
COXANAUTAS
Os recentes acontecimentos lamentáveis envolvendo atitudes racistas na Europa despertaram o mundo para um problema grave. O atacante do Barcelona, camaronês, Samuel Eto’o vem sendo uma das maiores vítimas deste problema, que tem atingindo níveis muito acima da simples discriminação. Recentemente, Eto’o quase deixou o gramado durante um jogo por causa dos gritos que vinham da arquibancada, porém foi convencido pelo árbitro e por Ronaldinho Gaúcho a continuar em campo.
No Brasil, recentemente, o zagueiro do Juventude de Caxias do Sul, Antônio Carlos, foi acusado de ofender o volante do Grêmio, Jeovânio, com palavras racistas. Antônio Carlos se defendeu afirmando que nada disso aconteceu e que ele mesmo já foi vítima de racismo quando atuava pelo Roma da Itália. No ano passado o Juventude foi punido pelo STJD por que a torcida ofendeu o volante Tinga do Grêmio.
No Coritiba, este sempre foi um assunto muito controverso. Na partida de quarta-feira (8), o atacante Jefferson comemorou seu segundo gol no jogo fazendo um sinal anti-racismo. O comentarista da Transamérica, Airton Cordeiro, reportou-se ao tema, elogiando o jogador pela atitude. Além disso, Airton afirmou que o Coritiba foi um Clube que já discriminou negros.
Contudo, este é um tema por demais polêmico e muito questionado. Pensando nisso, os administradores do site Coxan@utas resolveram convidar o jornalista Vinicius Coelho, por sabermos de seu vasto conhecimento histórico, para falar sobre o tema, introduzindo a campanha dos Coxan@utas contra o racismo no futebol.
A idéia principal da campanha é, primeiramente, explicar a todos a verdadeira história dos negros no Coritiba. Depois, iremos entrevistar negros que defendem e defenderam o Verdão. Além, é claro, de incentivar o combate ao racismo nos estádios, por causa do alastramento destas atitudes devido aos problemas oriundos da Europa.
Confira abaixo a explicação, com base histórica, de Vinicius Coelho sobre a inserção dos negros no futebol do Paraná e no Coritiba.
OS NEGROS NO PARANÁ...
... E no Coritiba. Com as recentes manifestações racistas na Europa e agora até no Brasil, volta-se a abordar o tema do negro em nosso futebol, que tem variantes de análise, com a principal dando uma explicação mais prática pela ausência, por ser Curitiba, uma cidade fria e, ainda melhor explicado, uma cidade onde as colonizações alemã, polaca, ucraina foram dominantes. O que chama a atenção, é que sempre que tal tema é focalizado, o Coritiba entra em cena, como "o clube que não permitia pretos em seu time". Burrice. Quem não permitia negros em seu time sempre foi o Atlético. Soube que recentemente saiu em um livro sobre o futebol do Paraná, que na década de 20 o Atlético tinha um negro, Urbino. Tinha o Urbino, só que ele não era negro. Moreno, como o Coritiba tinha o Cuca, o Lival, o Laudelino, todos das décadas de 20 e 30.
Já contei várias vezes isso, que levado pelo desejo de pesquisa em torno do assunto, conversei longamente por duas vezes com o presidente Couto Pereira que além dos problemas citados ali em cima, a existência de negros em Curitiba era mínima. Como o Coritiba era um clube da classe média e com o estigma de ter sido fundado por alemães, havia um constrangimento natural dos negros irem tentar a sorte no clube. E foi o próprio Couto Pereira que simplesmente convidou um jogador do Palestra, negro, para jogar em 1932, disputando o campeonato de 31, pelo time coritibano. Era o Moacir Gonçalves, que acumulava as funções de jogador e técnico, tendo exercido também o treinamento do Ferroviário, Bloco Morgenau e Britânia com o correr dos anos. Em 1941, Bananeiro, um dos irmãos Ferreira, de presença tradicional no Feroviário, foi para o Coritiba. No ano seguinte, seu irmão, Janguinho, também foi. Na diretoria coritibana, por volta de 37,o capitão Anibal, negro, era figura de destaque. Chegou a general. Em 46, apareceu no Alto da Glória o Enock (Biguazinho).
O Atlético apareceu em 1964, com dois negros no time juvenil: Mimiu e Amauri. O segundo chegou a ser destaque no time principal. Em 67, Antonio Irineu, veio lá do Rio e um ano depois o Luciano e o Jurandir, e um pouco mais tarde o Charrão. Foi quando o Atlético liberou as amarras que impedia a entrada de negros em seu time. Há portanto uma grande diferença, entre a época que o Coritiba teve negros em seu time e o seu rival.
A incidência maior de negros no Ferroviário e no Britânia, era porque os dois clubes tinham uma origem mais humilde, sem grandes figuras da sociedade curitibana, o que não causava aos jogadores constrangimento algum para que eles os integrassem, ainda mais que não havia o compromisso social nas duas agremiações. O uso constante do nome do Coritiba, como um clube que não admitia negros, é apenas uma necessidade de procurar sempre denegrir a imagem de um clube que sempre foi o maior do Paraná em todos os setores. Só que esses críticos, deveriam pelo menos procurar pesquisar melhor, isentos, para inclusive ganharem o respeito necessário à profissão.
Por Vinícius Coelho
Nota
A equipe de administradores do site Coxan@utas agradece enormemente a maneira cordial com que foi atendida pelo jornalista Vinícius Coelho, bem como pela prontidão de sua resposta a nosso pedido. Muito obrigado, Vinicius!
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)