
LITERATURA
O site COXAnautas divulga para a fiel torcida do Coritiba que acompanha a trajetória do treinador René Simões um capítulo do livro que ele está escrevendo.
Neste trecho da obra, Simões relembra do jogo Coritiba 1x0 Ipatinga, com gol de Ânderson Lima, cobrando pênalti, aos 48 do segundo tempo, na quarta cobrança.
Confira:
... Aos 48 do segundo tempo, o juiz marcou pênalti no Ricardinho. Ele arrancou pela esquerda, entrou na área e, na visão do árbitro, foi derrubado. Achei que não. Mas lá em Ipatinga, quando perdemos de um a zero, foi um absurdo o pênalti que deram contra nós. Acho que ficou igual.
Tive a oportunidade de encontrar o presidente do Ipatinga em Barueri e nós dois tínhamos a mesma interpretação dos dois pênaltis, foram mal marcados. Ficou empate.
O Anderson pegou a bola, colocou na marca do pênalti, e ficamos aguardando para a celebração. Não seria hoje que ele iria perder um pênalti. Ou seria?
Não acreditei quando vi o goleiro defendendo. Seria hoje? Menos ainda acreditei quando o bandeira mandou voltar. Na posição que temos no campo, ver com exatidão o que todos viram - o goleiro se mexer, não e fácil. O bandeira foi perfeito, só soube disso no dia seguinte, pelas imagens da TV.
Anderson de novo, agora e só comemorar, ele não vai perder e o goleiro não vai cometer o mesmo erro de sair aonde saiu no primeiro. Esperei, precisávamos daquele gol, era fazê-lo, e três pontos. Não é possível - ele pegou de novo, Deus sabe o que faz. O quê???
O bandeira mandou voltar, de novo. Novamente, eu só saberia que ele estava certo assistindo pela TV.
Esperei pela reação do Anderson: será que vai me olhar ou pedir para trocar o batedor? Olhei para todos os jogadores e nenhum me olhou, todos no banco de reservas se abraçaram e ficamos assim esperando a terceira cobrança. Nunca havia passado por isso, era inédito na minha carreira e acho que para todos que estavam naquele estádio.
Achei Anderson calmo. Somente na semana seguinte, ele me falou que não via nada naquele momento, foi pelo instinto, coragem e experiência que conseguiu se equilibrar e bater de novo. Ainda esperou que eu tivesse uma reação de trocá-lo ou de algum jogador em pedir para bater; como todos fomos solidários com ele, foi para a batida.
Todos pulamos e comemoramos, bola no fundo da rede, gol salvador, acabou o sofrimento. Risos, lágrimas, gritos, explosões e... o que ele está fazendo? Novamente o bandeira deu a movimentação irregular do goleiro, neste caso de forma errada, pois foi gol.
Eu não trocaria o Anderson, a menos que ele pedisse naquele momento, ele era o batedor dos pênaltis e tinha feito a terceira batida.
Nos abraçamos novamente, rezamos, pedimos, imploramos. Eu consegui olhar para as arquibancadas e vi muita gente virada de costas para o campo, outros tapavam os olhos com as mãos, outros com as mãos em forma de súplicas, enfim, um momento lindo e difícil.
O Anderson me contou que naquele quarto pênalti não sentia absolutamente nada, ficou gelado e sem saber o que fazer, já não lembrava os cantos que tinha escolhido nas batidas anteriores, só sabia que tinha que fazer o gol.
Somente um jogador com a bagagem e tarimba dele poderia ter suportado aquela situação. Nós todos nos preparamos para estar junto dele, acontecesse o que fosse. Mas é claro que queríamos correr para a comemoração.
Ele colocou a bola na marca e podíamos ouvir a respiração e os batimentos cardíacos uns dos outros ali naquela corrente de braços, corpos e mentes. O estádio ficou mudo, sem vida, sem alma; só havia uma esperança silenciosa, um pouco assustada, mas que ia armazenando energia e crescendo sua fúria para explodir, como? Só o Anderson Lima poderia determinar.
Explodimos, ele e sua experiência nos levou ao paraíso. Havia choro por todos os lados. A clínica do Dr. José Mauro, meu amigo e cardiologista do Coritiba, acabava de receber menção honrosa: todos passaram no teste. A comemoração foi digna de Copa do Mundo. Aliás, para os que são fanáticos por seus clubes, já ouvi isto várias vezes, a vitória do seu clube nunca pode ser comparada com uma vitória da Seleção Brasileira; para eles a paixão pelo clube está acima da paixão pelo país. Pergunte!
Se antes do jogo caímos nos braços da torcida como uns adolescentes, tímidos, duvidosos e inseguros do que poderíamos fazer daquela relação e naquele momento, depois do jogo, já mais maduros e com toda confiança, atendemos o chamado da torcida - assim como os apaixonados atendem às suas amadas e amados. Ela queria, e nós a desejávamos, ela CHAMAVA, CLAMAVA: "VEM CORITIBA!!! VEM CORITIBA!!!"
E fomos, nos deliciamos, foi uma entrega total, alucinante, foi uma perfeita fusão de corpos e mentes. Um orgasmo mútuo e sincronizado. Essa harmonia explícita e pública jamais havia sido visto no Brasil, a não ser em jogos que celebram o título. Estávamos marcando uma nova forma de relacionamento entre torcida e time. Que essa união seja na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, amando e sendo fiel até os últimos dias, amém.
Veja algumas fotos deste jogo inesquecível para a torcida que nunca abandona:
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)