez, fiz um cartão da Loteria Esportiva e pedi para o Nenê jogar o cartão pra mim, já que eu tinha muita coisa pra fazer no bar. Só que o lazarento chegou na casa lotérica e, ao ver que eu tinha jogado contra o Coritiba dele, fez outro cartão e mudou, cravando coluna 2 seco. O Coritiba venceu o jogo por 1x0 e eu fiz os treze pontos pela segunda vez em duas semanas. Dessa vez, com a ajuda do meu sócio e amigo Nenê. É ou não é sorte demais?
Veio, então, a decisão do título no Couto Pereira. Eu queria ver meu Pinheiros levantar a taça e achei que o único jeito de conseguir isso seria apostando com o Nenê. Com a sorte que eu tava, jamais o meu Pinheiros seria derrotado pelo Coxa naquela final, mesmo precisando vencer de qualquer jeito, já que havia sido derrotado em casa.
“O que nós vamos apostar?”, perguntei ao Nenê.
“Podemos apostar um mês de cerveja na conta do outro aqui no nosso boteco”, ele respondeu.
Isso daria em torno de umas seis cervejas por dia. Em 30 dias, 180 garrafas.
“Fechado. Se o Pinheiros for campeão, eu tenho um mês de cerveja na tua conta e vice-versa”.
“Nunca foi tão fácil tomar cerveja nas tuas costas, Zicad... Zico”.
“Vamos ver, então”.
O Pinheiros tinha um timaço. Dionísio, Mauro Madureira, Marquinhos, Marinho, Norberto, Dirceu Pato, Toinho, enfim, era uma verdadeira constelação. O Coritiba era a base da equipe que havia sido campeã brasileira, reforçado por jogadores como Suca, Tostão e o ponta-direita Geraldo, que entrara no lugar do Lela, que havia quebrado a perna. O jogo aconteceria numa quarta-feira à noite, no Couto Pereira. Era pagar o ingresso, esperar o jogo acabar e voltar pra casa para tomar as cervejas nas costas do meu sócio.
A partida começou tensa, com o Pinheiros só se defendendo. O primeiro gol não demorou a sair. Pensei: “Será? Não! A sorte não iria me abandonar. Vou dobrar a aposta e o Pinheiros vai virar o placar”.
“Nenê. Quer dobrar para dois meses de cerveja?”
O Nenê estava tão empolgado com o jogo que nem prestou atenção no que eu disse. Apenas gritou: “Tá dobrado!”
Não adiantou muito. O Coritiba foi lá e fez o segundo gol. O Pinheiros iria precisar fazer três para virar o placar. Só tinha um jeito: chutar o pau da barraca.
“Nenê. Vamos apostar a minha metade da sociedade contra a sua? Quem levar o título fica com o bar”
Ele apenas olhou pra mim e disse:
“Você não pode confiar tanto assim na sua sorte, Zico. O jogo já está 2x0 e se eu apostar contigo será desonesto da minha parte”.
“Se você não apostar, está desfeita a sociedade e eu tiro minhas coisas de lá hoje mesmo”.
“Bem, se você realmente quer isso, tudo bem. Eu topo”.
Ah, eu tinha certeza que o Pinheiros iria fazer um gol atrás do outro, dali em diante. Era esperar o tempo passar e enxotar o Nenê do “meu boteco”. Só que o tempo passou, passou... e nada do Pinheiros ao menos descontar. No final, o Coritiba ainda marcou mais um e ficou com a taça: 3x0, fora o baile. Perdi o título e perdi meu bar, onde havia empregado quase todo o dinheiro que ganhei na Loteria Esportiva. Cheguei à conclusão de que quem nasceu pra ser Zicado, nunca vai chegar a Zico, ou seja: quem nasceu pra ser “Pinheiros” nunca vai chegar a “Coritiba”.
Uma coisa é você ter sorte. Outra coisa é você abusar dela.
FIM
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)